Banca & Seguros Como as novas moedas digitais estão a mudar o sistema financeiro

Como as novas moedas digitais estão a mudar o sistema financeiro

A moeda virtual bitcoin tem vindo a ganhar cada vez mais relevância no sistema económico, assegurando períodos em que vale quase tanto como o ouro. Suportada nas mais recentes tecnologias, ela assume-se como uma clara alternativa ao dinheiro tradicional.
Como as novas moedas digitais estão a mudar o sistema financeiro
C-Studio 21 de março de 2017 às 09:41

No último ano, a moeda que mais valorizou em todo o mundo foi o bitcoin, a mais popular das moedas virtuais. No início de 2016, valia cerca de 435 dólares e no final do ano tinha avançado para 963 dólares. A ascensão continuou e em Fevereiro voltou a valer quase tanto como o ouro, algo que já tinha sucedido há três anos e que em 2017 muitos analistas acreditam que voltará a acontecer. Alguns antecipam, aliás, que a moeda virtual pode chegar a valer 2 mil dólares nos próximos meses.

 

A explicar o sucesso está a procura crescente desta alternativa como refúgio de investimento. Usa-as quem quer fugir a políticas monetárias penalizadoras, um controlo cada vez mais apertado sobre o movimento de capitais ou aos efeitos da instabilidade política e financeira. Não é por acaso que a China lidera as transacções em bitcoins e a Venezuela é um ponto importante no mapa mundial de mineração (fabrico) desta moeda, como mostrava uma reportagem da BBC no início deste ano. Electricidade barata, desemprego elevado e dificuldade de acesso ao mais diverso tipo de bens criaram a combinação perfeita para fazer florescer um negócio que também está a contribuir para animar o mercado e que dá a quem o faz uma moeda de troca valiosa para outras divisas, produzida a custos baixos.

As previsões que apontam para uma nova duplicação do valor da moeda virtual este ano observam as mesmas incertezas e atestam a confiança no modelo de suporte ao dinheiro virtual, que se revela seguro, rápido, não requer a intervenção de intermediários, nem está dependente das decisões de qualquer banco central.

 

As características estão na tecnologia de "blockchain" que lhe dá suporte e que está a ser estudada por bancos, empresas e governos em todo o mundo, como caminho para dar mais robustez às transacções, no sistema financeiro e em outras indústrias. No coração da tecnologia está um banco de dados – uma espécie de livro-razão – que faz um registo público de todas as transacções feitas com determinada moeda e guarda essa informação nos milhões de máquinas distribuídas pelo mundo a produzir moeda digital.

 

A cada 10 minutos fecha-se um bloco desta cadeia de informação, replicada em todas as máquinas da rede e cria-se um novo. Cada nova transacção é validada com recurso a dados das anteriores e não é possível fazer alterações ao histórico.

O encadeamento – pelo menos em teoria – garante um nível de segurança virtualmente impossível de violar, que adicionado à rapidez das operações (minutos ou mesmo segundos) e aos custos que podem ser significativamente menores do que os de uma transacção convencional, pela eliminação de intermediários, faz com que muitos olhem para a tecnologia como o futuro das transacções.

 

Para que assim seja é preciso afinar o rumo de desenvolvimento dos vários projectos em curso para propósitos concretos. A tarefa é complexa, mas os investimentos já são avultados. A McKinsey estima que nos últimos três anos foram investidos 1,4 mil milhões de dólares com esse propósito. As mesmas previsões indicam que 80% dos bancos, a nível mundial, devem iniciar projectos envolvendo a tecnologia ao longo deste ano e que quase uma centena de bancos centrais também já debate o tema.

 

Será uma questão de tempo até que os resultados surjam e com eles, muito provavelmente, novos serviços ou serviços mais robustos, capazes de potenciar toda uma panóplia de opções que já proliferam na área dos pagamentos, desde as transacções via telemóvel às aplicações que virtualizam terminais de pagamento.

 

Entretanto alguns países já deram passos concretos neste sentido, motivados pela vontade de melhorar mecanismos de combate à fraude nas transacções. O Senegal lançou no final do ano uma moeda nacional digital (e-CAF) e a Tunísia já tinha feito mesmo, com o e-Dinar, ambos suportados em tecnologia de "blockchain". No final do ano passado, o Financial Times apontava as mesmas intenções à Suécia.

 

A McKinsey estima que, em cinco anos, as moedas digitais terão um impacto de 85 mil milhões de dólares no mercado de capitais e no segmento de pagamentos. Hoje, existirão cerca de 15 milhões de bitcoins em circulação com um valor estimado de 16 mil milhões de dólares; a moeda ainda é sobretudo encarada como um valor, mas tende a ser cada vez mais usada como divisa.