Weekend Folha de assentos

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O ano está prestes a expirar e é tempo de inventário. As palavras são as de sempre. Boa parte levou-as o vento, o mesmo que as fará regressar. Ao sabor do vento ou do conhecimento ganham geometrias variáveis. Tão variáveis que a palavra mais ouvida quando se fala de 2017 é incerteza.
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António José Teixeira 31 de dezembro de 2016 às 16:30
2016. Olhado pelos óculos de Assunção Cristas ou pelo retrovisor de António Costa, o ano português terá cores contrastantes desde logo pela diferença do ponto de observação. Se tentarmos colocar-nos acima das contingências de quem se senta no poder ou na oposição, é difícil não reconhecermos que se deram passos positivos na economia, no clima social, na educação ou na ciência. Reconheceremos aspectos negativos, ou que poderiam ser mais positivos, mas a ideia geral é positiva. E não necessitamos de falar de triunfos desportivos ou da eleição internacional de António Guterres. Contudo, nem por isso podemos deixar de chamar a atenção para a fragilidade de um país muito endividado num mundo ainda mais incerto do que poderíamos prever. A boa notícia é que Portugal é hoje, apesar de tudo, um país mais preparado para novos embates. Não sabemos é se a dimensão dos embates nos deixa margem de manobra. O mundo está a mudar muito e ninguém sabe para onde…

conhecimento. Educação, educação. É mais uma vez a palavra de ordem. Assim disse o primeiro-ministro na sua mensagem de Natal. Pré-escolar para todos, formação ao longo da vida, conhecimento como chave de desenvolvimento. Ninguém discordará. Os progressos das últimas décadas são assinaláveis, mesmo que existam ainda défices por cobrir. A tal geração mais bem preparada de sempre está aí, ainda que o aí seja muitas vezes longe. Os sectores mais dinâmicos da economia beneficiam desse valor acrescentado. Toda a economia teria maior benefício se mais conhecimento se cruzasse entre as universidades e as empresas. É por isso que tão importante como o combate ao défice do conhecimento é o impulso à chamada translação do conhecimento. Não é fácil. Não abundam bons empresários. Aliás, não abundam empresários.  

acordo. O acordo sobre o salário mínimo conseguido na concertação social é ele próprio mínimo, mas nem por isso menos importante. Excluiu outros temas das relações laborais, deixou de fora a CGTP, tem um curto alcance temporal e fez cedências discutíveis aos empregadores na redução da Taxa Social Única. Ainda assim não hipotecou nada de substancial. No caso da Segurança Social, a redução é temporária e o aumento do salário mínimo garantirá sempre um aumento das contribuições. Mas não é este o aspecto mais importante. Do ponto de vista político, o governo socialista alarga a sua capacidade de compromisso da esquerda para o centro. E esse é um ganho significativo para um governo que só tinha sido capaz de entendimentos parcelares à esquerda.

gado. "O Vieira da Silva conseguiu mais um acordo! Ó Zé António, és o maior! Grande negociante… Era como uma feira de gado! Foram todos menos a CGTP? Parabéns!" Estas palavras são do ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva, sentado à mesa do jantar de Natal do grupo parlamentar do PS. Era uma conversa que julgava privada, mas proferida num local público e na presença da comunicação social. Privada ou pública, pouco importará, em rigor a concertação social foi retratada como uma feira de gado. A metáfora é obviamente inadmissível e justificaria o pedido de desculpas de Santos Silva aos parceiros sociais. Em boa verdade, o pedido de desculpas devia ter outros alvos. O insulto não foi feito aos negociantes, mas àqueles que foram tidos como gado: trabalhadores e empregadores. O elogio a Vieira da Silva redundou afinal num apoucamento de todos nós.

trabalho. Que papel desempenhará o trabalho na sociedade do futuro, que substância se dará à expressão "ganhar a vida", são inquietações dos nossos dias. Cada vez mais urgentes e perturbadoras. Que as máquinas do presente libertam cada vez mais mão-de-obra, salta à vista. Que o trabalho se tem desvalorizado, já o sabíamos. Nem por isso é fácil de entender como se formalizam contratos de trabalho sem contemplarem remuneração. Acontece nas universidades. E, pelos vistos, é legal. 

2017. O caminho faz-se caminhando. A frase é do poeta andaluz Antonio Machado. E 2017, mais do que muitos dos seus antecessores, não tem mapa que nos guie. A palavra mais comum que se lhe aplica é incerteza. Uma evidência de sempre, mas talvez agora mais forte porque mais cheia de interrogações. Que fará Donald Trump? Ninguém sabe. Provavelmente, nem o próprio. Que esperar de Vladimir Putin? Rússia, Turquia, Irão, Arábia Saudita e Israel que jogo jogarão no Médio Oriente? E como condicionará o mundo? De permeio estará a Europa. Mas é difícil prever que papel quererá desempenhar. Que sairá das eleições francesas, holandesas, austríacas, italianas...? E a China será a potência mais previsível, mais estável? Ingredientes excedentários para várias tempestades. Não sei se perfeitas. E sem considerar qualquer crise financeira como causa ou como efeito. O cenário é potencialmente tão negro, as expectativas são tão baixas, que só pode correr melhor do que o previsto. É nestas alturas que os homens terão razões suplementares para defender a civilização. É disso que se trata.





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