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O tempo faz-se de transições. Nem sempre tranquilas. Há rupturas com futuro demasiado incerto. Às vezes, compromissos frágeis que não resistem aos calculismos de ocasião. Vidas difíceis para muitos contemporâneos enquanto o cinema nos devolve histórias trágicas dos nossos desencontros.
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António José Teixeira 20 de janeiro de 2017 às 13:00
Trump. Na herança de Obama, fica Donald Trump. Dificilmente poderia ser mais trágica a passagem de testemunho. Desde logo pelo vazio do seu programa político, substituído pelo débito errático dos tweets, o que aumenta a incerteza. Mas também pela ignorância atrevida e prepotente. E pelos negócios de família, que continuarão agarrados à pele presidencial. Há muito que não se reuniam tantos ingredientes explosivos num único homem, talvez o mais poderoso. As expectativas são tão baixas que qualquer pequeno sucesso fará a diferença. Contudo, não é crível que venha aí tão cedo uma política articulada. Nem sequer positiva. Insinuam-se mudanças estratégicas. Por enquanto, não passam de esboços contraditórios. Basta recordar as audições dos nomeados para os altos cargos da administração americana.

Obama. Decerto gostaria de se ter despedido, na Casa Branca, de outro locatário. Nem será por ser republicano ou por ter grandes discordâncias em relação ao futuro dos EUA. O maior pesadelo que Barack Obama deixa na sala oval é a incerteza absoluta de quem julga que o mundo é tão só uma empresa como tantas outras. O legado de Obama ficou aquém do prometido. Por responsabilidade própria e pelo cerco do Congresso. A recuperação económica e a reforma da saúde são os seus principais méritos internos. As tensões raciais agravaram-se durante os seus mandatos. Nem por ter sido o primeiro presidente negro conseguiu aproximar comunidades. Pelo contrário. Ainda assim deixou sinais de paz e desanuviamento internacional. Os casos do Irão e de Cuba são os melhores exemplos. Tudo visto e somado, o mundo continua tão perigoso como o que encontrou ao chegar a Washington. Fica a imagem de um orador fantástico, um estadista distinto, prudente, civilizado, culto, empenhado no progresso global. Pode ser pouco para as exigências dos tempos, mas o contraste com o que agora começa ninguém imaginaria que fosse tão forte. A única esperança é que não seja trágico. Há algum tempo que sinto saudades de Obama!

TSU. A taxa social única tornou-se o grande cavalo de batalha à direita e à esquerda. Passos Coelho quis reduzi-la aos empregadores e aumentá-la aos trabalhadores. O protesto da rua e o CDS não lho permitiram. Agora, a moeda de troca do aumento do salário mínimo seria uma diminuição apenas para os patrões. Assim se fez a concertação possível, como no ano passado com a complacência do PSD. Assim, o Governo ganhou a oposição dos seus parceiros comunistas e bloquistas. E assim, pasme-se - ou não -, passou agora a contar com a reprovação do PSD. Uma concertação assinada com parceiros sociais e um desconcerto partidário. Pequenos empresários confundidos com Passos Coelho, que até parecia empenhado na concertação social. Confrontação PS/PSD que ainda não se sabe quem a aproveitará. Uma derrota de António Costa, que talvez não seja uma vitória de Passos Coelho. A táctica pode ser inimiga da estratégia. E em política também há bumerangues.

Silêncio. É o título do mais recente filme de Martin Scorsese. Conta a história de dois padres jesuítas portugueses que, no século XVII, partem para o Japão à procura do seu mentor. É um retrato de um tempo de erradicação do cristianismo naquelas paragens, depois de um século de expansão do comércio com os portugueses e de proselitismo católico. A crueldade extrema aplicada a jesuítas e seus seguidores combina-se com a apostasia. Um fresco de grande crueza em que o homem se confronta com a sua fé e os seus limites. Um deus silencioso, pretexto para pôr à prova a natureza humana. A religião como uma das mais antigas experiências humanas, tão trágica como congregadora. Uma história que nos ajuda também a perceber a odisseia portuguesa no mundo.

Jornalismo. Ao fim de 18 anos, os jornalistas voltaram a reunir-se em congresso para reflectir sobre o jornalismo e a profissão, ou o ofício, se preferirem. Tantos anos depois, o mundo mudou. E muito. Há muitos a ler-nos e a ver-nos fora das janelas convencionais. Questiona-se a qualidade do jornalismo enquanto se degradam modelos de negócio. Se outro mérito não existisse, o encontro em si mesmo já foi um feito. Mas foi mais do que isso, foi a oportunidade para denunciar os condicionamentos que se colocam ao jornalismo, sejam laborais, éticos ou tecnológicos. Justamente. Também para o confronto consigo próprios, com as suas responsabilidades enquanto mediadores e editores de um mundo complexo. A justificação do jornalismo passa por essa capacidade de escrutínio de interesses e poderes dissimulados ou tantas vezes ocultos. Mesmo sabendo-se da sedução das redes sociais e do que se apelida de pós-verdade, nunca como hoje foi tão necessária e útil a mediação jornalística. É preciso acabar com a confusão entre comunicação e jornalismo. É preciso distinguir a notícia do falatório do Facebook.

Escravatura. Por vezes, somos acordados por notícias que julgaríamos pertencer a uma história longínqua. Constatar que ainda há gente capaz de explorar outros homens até à indigência, e que essa gente está perto de nós, é repugnante. Mais repugnante só talvez a nossa passividade. Desta vez foi na Vidigueira. Mas, pelos vistos, acontece persistentemente em várias alturas do ano e em várias regiões do país. É sobretudo no trabalho agrícola que atraímos muitos asiáticos, e não só, para condições de vida indignas. A Autoridade para as Condições de Trabalho vai actuando aqui e ali, mas a escravatura moderna parece arreigada nuns quantos empreendedores. Trágica ironia. Afinal, são já tantos os robôs a substituir o trabalho dos homens e ainda há construtores de senzalas... 




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