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Marcelo parece rendido à estabilidade socialista. Fora dela não vê clareza. É o que falta a Trump, envolto em mais e mais contradições, irritado com os comediantes, enquanto indemniza estudantes que enganou numa universidade que nunca existiu.
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António José Teixeira 25 de Novembro de 2016 às 13:00
clarificador. Amanhã, o Governo minoritário do PS completa um ano. Começou por ser uma aventura nunca vista, olhada com desconfiança. Os orçamentos passaram, aqui e em Bruxelas, evitaram-se sanções e os défices excessivos estão em vias de ultrapassagem. A alternativa de esquerda provou ser capaz de geometrias variáveis, inclusive de tolerância aos tratados orçamentais. Se, politicamente, a travessia foi estável, o clima social foi inusitadamente calmo. Para isso contribuiu o Presidente da República. A cumplicidade de Marcelo Rebelo de Sousa com António Costa é notória. Esta semana, na conferência do Negócios, o Presidente não poupou nos elogios à estabilidade governativa. E foi mais longe: "Configurar um centrão artificial imposto na governação do país seria pouco clarificador. Clarificador é conhecer-se exactamente aquilo que é proposto por cada uma das fórmulas governativas…" De uma só vez, Marcelo apoiou o Governo socialista, desacreditou qualquer alternativa que se vislumbrasse na oposição e pôs de lado - até ver - o fantasma do centrão. Costa deve ter sorrido só de imaginar Passos Coelho….

merklar. Angela Merkel vai candidatar-se a um quarto mandato de chanceler. A primeira vez foi em 2005. Ganhou ao social-democrata Schroeder. Há 16 anos que ninguém aparece a disputar-lhe o lugar de líder da CDU alemã. Muitos a criticaram na Europa pela ortodoxia orçamental, outros tantos pela paralisia europeia. O apelido Merkel, herdado do seu primeiro marido, é o mais forte na Europa. Tornou-se até um verbo comum entre os jovens alemães. Merklar quer dizer adiar, protelar uma decisão, ouvir e demorar a decidir. Não podia ser mais ajustado à sua forma de fazer política, à gestão dos interesses da Alemanha na Europa e à própria política europeia, que tem na chanceler o seu pêndulo. A hesitação alemã, o adiamento, tornou-se a sua imagem de marca da União Europeia. Mal vista à esquerda, conseguiu nos últimos anos inverter as boas graças. A sua política de abertura aos imigrantes e aos refugiados contrastou com a atitude de grande parte dos Estados-membros. A sua popularidade diminuiu na Alemanha, mas emergiu na Europa como a única referência credível nas lideranças ocidentais. Obama reconheceu-o na sua última viagem presidencial pela Europa.

voto. A votação ainda não terminou e Hillary Clinton leva mais de 1 milhão e 700 mil votos de vantagem sobre Donald Trump. Nem por isso ganhará a presidência dos EUA. Um colégio eleitoral de grandes eleitores é que decide quem é o Presidente. E estes eleitos são em grande maioria favoráveis a Trump. Por isso é que o tratam por "Presidente eleito", mesmo que esta eleição só ocorra a 19 de Dezembro. O sistema vem do tempo dos pais fundadores e visava equilibrar o peso dos Estados. Era cheio de boas intenções, tão boas quanto perversas. Isto é, o colégio eleitoral estaria destinado a ser uma espécie de filtro. Atribuía a um conjunto de personalidades a correcção de "excessos" do voto popular. Ironia. Poderia servir agora precisamente para reconhecer que Trump não tem perfil para ser Presidente, algo que a maioria dos americanos percebeu. Até o próprio Trump, há poucos anos, dizia: "Devíamos ter uma revolução neste país! Mais votos significa perder… Esta piada do colégio eleitoral está a rir-se da nossa nação. Devíamos marchar até Washington e travar esta farsa." Já mudou de opinião. Pudera! Hillary, a perdedora, obteve a segunda maior votação da história dos EUA...

twitter. O que falta a Trump em voto popular sobra-lhe em tweets. O homem não larga a rede. Fiel ao mundo do espectáculo, onde se fez, não perde pitada. Num teatro de Times Square, o seu vice foi apupado pelos espectadores e interpelado pelos actores. Na televisão, Alec Baldwin voltou a satirizá-lo. Nenhum fica sem resposta. A Baldwin diz que é "enviesado" e que "não tem piada nenhuma". Vigilante, o novo presidente parece entretido. Mas esta é apenas uma faceta deste "troublemaker".

acordo. Dizia há uns meses o empreendedor Donald Trump: "Quando se aceita um acordo todos te processam. Eu não sou processado porque não faço acordos. Eu ganho em tribunal." Pois bem, o homem que nunca faz acordos vai pagar 25 milhões de dólares aos clientes de uma empresa a que chamou Universidade Trump. Porquê? Para evitar a continuação do processo em tribunal. A dita universidade não é universidade. Pequeno pormenor… Trump burlou cerca de seis mil pessoas que se inscreveram em cursos que custaram mais de 30 mil dólares. Pormenores… O problema deste fanfarrão, que se tornou Presidente dos EUA, não é a extravagância verbal. É o carácter, a falta de princípios e valores. Quando alguém se ri dos excessos e relativiza o estilo, esquece a matriz, as provas de ignorância e pouca seriedade.
A Universidade Trump é apenas um exemplo.

rede. "Eis o Admirável Mundo em Rede" é um documentário de Werner Herzog, que estreia esta semana em Portugal. Rodado nos EUA, viaja entre o passado iniciático da web, das primeiras conexões a partir da Universidade da Califórnia aos sonhos de conexões mais largas no futuro. Disfunções, adições, evasões, mas também conhecimento e progresso. Herzog toca em várias zonas de uma rede em expansão e que mudou a vida dos homens. Vi o filme no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde há 22 anos um grupo de professores universitários (Pedro Veiga, Nuno Guimarães e José Legatheaux) e dois políticos (Maria de Belém e José Magalhães) defenderam a importância da rede para Portugal. Pareciam, na altura, uns excêntricos. De volta ao LNEC, revisitaram o tempo decorrido e o que se fez para que Portugal acompanhasse uma revolução em movimento. Perdemos muitas vezes o comboio da História. Neste, entrámos a tempo. Convém não descarrilar.





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