Rui  Peres Jorge
Rui Peres Jorge 08 de Janeiro de 2016 às 20:08

O que faz falta a Costa & Centeno

As próximas semanas, marcadas pela apresentação do Orçamento do Estado em Lisboa e Bruxelas e por muitos contactos e negociações internacionais serão decisivas para impressionar investidores, seduzir os credores e descansar os contribuintes.

Afinal, governam ou desgovernam pergunta-se dentro e fora de Portugal. E há razão para isso.

A catadupa de reversões de medidas negociadas com PCP e Bloco, a urgência na resolução da Banif que estourou uns inacreditáveis 2,6 mil milhões de euros dos contribuintes, a matreira decisão do banco central de queimar de forma seleccionada investidores no Novo Banco, e a elaboração de um orçamento em tempo recorde que arrisca desagradar à Comissão Europeia, ao FMI e às agências de "rating"  estão a gerar níveis de ansiedade preocupantes.


O Governo tem, com urgência, de explicitar que políticas públicas são prioritárias, porquê, e como as pretende concretizar dentro dos acordos que assumiu à esquerda e do respeito pelas regras europeias que garante querer cumprir.


Em primeiro lugar é essencial assegurar uma trajectória orçamental credível. Uma coisa é abrandar o ritmo da consolidação orçamental, outra é correr o risco de assentar o plano orçamental em previsões de crescimento e de receitas fiscais optimistas.


Em segundo lugar, embora bem-vinda e urgente face à perda de quase 600 mil empregos nos últimos anos, não basta a aposta numa recuperação dos rendimentos para acelerar a recuperação. O país necessita de uma estratégia de requalificação das práticas de gestão, tanto no sector público como no sector privado, e de uma política industrial assente na valorização do conhecimento, da tecnologia e do mérito.


Em terceiro lugar, após a confrangedora experiência com reformas estruturais a metro nos últimos anos, é tempo de tentar construir uma estratégia com pés e cabeça que lide com a sustentabilidade do sistema de pensões, com a segmentação do mercado de trabalho, com os inaceitáveis níveis de desigualdade de rendimentos também evidentes nas "rendas excessivas" dos sectores monopolistas, com a morosidade na justiça, com a desigualdade de acesso dos cidadãos aos serviços públicos e com a permeabilidade das  instituições públicas a interesses particulares.


Em quarto lugar, deve ser prioritário lidar com a fragilidade financeira do Estado e dos bancos. Financiar 15 a 20 mil milhões de euros por ano de dívida pública como se fará em 2016 provar-se-á uma missão quase impossível quando o BCE deixar de comprar dívida a partir de 2017; e na banca o marasmo espelha-se nos elevados níveis de crédito mal parado. Torna-se por isso essencial negociar estratégias de amortização e reestruturação das dívidas pública e privada.


Finalmente, o governo pode muito bem entender que tem direito a reverter a privatização da TAP ou as concessões de transportes feitas à pressão pelo anterior Executivo. Mas fará muito mal se permitir que o país seja visto como hostil a capital estrangeiro. E esse é um receio natural das últimas semanas, alimentado também pela forma como o Banco de Portugal tramou os investidores em dívida sénior do Novo Banco.    


António Costa e Mário Centeno precisam de uma visão para o país e de convencer de que têm, efectivamente, uma alternativa de governo de qualidade. As próximas semanas, marcadas pela apresentação do Orçamento do Estado em Lisboa e Bruxelas e por muitos contactos e negociações internacionais serão decisivas para impressionar investidores, seduzir os credores e descansar os contribuintes.

Jornalista de Economia
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mais votado surpreso1 09.01.2016

O Portugal do Costa ignora contratos,rouba e ameaça!É a Venezuela da Europa

comentários mais recentes
Roger Russo 11.01.2016

Ora não têm tempo para pensar quanto mais para ver, andam sempre de Herodes para Pilatos quero dizer de Jerónimo para Catarina, nem com asas... Eu até já tomei a vacina anti-rábica

Anónimo 11.01.2016

Mario Centeno já perdeu o andar sempre a sorrir. Um sorriso sem graça. Porque será?

Anónimo 11.01.2016

Onde andou este Jorge durante os últimos 4 anos... cansados destes cataventos que só apitam quando o vento é de Oeste ! Então e os 4 orçamentos rectificativos ?

Anónimo 11.01.2016

Será que União Europeia sabe que estamos a ser governados pela CGTP, PCP, e BE? Vejam o acordo que este governo fez com os estivadores para acabar com as greves!!! Assim pudera até o meu piriquito negociava.
http://observador.pt/2016/01/10/as-cedencias-aos-estivadores-evitar-greve/

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