Manuel Esteves
Manuel Esteves 28 de junho de 2018 às 23:00

Longe da vista, longe do coração

Os líderes europeus preparam-se para criar plataformas de imigrantes do outro lado das fronteiras europeias para "pôr fim à trágica perda de vidas no mar". Mas o problema não está no mar, está na destruição da vida de milhares de homens, mulheres e crianças. No mar ou em terra. A tragédia continua sem fim à vista.

O tema da imigração regressou em força à Europa. Porque há agora mais imigrantes a morrer no Mediterrâneo? Não. Porque estão a chegar cada vez em maior número à Europa? Não, são muito menos agora. A razão é política e prende-se com a chegada da extrema-direita ao poder em Itália. Essa foi a gota de água que provocou um novo sobressalto na Europa.
 

Mas o problema vem muito de trás. Antes de os governos serem hostis à imigração, antes de a extrema-direita começar a crescer e a semear o ódio pela Europa, foram os povos europeus os primeiros a manifestar de forma silenciosa um desconforto com a nova vaga de imigrantes. O medo latente dos europeus em relação aos negros oriundos de África – que tem explicações várias – foi explorado por movimentos políticos que são xenófobos mais por oportunismo do que por convicção.

O medo é como a erva daninha, propaga-se rapidamente. E o terreno mais propício ao crescimento desta erva daninha chamada xenofobia são as camadas pobres e remediadas da população, nas quais falta emprego, qualificações e perspectivas de vida e em que se vive de forma insegura, seja em casa, na rua ou no emprego. A insegurança alimenta o medo que por sua vez dá de comer ao ódio.

O que fazer? Essa é uma das grandes questões que paira sobre o Conselho Europeu que termina hoje e a resposta não é fácil. Pelo que se sabia à hora de fecho desta edição, os líderes europeus preparavam-se para prosseguir o caminho seguido até aqui. A entrada de imigrantes na Europa caiu de forma significativa no ano passado porque se criaram tampões do outro lado das fronteiras europeias. Na Líbia, onde o anterior governo italiano, do Partido Democrata, é suspeito de ter feito acordos com chefes de guerra líbios pagando-lhes para estes travarem, como bem entenderem, os imigrantes. Se o fez ou não, ninguém sabe, o que se sabe é que a imigração em Itália caiu a pique. Também na Alemanha diminuiu muito a entrada de imigrantes, beneficiando dos acordos feitos entre a União Europeia e a Turquia para conter os imigrantes em condições que também têm sido questionadas por organizações de direitos humanos.

Donald Tusk explica que o objectivo das plataformas regionais de desembarque fora da Europa é "destruir o modelo de negócio dos contrabandistas e pôr fim à trágica perda de vidas no mar". Esperemos que o resultado não seja passarem a morrer em terra, amontoados em campos de concentração. Longe da vista e do coração da Europa. 

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