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Na escalada das palavras da semana, avultam prazos de investigação judicial indicativos, menos imperativos do que muitos julgam. Trabalho sem futuro ou com um futuro bem diferente do que imaginámos. Perplexidades e angústias que atravessam sobretudo as classes médias, as verdadeiras molas das tensões a oriente e a ocidente.
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António José Teixeira 17 de março de 2017 às 13:00
prazos. Um prazo é um período de tempo, um tempo em que algo deve ser feito, um tempo determinado. É difícil entender o contrário, isto é, que um prazo seja um tempo indeterminado. Talvez porque os prazos padecem de fadiga, de várias dificuldades de cumprimento, há prazos falíveis. A justiça gosta de prazos na estrita medida em que os pode relativizar. Fala em prazos indicativos, ou seja, prorrogáveis. Prazos imperativos são para os que recorrem à justiça. Não para os que fazem justiça. A expressão «por nunca menos de… dias» é reveladora do conceito de prazo indefinido. Um prazo paradoxal. É claro que a mera formulação destes juízos corre o risco de ser ela própria entendida como parcial, logo injusta. Concordar ou discordar dos entendimentos de um prazo é uma tomada de posição. A flexibilidade dos prazos será mais política do que justiça. E, no entanto, precisamos muito de justiça. De preferência, atempada, aprazada. 

trabalho. O debate sobre o futuro do trabalho e o trabalho do futuro ocupa preocupações crescentes. Não faz parte da agenda política, mas já se sente na pele de muitos assalariados. Não é um cenário de futuro: grandes empresas internacionais, sobretudo as tecnológicas, estão a substituir milhares e milhares de trabalhadores por algoritmos e robôs. Muitas profissões rotineiras estão condenadas. As criativas parecem ter futuro. Pelo caminho ficam muitos trabalhadores sem futuro. Um problema de hoje, muito ignorado e que precisa de ser colocado na agenda. Educação, novas regras laborais, segurança social, rendimento universal… são respostas a equacionar, certo de que para que o mercado global funcionar não basta fazer crescer a oferta. Sem procura à altura de que serve tanta oferta? As desigualdades são tão desmedidas que precisam de freio apertado. 

classes. Podíamos fazer regressar o marxismo e a luta de classes. Podíamos e podemos. Já não será o binómio burguesia/proletariado, mas as chamadas classes médias. De um e de outro lado do mundo são elas que empurram a política. Há alguns anos que Moisés Naím avisa que a principal fonte de conflito não provém do choque de civilizações, mas das expectativas frustradas das classes médias que se depauperam nos países ricos (EUA e Europa) e crescem nos países em desenvolvimento (China, Índia e alguns outros como o Perú ou o Chile). Um estudo de Homi Kharas, citado por Naím, revela que hoje 3200 milhões de pessoas integram a classe média mundial, um pouco mais de 40% da população. O Banco Mundial define classe média como a população que aufere entre 11 e 110 dólares por dia. A largura de rendimento é grande e caracterizará situações diversas, mas a tendência de crescimento deste estrato mostra uma clivagem. Nos EUA, na Europa e no Japão a classe média cresce 0,5% ao ano, na Índia e na China cresce 6%. Enquanto deste lado do mundo se vê ameaçada e se manifesta contra todos os que a têm (des)governado, escolhendo e tolerando populistas e nacionalistas, do outro lado aumentam expectativas e reivindicações. É esta tensão que move uma parte importante do mundo. 

núncio. O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Paulo Núncio tem sido até agora a face visível de um circuito opaco por onde escoou demasiado dinheiro. Mesmo num tempo em que as escalas financeiras ganharam muitos dígitos, milhares de milhões são quantias que exigiam e exigem escrutínio. Há poucos dias, um responsável do governo anterior descobriu que o aparecimento tardio das declarações bancárias de transferências para offshores isentava afinal a governação de Passos Coelho. Ou seja, se as declarações de 2011 a 2014 só apareceram em 2015, só podiam ser fiscalizadas pelo actual governo. A despreocupação durante os anos da troika é desconcertante… Mais desconcertante só a especialização do secretário de Estado em paraísos fiscais e na Zona Franca da Madeira, que chegou a permitir serviços financeiros offshore. 10 anos de experiência que, obviamente, só podiam deixar-lhe dúvidas sobre a publicitação das transferências financeiras.

fome. O alerta segue-se a muitos outros, incessantes. Sempre trágicas. A grande questão é como chamar a atenção para a urgência do socorro, como trabalhar para inverter a desgraça repetida. Esta semana, a ONU confrontou-nos com mais 20 milhões de seres humanos com fome, FOME, fome. Homens, mulheres e crianças do Iémen, do Nordeste da Nigéria, do Sudão do Sul e da Somália. Fome resultante de guerras sangrentas, medievais, mais ou menos esquecidas, fora dos holofotes e que alastram impunes. Dizem as Nações Unidas que esta é a maior crise humanitária desde a criação da organização. São precisos 4400 milhões de dólares até Julho para evitar a morte de 20 milhões de almas. À consciência dos que mais têm.

sampaio. Vem aí o segundo volume da biografia de Jorge Sampaio, escrita pelo jornalista José Pedro Castanheira. Um trabalho exaustivo de uma década que, além da memória do biografado e de muitas pessoas com que se relacionou, tirou partido de um grande acervo de documentos, nomeadamente dos cadernos de notas pessoais que, desde 1979, foi acumulando. São 67 cadernos e registam reuniões, reflexões pessoais, recados… O segundo volume desta biografia política abrange o período que vai da presidência da Câmara de Lisboa aos dois mandatos de Presidente da República. Jorge Sampaio, diz o biógrafo, "nunca deixou de ser um solitário, agindo enquanto tal nos momentos mais decisivos do seu percurso político". São vários os exemplos, alguns que lhe valeram inimizades para a vida, mas também o reconhecimento de uma autonomia e coragem invulgares.



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