Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro 21 de junho de 2018 às 23:00

Ainda ninguém percebeu

É pena que quase ninguém tenha percebido isso. A começar pelo Estado, que não se pode congratular por a dívida pública baixar meia dúzia de pontos percentuais numa altura em que o rácio continua a ser dos mais elevados do mundo e o crescimento económico é o mais forte da década

"É preciso que as pessoas percebam que a época de juros baixos acabou ou está prestes a acabar." O alerta foi deixado há algumas semanas por Álvaro Santos Pereira e o tema está em debate há já alguns meses (para não dizer anos). Ou seja, o assunto não é novo, mas o problema é que poucos têm consciência de que já não falta muito tempo para acabar a época do dinheiro barato.

É compreensível que para a maioria das pessoas este seja um assunto que não motive preocupações. Na Zona Euro, os juros estão abaixo de 1% há oito anos e nos 0% desde 2016. Dinheiro barato passou a ser o novo normal, mas pensar que será assim para sempre é um erro que pode custar muito caro. Também é verdade que a subida de juros não está iminente. Mario Draghi repetiu em Sintra que o BCE vai ser "paciente" na inversão da política monetária e os economistas acreditam que só no final de 2019 acontecerá a primeira subida de juros.

Mas o problema é que as acções a tomar para lidar com a subida de juros devem ser adoptadas antecipadamente e não quando estes já estiverem a subir. Ora, olhando para as estatísticas, os números dizem-nos que os agentes económicos portugueses reduziram o endividamento nos últimos anos, mas não a um ritmo suficiente para afastar as preocupações sobre aquele que persiste em ser um dos principais problemas da economia portuguesa.
 

Ainda esta quinta-feira o Banco de Portugal revelou que o endividamento da economia portuguesa atingiu um valor recorde de 725 mil milhões de euros em Abril. O endividamento conjunto das famílias, empresas e Estado corresponde a cerca de 370% do PIB. O nível está longe do máximo superior a 400% do PIB fixado há alguns anos, mas esta desalavancagem tem sido conseguida sobretudo à custa do crescimento da economia e não tanto do esforço de redução do valor do endividamento.

Na mesma entrevista ao Negócios, o ex-ministro da Economia assinalou ser "importante que as famílias, as empresas e os Estados estejam bem conscientes de que a subida de juros vai ter um impacto bastante grande nos seus orçamentos". É pena que quase ninguém tenha percebido isso. A começar pelo Estado, que não se pode congratular por a dívida pública baixar meia dúzia de pontos percentuais numa altura em que o rácio continua a ser dos mais elevados do mundo e o crescimento económico é o mais forte da década. Como disse um dia o actual primeiro-ministro, "é capaz de ser poucochinho". 
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