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Morreu quem fazia os números cantar. Mas não morreu a ideia de que o mundo precisa de se confrontar com factos. Precisa como nunca de combater os preconceitos. Precisa de convicções, de racionalidade e de regressar à política. Há por aí demasiados narcisos dependentes de vendedores megalómanos e divertidos, porém demasiado perigosos.
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António José Teixeira 10 de fevereiro de 2017 às 13:00
ridículo. Foi um dos impropérios que o Presidente dos EUA lançou ao juiz federal do Estado de Washington James Robart, que suspendeu a ordem executiva que fechou a fronteira americana aos cidadãos de sete países de maioria muçulmana. O tweet de Donald Trump dizia assim: "A opinião deste suposto juiz, que essencialmente retira ao nosso país a capacidade de aplicar a lei, é ridícula e será anulada." Não é o vocabulário o que mais impressiona. É o absoluto desrespeito pelas instituições. Depois dos media, a Justiça. Um juiz tratado por "suposto juiz" revela um padrão político claro do Presidente americano: desprestigiar e deslegitimar as instituições independentes que podem frear o seu poder. Trump sabe que os guardiões da lei serão a fronteira mais difícil de transpor. E já não falamos de democracia, mas de estado de direito. É aqui que se joga o futuro de boa parte do legado civilizacional americano.

trumpistas. A presidência de Donald Trump tem apoiantes claros. Trump dividiu os EUA na campanha eleitoral e faz questão de a continuar a dividir depois da investidura. Faz parte da sua estratégia de poder populista. A táctica do nós contra eles, do povo contra a elite ou dos estados contra Washington, fizeram parte da receita vencedora. Há quem esteja de corpo e alma nesta dicotomia. E há os mais ou menos envergonhados, agradados com o trumpismo, mas sem frontalidade para o defender. Preferem o sorriso da condescendência: os políticos são todos iguais, afinal votaram nele, e ele é coerente, faz o que disse que iria fazer, as sondagens são-lhe favoráveis… Logo, porquê criticá-lo? No fundo, Trump estará a fazer o que os americanos querem que se faça. Estes condescendentes gostavam de encher a boca de liberalismo económico. Menos de liberalismo político. Mas as suas convicções são fracas. Estão perdidos e receiam perder o pé no combate a Trump.

narcisos. Há muito que vivemos na era da imagem, da aparência, do individualismo. Mas nunca como hoje o culto do eu foi tão forte e tão intenso. Atestam-no as redes sociais, as selfies, a exposição individual permanente, a busca incessante de notoriedade. Narciso, criado por Ovídio e espelhado por Caravaggio, era uma personagem da mitologia grega que se apaixonou por si próprio e morreu por incapacidade de se ligar aos outros. Os narcisos contemporâneos perderam sentido cívico. Não se deixam atrair pelas grandes narrativas. Talvez sejam pragmáticos ou apenas se concentrem em si próprios e no que a sua imagem projecta. É assim que se colocam como eleitores face a políticos narcisos. Era assim Berlusconi como é hoje Trump. O professor de Ciência Política da Universidade de Gotemburgo Vítor Lapuente diz, num artigo no El País, que os partidos tradicionais foram substituídos por uma nova dinastia de líderes megalómanos. "Os votantes são clientes sensíveis que há que satisfazer. Na política para narcisos só há espaço para vendedores divertidos", diz Lapuente. Uma diversão que pode ser trágica como no mito de Ovídio.

precários. Somos todos precários. Uns mais do que outros, obviamente. Se hoje há lei do trabalho escrita, ou não escrita, esta é uma delas. Mas uma coisa são os precários contratados para trabalho precário, outra é o uso de precários em trabalho permanente. O mesmo Estado que cortou postos de trabalho às cegas é o mesmo que preenche alguns desses às claras, mas sem assumir compromissos duradouros. O levantamento que o Governo fez dos contratos de natureza temporária na Administração Pública é ainda pouco claro. Mas é já uma aproximação a uma realidade de grandes desigualdades. Os apertos orçamentais são grandes e o trabalho do futuro demasiado incerto. Importa que o Estado encare de frente um novo contrato social, um novo compromisso sobre o que quer, pode e deve servir aos cidadãos. Ou melhor, sobre o que os cidadãos querem do Estado e estão dispostos a contribuir para que esse mesmo Estado os sirva como merecem. Tudo isto enforma a função pública. Mas o trabalho não é apenas público. E já há muitos robôs com vínculo permanente. Para o nosso bem-estar. Ou talvez não.

rosling.
Chamava-se Hans Rosling. Morreu esta semana e faz muita falta ao mundo. Sueco, médico, professor no Instituto Karolinska de Estocolmo, era um enorme entusiasta da estatística e um grande comunicador. No dia em que morreu, o jornal The Guardian referia-se-lhe como "o homem que fazia os números cantar". Fundou com o seu filho a Gapminder, uma organização sem fins lucrativos preocupada com o desenvolvimento sustentável. Começou por criar um programa de computador destinado a revelar "a beleza das séries estatísticas, convertendo números enfadonhos em gráficos animados, interactivos e aprazíveis". Era tão bom que foi comprado pela Google. Falava português porque viveu como médico em Moçambique. Determinado a combater os preconceitos com estatísticas, fez muitas conferências. Também em Portugal. Aqui esteve na comemoração dos cinco anos da Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. No dia em que anunciou a morte de Hans Rosling, o seu filho prometeu não deixar morrer o sonho de "uma visão do mundo baseada em factos". Num tempo de "pós-verdade" ou de "factos alternativos", aqui está um combate fundamental.

nuclear. Não obrigado! O slogan é antigo, mas continua actual. Fukushima foi há perto de seis anos. Chernobyl há mais de 30. Deixaram-nos certezas suficientes para percebermos que não há escala para os danos que causaram e continuarão a causar. As centrais nucleares não são uma ameaça. São a garantia de danos irreparáveis no nosso planeta. Os exemplos são suficientemente cruéis para os podermos ignorar. Serem um bom negócio ajuda a explicar porque continuam a construir-se ou a ver prolongada a vida das que já existem. É o que acontece em Espanha. Enquanto se aguardam sinais sobre o futuro de Almaraz, o Conselho de Segurança Nuclear abriu a porta à reactivação da central de Garoña, em Burgos. A mais antiga de Espanha pode durar até aos 60 anos. Um precedente para a continuidade de Almaraz. Maus ventos de Espanha.




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