Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro 15 de julho de 2018 às 23:00

Só uma Raize não acaba com o marasmo

A OPV da Raize é só uma gota de água na necessidade de dinamização da bolsa portuguesa.

Um dos fundadores da Raize considera que, com a admissão das acções da empresa na Euronext Lisboa, "ficou evidente que é possível às PME em Portugal entrarem na bolsa. Agora virão mais empresas, esperamos nós". José Maria Rego não é o único a ter esta esperança. A própria bolsa portuguesa, mas também os bancos, jornalistas e a generalidade das pessoas ligadas ao mercado de capitais português o deseja.

A estreia da fintech na praça portuguesa está agendada para quarta-feira, colocando fim a cerca de quatro anos de ausência de novas cotadas em Lisboa (a Luz Saúde foi a última em 2014) através de OPV. Mas neste período foram muitas as que saíram. Ou porque foram compradas (como vai acontecer com o BPI), já não existem (como a "velha" PT e o BES) ou não estavam lá a fazer nada devido à liquidez quase inexistente (Cimpor).

Fazer hoje um comentário ao que se passou numa sessão da bolsa portuguesa é quase sempre um exercício deprimente. É a variação de meia-dúzia de títulos que determina a evolução do PSI-20 e muitas vezes basta que um deles desça/suba 1% para ser o "destaque" do dia.

Não será a entrada da Raize a alterar os dias de marasmo na bolsa portuguesa. A futura cotada terá uma capitalização bolsista mínima (10 milhões de euros) e depois destes primeiros dias de maior exposição passarão semanas sem se ouvir falar dela. Independentemente do comportamento das suas acções na bolsa portuguesa, os fundadores da Raize tiveram o mérito de perceber que esta era uma forma atractiva de obter financiamento e ao mesmo tempo potenciar o seu negócio, que passa precisamente por angariar investidores para conceder financiamento a PME. O efeito novidade ajudou a puxar pela forte procura na OPV e a garantir o encaixe pretendido.

Mas a OPV da Raize é só uma gota de água na necessidade de dinamização da bolsa portuguesa. Ainda assim, uma das mais relevantes dos últimos tempos, o que ilustra bem o que não tem sido feito pela promoção do mercado de capitais como alternativa de financiamento para as empresas. Quase todos os últimos Governos têm prometido iniciativas para promover o acesso ao mercado de capitais, mas medidas relevantes não há uma para mostrar.

Nesta conjuntura favorável de recuperação económica há um crescente número de novas empresas a necessitar de financiamento, sobretudo de sectores que não estão representados no PSI-20. Mas que incentivos têm em optar pela bolsa em detrimento de um simples financiamento bancário? Como concluiu a CMVM, no seu último relatório anual, são muito poucos e enquanto isso não mudar o marasmo tem tudo para continuar.
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