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Folha de assentos

Temos um dos nossos melhores empenhados em trazer confiança ao mundo. Temos um Presidente cheio de "feeling". Temos bancos muito caros, verdadeiros pesadelos. Temos pouco trabalho e mal pago. Algumas das cores do nosso tempo.
Folha de assentos
António José Teixeira 16 de dezembro de 2016 às 13:00
medo. "As ameaças aos valores das Nações Unidas são causadas, sobretudo, pelo medo." As palavras são de António Guterres, o novo secretário-geral da ONU, no seu discurso de juramento. Passar do medo à confiança é o seu e o nosso desafio. Guterres impressiona pela clarividência. Sabe que o mundo saído do 11 de Setembro se tornou mais perigoso, desconfiado, agressivo. Conhecedor da História, testemunha privilegiada da marcha do mundo contemporâneo, passou muitos anos entre os de cima e outros tantos com os de baixo. Tem pensamento próprio, contributos significativos para a resolução de problemas, convicção e vontade. Tudo o que explica a sua escolha. No mundo de incerteza que temos pela frente, o seu papel pode ser o justo contraponto ao recrudescimento de nacionalismos mais ou menos populistas e autoritários. Os bons discursos não chegam, mas são um ponto de partida necessário.

blake. Não é uma novidade dos últimos dias. O filme está aí e já tinha ganho a Palma de Ouro em Cannes. Chama-se "Eu, Daniel Blake" e conta uma história kafkiana de um trabalhador incapacitado por um problema cardíaco e da sua odisseia nos serviços sociais britânicos para que aceitem a sua inaptidão para o trabalho. Realizado por Ken Loach, é um fresco realista da decadência burocrática e política do Estado Social. Mais do que tudo, é um murro no estômago de todos nós, sobretudo no dos nossos representantes políticos. Põe a nu as teias que aprisionam e humilham os cidadãos. Questiona a desvalorização do trabalho, da protecção social e da dignidade das pessoas. Se querem perceber porque é que extremistas e populistas ganham eleições, está ali o pano de fundo, o desespero dos muitos que foram e estão a ser relegados para as margens da civilização. O desemprego e a pobreza transformados em culpa e a caridade como resposta. A história de Blake devia ser projectada à mesa do Conselho Europeu para acordar a nomenclatura, enquanto é tempo.

trabalho. A promessa de uma sociedade do lazer quando a esperança de vida ainda nos deixaria umas décadas pela frente não passou de uma promessa. Pior, transformou-se no seu reverso. Sociedades envelhecidas confrontadas com mais anos de trabalho e menos rendimentos. Sociedades envelhecidas com menos oferta de trabalho. O trabalho ficou mais raro e mais barato. Em Portugal, segundo o Banco de Portugal, há hoje menos 430 mil postos de trabalho do que há oito anos. Mais máquinas, menos crescimento, fizeram recuar o mercado de trabalho e estagnar a economia. Desqualificou-se e desvalorizou-se o trabalho. Um círculo vicioso que criou um mal-estar convidativo à ruptura com o "establishment". O trabalho começou por ser uma espécie de maldição humana. Hoje é um bem raro e mal pago.

"feeling". O Presidente da República tem um "feeling". Será melhor do que não ter "feeling" nenhum. Há muito que sabemos que percebe bem de onde sopra o vento. Ou o afecto. Haverá sempre um "feeling" do dia. Pode ser o aumento das exportações ou a redução do défice. Em regra, é positivo. Puxa pelo optimismo nacional. Mas este "feeling" é menos pressentimento ou intuição e mais cumplicidade. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa "bebem do fino" e estão apostados em que um e outro dêem certo. O sucesso do País será o sucesso dos dois. Em qualquer caso, talvez seja mais saudável para Portugal mais distância e menos palpite.

bancos. Em Portugal ou na Itália, a banca domina o discurso público e político. Tornou-se a preocupação permanente. Não para os seus accionistas, mas para os clientes e para os contribuintes. Pagamos cada vez mais para ter bancos. Paga-se para nos vermos livres de bancos duvidosos. Paga-se para reduzir prejuízos dos que foram enganados. Os bancos ficaram muito caros. Pesam-nos. Tudo porque se esboroou a confiança, capital mais importante do que o dinheiro. Não falta dinheiro, por mais mal distribuído que esteja - e está -, o que rareia é a fidúcia. E, no entanto, os bancos fazem falta. Será impossível regulá-los?

livros. Chega o final do ano e com ele as listas. A Book Review do New York Times escolheu os 10 melhores livros de 2016, muitos deles não editados em Portugal. Não é surpreendente, mas é sempre útil perceber como são reveladores do ar do tempo. O primeiro da lista é um romance intitulado "The Association of Small Bombs", de Karan Mahajan. História de vítimas de um atentado terrorista em Deli e de como nem os seus amigos escapam aos estilhaços. Um deles torna-se um político radical. Ninguém sobrevive a uma bomba. "Dark Money", de Jane Mayer, não é um romance. Retrata a odisseia de dois irmãos multimilionários que investiram na eleição de políticos conservadores. Também não é um romance a imersão de um sociólogo num parque de "roulottes" e depois num bairro degradante de habitação social, onde boa parte dos ocupantes gasta 70 a 80% dos seus rendimentos na renda. Chama-se "Evicted: Poverty and Profit in the American City" e foi escrito por Matthew Desmond. Mais um: "The Return: Fathers, Sons and the Land Between", de Hisham Matar. Um regresso à Líbia à procura da memória da Primavera Árabe e de uma vítima de Kadafi. Terror, medo e pobreza alimentados a radicalismo, algumas das cores do nosso tempo. 



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