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No assento da semana, avulta Mário Soares. Foi talvez o homem que mais dividiu e uniu os portugueses. Não deixou ninguém indiferente. Tinha uma capacidade invulgar de afirmação das suas convicções. Passou mais de metade da sua vida em combates pela liberdade, quase sempre perdidos. Na outra metade, foi o mais forte construtor do estado democrático. Tudo condimentado com um enorme prazer de viver.
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António José Teixeira 13 de janeiro de 2017 às 13:00
Soares. Os dias são de todos os elogios, admirações e homenagens. Justos. Português de têmpera rara, Mário Alberto Nobre Lopes Soares cedo percebeu o seu caminho: a política, a vontade permanente de ter uma palavra a dizer sobre o seu tempo. Nunca foi um político envergonhado, carregando o sacrifício de se interessar pelos outros. Pelo contrário, abominava a ideia de missão, de comissão de serviço. Fez política toda a vida por vontade, convicção, colocando-se por inteiro em todos os combates. Tinha satisfação, verdadeiro prazer no que fazia. O seu segredo mais essencial foi essa enorme vontade de viver. Dono de uma autoconfiança fora do comum, perdeu muitos combates antes das primeiras vitórias. Deu a cara quando faltava coragem. Aliás, não gostava que o chamassem de corajoso. Dizia: "Ou se é ou não se é." Ele era. Não tinha medo. Nunca se rendeu. Não se escondeu quando não era confortável. Mário Soares foi um político que se assumiu. Nas suas qualidades e nos seus defeitos. Viveu por inteiro e marcou indelevelmente o nosso tempo.

Soares. Tive o privilégio de o conhecer e de contar com a sua amizade. Apreciei-lhe a grande curiosidade intelectual, o prazer de conversar, de partilhar leituras, de contar histórias. Conheci-o melhor quando já não desempenhava cargos políticos. Nem por isso se desinteressou pelo que se passava à sua volta. Pelo contrário. A sede de mundo e de intervir no mundo alimentaram-lhe os dias. Viveu com entusiasmo. Fez da vida o que quis. Dono de uma vontade indomável, combateu sempre sem nunca se deixar vencer. Encontrou o justo balanço entre a inquietação das ideias e da acção política e a harmonia com que saboreou a vida. A sua travessia demonstra que há homens que deixam marcas fortes que ultrapassam o seu tempo. As de Mário Soares abriram horizontes e permitem-nos respirar melhor.

Soares. Talvez a sua marca mais forte seja a luta pela liberdade. Durante décadas, no tempo da ditadura, quando era difícil levantar a voz. Cedo percebeu que a liberdade era uma fronteira na situação e na oposição. Isso ficou claro antes e depois do 25 de Abril de 1974. Antes, quando se afastou do PCP e procurou outros caminhos, que levaram à fundação do PS. Depois, quando enfrentou nas ruas os novos inimigos da liberdade, o que o tornou a referência central quando se lançavam os alicerces constitucionais e institucionais da democracia em que vivemos. É por isso que é um dos "founding fathers" da nossa democracia. Cometeu erros, permitiu abusos, mas em todos os momentos cruciais esteve do lado certo. Nunca desistiu quando os ventos não lhe correram de feição. Não se acobardou, assumiu divergências, foi derrotado dentro do seu partido, afastou-se da liderança, mas regressou sempre ao combate, mesmo quando quase todos percebiam que não teria sucesso, como aconteceu nas suas terceiras presidenciais, disputadas quando já tinha mais de 80 anos.

Soares. Outra marca forte do seu testemunho histórico é a Europa. A ideia de que o país do "orgulhosamente sós" só poderia merecer o respeito e o apoio da comunidade internacional se demonstrasse vontade de integração na Europa dos valores democráticos. Uma das mais longas ditaduras, responsável pelo último império colonial, estava isolada e exaurida pelo esforço de guerra. Podemos hoje ter dúvidas sobre os caminhos que a Europa percorreu e percorre, mas não restam grandes dúvidas sobre a importância da Comunidade Económica Europeia na consolidação do nosso processo democrático e no desenvolvimento económico e social português. Pode parecer óbvio, mas não o era na época. Foi a lucidez de Mário Soares e os seus contactos internacionais que abriram portas e ultrapassaram bloqueios. Não foi coisa pouca.

Soares. O que fica de Mário Soares? Fica um exemplo maior de força e prazer de viver de um homem genuíno e confiante. Fica o vigor do carácter. Fica a vontade inquebrantável de combater, independentemente da certeza na vitória. Ficam arestas, imperfeições, virtudes e defeitos que não deixaram ninguém indiferente. Fica uma construção democrática e uma abertura ao mundo, que têm o seu traço. Fica um Portugal mais cosmopolita. Fica o exemplo de um político orgulhoso de ser político. Fica a demonstração de que cabe à política decidir o destino dos povos. Fica a capacidade de compromisso. Ficam exemplos de tolerância. Fica a inquietação de que a democracia, por que tanto lutou, precisa de convicção e exercício. Não é pouco.

Soares. A política faz-se de compromissos, de pontes, da capacidade de integrar adversários na grande mesa da dialéctica democrática. Mário Soares foi exímio nessas capacidades. Quantos, à esquerda e à direita, não foram sensíveis à sua palavra? Governou com o CDS e com o PSD em momentos muito difíceis, em que Portugal correu graves riscos financeiros e políticos. Não hesitou entre o seu interesse eleitoral e o interesse do país. Perdeu eleições para as voltar a ganhar mais tarde. Desgastou-se, perdeu crédito, caiu. E quando parecia irrecuperável voltou a mobilizar os portugueses. Cativou comunistas e sociais-democratas em eleições presidenciais. Dividiu para depois unir. Aproximou os portugueses como nenhum Presidente o tinha conseguido.






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