Rui  Neves
Rui Neves 25 de março de 2014 às 21:29

É a magia, estúpido!

Magia é o acto de fazer aparecer e desaparecer o que quisermos através de truques, tornando a realidade um campo inesgotável de produção de efeitos extraordinários por meios artísticos. E quando é usada com o intuito de prejudicar o(s) outro(s), a isso chama-se magia negra.

 

Confesso que tenho um especial fascínio, enquanto jornalista, pela forma como os políticos, financeiros, organismos multilaterais, etc. e tal, utilizam fórmulas mágicas no universo contabilístico.

Ainda agora fomos surpreendidos com o anúncio do Espírito Santo, que, obrigado a tal pelo Banco de Portugal, vai ter de fazer uma provisão extraordinária de 700 milhões de euros – leu bem, caro leitor, 700 milhões de euros.

A banca portuguesa está ainda longe de tirar todos os esqueletos do armário. A contabilização monstruosa de imparidades vai continuar. E há tantas histórias mal contadas, por exemplo, do mundo de fundos de reestruturação criados para retirar do balanço dos bancos o crédito malparado a empresas.

Continuando com a magia contabilística, soubemos também há poucos dias que, por via da alteração das formas de cálculo do PIB potencial, o défice orçamental estrutural português é afinal menor do que se julgava. Podemos, entretanto, continuar a jogar às casinhas, aos "cowboys", aos polícias e ladrões, até fazer desaparecer toda a face negra das nossas contas públicas!

Mas, por mais magia que se faça, há algo a que vamos continuar a assistir: ao aumento da dívida do Estado em mais 6, 10, 30 mil milhões de euros, ninguém sabe ao certo. Porque se andou a brincar aos perímetros nas últimas décadas, deixando de forma do universo contabilístico estatal uma série de empresas e entidades públicas que, agora, por força da chamada reclassificação, vão fazer disparar a dívida pública, desconhecendo-se ainda os impactos no défice. E há ainda que contabilizar as polémicas PPP.

Temos uma percepção mínima garantida da magia realizada a nível mundial (leia-se efeitos do "subprime" e a cegueira de reguladores, agências de "rating" e quejandos) e pelo Estado e grandes grupos económicos portugueses (até os cotados, pois então!), mas há ainda um mundo desconhecido – a realidade contabilística das empresas nacionais não cotadas. Um estudo da Universidade Portucalense, agora divulgado, concluiu que a grande maioria das empresas não reflectem as imparidades nas suas contas anuais. Já o falecido cantor "pimba" Dino Meira cantava "é mentira, mentira, é tudo uma mentira..."

Coordenador do Negócios Porto

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