Manuel Esteves
Manuel Esteves 12 de julho de 2018 às 23:00

O caos ao virar da esquina

Quando esperamos encontrar o caos, o colapso, a ruptura, o horror, ficamos surpreendidos porque, apesar de tudo, os hospitais ainda tratam, as escolas ainda ensinam e os tribunais ainda julgam.

Caos: substantivo masculino, que significa confusão dos elementos antes da criação do universo, explica o dicionário online Priberam. Em sentido figurado, significa confusão, desordem, perturbação.

Vale a pena relembrar o significado da palavra porque a avaliar pelo que aí se diz e se escreve é esse o estado de grande parte dos serviços públicos do país, em especial na Saúde. Em cada esquina, já não temos um amigo. Temos o caos. E quando não é o caos, é o colapso ou a ruptura. O caos nos serviços de urgências e em vários hospitais do país; o pré-colapso nos transportes públicos; a ruptura nos tribunais; e o "burn out", que ameaça quase metade dos professores.

E quem faz estes diagnósticos catastróficos? São os bastonários das ordens profissionais; os sindicatos sectoriais e os partidos políticos da oposição. Entidades fundamentais ao bom funcionamento de uma sociedade democrática que fazem – e devem fazer – críticas e alertas sobre o funcionamento dos serviços públicos. Mas também deve haver responsabilidade. Porque água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E as descrições assustadoras têm efeitos perversos, em particular o de afastar os utentes da classe média dos serviços públicos e o de desmotivar os funcionários que aí trabalham.

Por outro lado, quem transmite estas mensagens – jornais, televisões e rádios – também tem a obrigação de saber que as ordens profissionais, os sindicatos e os partidos têm a sua agenda e os seus interesses – legítimos – que não coincidem necessariamente com os dos utentes em geral. Se um determinado sindicato disser que um dado serviço está a funcionar relativamente mal, não terá muito tempo de antena. Mas se disser que está caótico, aí sim, tem boas hipóteses de conquistar um título.

É verdade que o país não é perfeito e os serviços públicos ainda menos. Há problemas graves nos serviços do Estado, uma grande carência de meios humanos e equipamentos e é fundamental falar nisso. Apesar disso, este ainda é o mesmo país que surge em quase todos os estudos internacionais como tendo um dos melhores sistemas nacionais de saúde; este é o país que tem apresentado nos últimos anos melhorias consistentes e notáveis no PISA – programa de avaliação de alunos desenvolvido pela OCDE; este é o país que se destaca pelos baixos índices de criminalidade.

O único lado bom destas descrições apocalípticas é a redução das expectativas. Quando esperamos encontrar o caos, o colapso, a ruptura, o horror, ficamos agradavelmente surpreendidos porque, apesar de tudo, os hospitais ainda tratam, as escolas ainda ensinam e os tribunais ainda julgam.

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