Weekend Folha de assentos

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No meio da tempestade que a posse de Donald Trump trouxe ao planeta, os nossos PEC e TSU são demasiado pequenos para grandes agitações. Com ou sem "factos alternativos", por cá celebram-se 12 meses de animação marcelista, que tem espalhado muito afecto e cumplicidade socialista.
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António José Teixeira 27 de janeiro de 2017 às 13:00
pec. Antes era a TSU, agora é o PEC. Da baixa da Taxa Social Única para a baixa do Pagamento Especial por Conta. Assim se salvará a concertação social. Esquerda e direita não pouparam o Governo e liquidaram-lhe a contrapartida ao aumento do salário mínimo negociada com os patrões. Eram 40 milhões e alimentaram uma pequena tempestade política. Pelo meio, o Governo do PS experimentou a solidão da derrota no Parlamento. E ganhou a certeza de que pouco ou nada poderá esperar do PSD. Quanto aos seus parceiros, apenas o serão em algumas ocasiões. Dois orçamentos volvidos, parecia que vinha aí um passeio até ao final da legislatura. Pura ilusão. Governar, ora à esquerda ora ao centro, vai ser um exercício tão solitário como exigente. Veremos que efeitos sairão das eleições autárquicas.

marcelo. Não nos iludamos. Marcelo é Marcelo e mantém intacto o seu poder presidencial. Por enquanto, completado um ano após a eleição, o "optimista realista" está muito alinhado com o "optimista irritante" António Costa. É comprovadamente o melhor explicador das medidas governamentais. Orgulha-se dos seus resultados, pré-anuncia os seus melhores números, solidariza-se com o Governo perante o revés parlamentar, pois foi ele que insistiu com Costa para que a decisão de aumentar o salário mínimo saísse de um acordo na concertação. No fundo, Marcelo parece ser muitas vezes o condutor do jogo político, mesmo que não o seja. Esse pendor presidencialista evidencia-se pela sua intervenção permanente dando consistência a um governo de maioria parlamentar meramente circunstancial. Por enquanto, Marcelo é o maior defensor do Governo. Desde que António Costa não seja factor de instabilidade, o duo optimista está para durar. Até os desejos de continuidade de Passos Coelho são mútuos…

populista. É o epíteto que mais se ouve atribuir a Donald Trump. No discurso de posse como Presidente dos EUA proclamou a transferência do poder de Washington para o povo. Assim lhe chamou: "O dia em que o povo se tornou soberano". Uma das primeiras medidas foi a criação do dia nacional do patriotismo. Não havia já o 4 de Julho? A defesa das fronteiras, o fim da "carnificina americana" e a erradicação dos radicais islâmicos da face da Terra foram outros traços de um discurso na linha do que o estratega político Steve Bannon ajudou a construir. Em declarações ao Washington Post, reconheceu: "Foi uma declaração sem adornos dos princípios básicos do seu movimento populista e em parte nacionalista". Não é defeito. É feitio. Só falta acrescentar, habituem-se! Muitos não gostaram e já se encarregaram do o gritar. A divisão americana não podia ser mais nítida. Haverá pesos e contrapesos… Mas as razões de preocupação não podiam ser maiores.

dentro. António Jorge Gonçalves é um homem de várias artes: desenho, música, fotografia, arte pública, teatro, banda desenhada, narração por imagens… Muitas exposições e livros publicados. É um dos grandes expoentes artísticos de que nos podemos orgulhar. Há cerca de um ano, uma veia rebentou-lhe no estômago. Sentiu-se morrer e regressar à vida. Uma viagem que resolveu descrever com desenhos reunidos num livro editado por João Paulo Cotrim na abysmo. Intitula-se A minha casa não tem dentro e é, antes de mais, um objecto belíssimo, uma novela gráfica e autobiográfica onde paira o sonho e a morte. Um dentro que se torna fora. Entranhas de vida. Saúde-se a arte e a vida de António Jorge Gonçalves! 

alternativos. Um dos alvos da nova administração americana é o jornalismo. Isso era claro na campanha, foi claro depois da eleição, confirma-se após a posse. Bastou a comparação entre o número de pessoas que testemunhou a investidura de Trump em Washington e a primeira investidura de Obama para os primeiros disparos. "Cobertura desonesta", disse o novo porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer. Para ele, foi "a maior audiência de sempre". Também Kellyanne Conway, secretária de imprensa da Casa Branca, se atirou aos media. Numa entrevista ao programa Meet the Press, da NBC, Conway contrapôs que a Casa Branca tem "factos alternativos". Não convenceu o entrevistador, Chuck Todd, que lhe respondeu: "Factos alternativos não são factos. São falsidades". É apenas uma declinação da chamada pós-verdade, que poderemos também apelidar de verdade alternativa. Outros responsáveis da nova administração se pronunciaram contra o trabalho dos media, culminando com Donald Trump que, numa visita à CIA, disse que os jornalistas são "dos seres humanos mais desonestos à face da terra". O jornalismo foi, é e será a pedra de toque da democracia americana. 

allo! Gorden Kaye, o actor britânico que tanto sorriso abriu na série 'Allo 'Allo!, morreu esta semana. Era o René, dono de um café na França ocupada pelos nazis durante a II Guerra Mundial. Colaboracionista, julgam os alemães, René ajuda, de facto, a Resistência Francesa numa teia em que se cruzam militares, polícias, aviadores, cangalheiros e mulheres que disputam o seu charme... Uma paródia hilariante da BBC que animou os anos 80 e o início dos anos 90. A série completou 85 episódios de televisão e chegou ao teatro com mais de um milhar de representações. Memórias que ainda hoje nos fazem rir e de que Kaye/René era o pólo central. Sotaques e bordões inesquecíveis a revisitar. 





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