Elisabete  Miranda
Elisabete Miranda 19 de junho de 2014 às 20:01

Porque não nascem mais crianças em Portugal?

Quando há uns anos uma empresa criou o prémio de "pai do ano" para incentivar os pais a ficarem um mês em casa com os recém-nascidos, em substituição das mães, ninguém se apresentou a concurso.

Uns receavam a troça dos amigos, outros porque as mulheres nem admitiam tal heresia. A história foi contada a mim e à Alexandra Machado por um director da Auchan no âmbito de uma reportagem sobre as (poucas) boas práticas empresariais de conciliação entre trabalho e família, e veio-me à memória a propósito dos números que voltam a colocar Portugal na cauda da natalidade.

 

Saber porque não nascem mais crianças, como há uns anos indagou o Presidente da República, é uma pergunta sem resposta única. Os incentivos monetários e fiscais ajudam (mostra-o a França) mas estão longe de ser tudo (prova-o a Alemanha). Equipamentos sociais a preço acessível, com horário flexível e próximos do emprego seriam um precioso estímulo. Ter trabalho e perspectivas de estabilidade é fundamental. Há contudo uma dimensão que,  vindo a ganhar espaço no debate, é ainda menorizado: políticas de igualdade de género.

 

O facto de 30% dos homens nem sequer tirar a licença obrigatória de parentalidade ou de 80% do absentismo laboral ser feminino e, na maioria para assistência aos filhos, não é um mero problema privado de distribuição de tarefas familiares. A persistência destes desequilíbrios sociais leva as empresas a considerarem as mulheres menos comprometidas com a carreira e a apostar menos na sua progressão. E aqui inicia-se o que a OCDE define como um "círculo vicioso": as mulheres, por seu turno, percebendo que têm menores hipóteses de chegar mais longe ou encarnam o estereótipo e arriscam ficar para trás na carreira, ou adiam a maternidade.

 

Esta é um área onde as políticas públicas têm grande espaço de intervenção, sem gastar dinheiro. Medidas como a maior partilha obrigatória das licenças parentais e divisão obrigatória das faltas para assistência aos filhos seriam pequenos passos para resolver um grande problema.    

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