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Os tempos correm insondáveis, imprevisíveis, inacreditáveis. Da democracia da América vêm nuvens ameaçadoras. O liberalismo está sob ameaça. Já se justifica um ensaio sobre a sociedade fechada. Palavras não faltam. Trump paira. Talvez por isso já sejam muitas as saudades de Obama.
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António José Teixeira 11 de Novembro de 2016 às 13:00
inacreditável. Já tudo se disse sobre o populista Donald Trump. Prometeu romper com as elites que têm governado os americanos. Recorreu a tudo, das ameaças aos insultos, quis demonstrar uma força indomável para quebrar a nomenclatura de Washington. Ganhou força crescente, mas nem por isso se acreditou que pudesse vir a tornar-se o líder dos EUA. Talvez nem o próprio, que no momento da vitória não se cansou de dizer: inacreditável! A ascensão representa uma deriva forte de nacionalismos agressivos, mas é antes de tudo a demonstração da força de um homem que percebeu bem o terreno fértil para a sua mensagem: uma América zangada com as elites, com a perda de rendimentos, insegura face ao futuro, pouco liberal. Trump soube tirar partido dos mecanismos da comunicação, da vontade de ruptura, muito mais do que de mudança. Daqui para a frente, os EUA não vão ser mais os mesmos. Não será surpreendente esperar um fechamento, novas geometrias nas relações internacionais. Trump vai querer quebrar a globalização em muitas das suas declinações. Será possível?

hillary. Depois de um negro, uma mulher seria a primeira na presidência dos EUA. Histórico. Parecia mais do que provável. Mesmo que estivesse demasiado colada aos interesses mais dominadores da América, parecia capaz de captar inquietações e esperanças. É verdade que as primárias mostraram profundas diferenças. Bernie Sanders e os seus muitos seguidores não tinham qualquer afinidade com Hillary Clinton. Os democratas, como os republicanos, foram abanados profundamente nas suas identidades. Sanders e Trump são "outsiders". Em qualquer caso, mesmo numa nação profundamente dividida, poucos duvidavam da vitória de Hillary. Podia ser uma vitória pela negativa. E seria. Votou-se mais em Hillary porque o eleitorado urbano não suporta a ascensão de um populista perigoso. Mas a candidata era mais fraca do que parecia e o populista mais forte a explorar a fraqueza. Até o FBI deu uma ajuda. Primeiro, recuperou suspeitas, depois congelou-as. Era difícil fazer-lhe pior. Hillary até ganhou no voto popular, mas ficou demasiado aquém nos grandes eleitores. O sistema é tão legítimo como arcaico.

sondagens. O costume. Falharam, erraram, enganaram. Provavelmente, durante toda a campanha, andaram longe da realidade. Por princípio, não devemos exigir demais às sondagens. Afinal, são apenas uma fotografia contingente de uma circunstância. Espelham um momento, correndo o risco de se deteriorarem momentos depois por força de qualquer imprevisto. Nem por isso devemos deixar de lhes exigir que revelem tendências. As suas ferramentas socorrem-se da estatística e, se as amostras forem bem construídas e calibradas, estarão à altura da responsabilidade. Não têm estado. O eleitorado não gosta de responder, responde pouco; pior do que isso, mente. Não assume as suas escolhas. Demora a decidir-se. Envergonha-se de votar Trump, mas vota. Uma espécie de maioria silenciosa irrompe. Não se deixa confessar. Tempos insondáveis.

web. Lisboa foi tomada esta semana por mais de 50 mil participantes na Web Summit, a grande maioria estrangeiros, todos entusiastas de projectos mais ou menos empreendedores. Muita gente das mais desvairadas artes e ciências à procura de caminhos e saídas para ideias novas. Da exploração espacial às tecnologias da saúde, um sem-número de aplicações e plataformas que podem funcionar e tornarem-se casos sérios de utilidade e negócio. Por estes dias multiplicaram-se contactos, ligações e oportunidades. Lisboa e Portugal ganharam visibilidade. Importa que não fiquem pelo ponto de encontro e pelo palco de eventos (que não são de somenos), mas que ganhem também capacidade de intervir e fazer vingar ideias. Web é rede, teia. É bom acolher a rede. Melhor é fazer parte dela. E fazê-la mexer.

obama. Há muito percebemos que teríamos saudades de Obama, fosse qual fosse o seu sucessor. É um homem liberal, inspirador, civilizado, sereno, cosmopolita, que dignificou a função presidencial americana. Abriu portas, fez pontes, trouxe novas esperanças, mesmo que algumas delas tenham sido frustradas por incapacidade própria ou bloqueio no Congresso. Obama não é apenas um orador brilhante e um político mobilizador. Tomou decisões importantes em frentes várias, seja na economia interna, que conheceu um impulso nestes anos pós-crise financeira global, seja nos direitos cívicos e sociais ou na política internacional. Mas, mais do que tudo, Obama é um homem decente, que transmite segurança, previsibilidade. Valores maiores em tempos tão incertos e tão pouco tolerantes. A verdade é que a América mudou, também durante a sua liderança. E não foi para melhor. O legado de Obama corre o risco de se apagar.

pop galo. É o nome da mais recente (re)criação de Joana Vasconcelos. Um galo de Barcelos com 10 metros de altura, forrado com 17 mil azulejos e 16 mil lâmpadas LED. Está na Ribeira das Naus a olhar o Tejo. Um galo interactivo, que dá música em função das cores. Em tempo de Web Summit, apropria-se um objecto da cultura popular para lhe dar uma roupagem moderna, tecnológica. Nada melhor para colorir o orgulho lusitano. Apesar de ser um símbolo solar, ou não anunciasse o nascer do sol, na inauguração faltaram as pilhas ao comando para se acenderem as luzes. Nem por isso se deixou de iluminar o galo. Uma ligação directa resolveu o problema. Um exemplo do Portugal moderno, disseram. Depois de Lisboa, o Pop Galo vai levantar a crista para Pequim e Xangai. Aí se celebra o Ano do Galo. Grande galo!





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