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Quem diria que Schäuble se renderia a Centeno! Mesmo condescendente, ou irónico, lá teve que reconhecer os méritos do seu homólogo. Em tempos de terror e revolta, não é coisa pouca quando olhamos para este país à beira-mar plantado.
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António José Teixeira 26 de maio de 2017 às 13:00
centeno. O homem que há um ano mais desconfiava do futuro político e económico de Portugal foi, por uma vez, condescendente. Wolfgang Schäuble, o todo-poderoso ministro das Finanças alemão, já não acena com novo resgate. Decerto com um sorriso amarelo, classificou o seu homólogo Mário Centeno como "o Ronaldo do Ecofin". Um artista, já se vê. As referências ao político esforçado, que estuda dossiês como o da Eurovisão, revelam bem como preferiu a caricatura ao reconhecimento objectivo dos nossos méritos. Em Portugal, Centeno começou por ser visto com desconfiança pela inexperiência política e chegou a cair em desgraça por causa da gestão do dossiê Caixa. Olhando para trás, apesar de alguns percalços, deve-lhe ser creditada a recuperação do sector financeiro, o cumprimento e superação das metas orçamentais e, agora, a saída do Procedimento por Défice Excessivo. Com uma economia a crescer acima da média europeia, apresenta credenciais para ser visto como candidato a presidente do Eurogrupo. Quem diria…

excessivo. Há muitos séculos que acumulamos défices excessivos nas contas públicas. O 'deve' superior ao 'haver' só nos travou quando já não era possível continuar. Ouro de vários brasis alimentou ilusões e a sustentabilidade foi sempre duvidosa, talvez impossível… A aplicação do tratado orçamental da União Europeia nestas décadas de integração deu origem a procedimentos correctivos. O de 2009 é apenas o mais recente. Mas os correctivos não são para todos. Como dizia Juncker: "A França é a França!" E poderia ter acrescentado: "A Alemanha é a Alemanha!" Pouco importa que acumule excedentes orçamentais, também eles perturbadores das contas públicas dos restantes parceiros. Somos todos iguais, mas há uns mais iguais do que outros. Há oito anos, o Procedimento por Défice Excessivo não evitou o resgate e a receita da troika foi pouco inteligente. Causou danos à economia sem corrigir os grandes desequilíbrios. Cidadãos e empresas sofreram a crueldade da misteriosa regra dos 3%. Justa ou injustamente, fizemos o caminho das pedras para reclamarmos alguma normalidade. A boa notícia é que recuperámos confiança e resultados positivos na economia. A má notícia é que os desequilíbrios perduram e precisam de combate. Já chega de excessos e de correctivos.

reformas. Quem não gosta de encher a boca de reformas? Já ninguém promete revoluções. Até porque não se prometiam, faziam-se. As revoluções dos nossos dias vestem a capa de reformas e legitimam-se pelo voto. Nos EUA, na Turquia ou na Rússia, o voto autoriza verdadeiras revoluções. O que se passa na América de Trump configura um processo revolucionário em curso. A proposta de orçamento corta 3,2 mil milhões de euros, em dez anos, nos programas sociais para os mais desfavorecidos. O documento chama-se Novo Fundamento da Grandeza Americana… Apenas se aumentam as verbas para a Defesa e a Segurança, incluindo o muro com o México. Quanto aos impostos - "a maior reforma fiscal da História" -, reduzem-se fortemente para os mais ricos. Reforma ou revolução? Outro exemplo. Alguém imagina um Presidente a pedir aos serviços de informações para neutralizarem uma investigação da polícia? Pois bem, Donald Trump pediu aos directores das principais agências de espionagem que negassem publicamente a existência de qualquer ligação da sua equipa eleitoral com a Rússia, uma investigação que está a ser conduzida pelo FBI, cujo director ele despediu. É difícil conceber uma revolução maior se os seus intentos se realizarem.

orçamento. O clima de confiança, os resultados obtidos nas contas públicas, os números do crescimento do PIB no primeiro trimestre, as exportações, a produção industrial, o turismo, o investimento privado e o público, os juros negativos alcançados nos recentes leilões de dívida… Tudo, ou quase tudo, parece correr de feição ao Governo de António Costa. Até Marcelo Rebelo de Sousa, o optimista-mor da República (autodenominado 'optimista realista'), fala num crescimento económico que, no final do ano, pode chegar aos 3,2% do PIB! As notícias são boas. E as expectativas não param de aumentar. Ao contrário dos primeiros tempos em que poucos esperavam durabilidade e grandes resultados da governação, agora as expectativas subiram, e muito. A negociação do próximo Orçamento do Estado é um osso duro de roer para os socialistas. PCP e BE vão querer tirar partido dos dividendos, mesmo que sejam ainda curtos. Com o procedimento por défice excessivo levantado, a pressão de bloquistas e comunistas aumenta, seja à mesa das negociações, seja na rua. Ou não estivéssemos também em ano eleitoral.

manchester. Houve tempo em que havia política no terrorismo, identidade, escolhas, alguma racionalidade dentro da irracionalidade. Nada podia nem pode legitimar o terror. Sem mas. Não há terror bom e terror mau. Todo é igualmente intolerável. Havia, contudo, alguma clareza nos propósitos e nos alvos. Movimentos independentistas, Brigadas Vermelhas, organizações focadas em sabotagens, luta armada, por vezes tão ou mais devastadoras do que as actuais. Hoje, somos todos alvos em qualquer local. Não interessa quem somos e o que pensamos. O atentado de Manchester quis apenas fazer jus ao medo. Matar a eito jovens e menos jovens. Amedrontar e matar um pouco de todos os que vemos, ouvimos e lemos. Pura irracionalidade. Trump condena estes "falhados" depois de vender muitas dezenas de milhares de milhões de armas ao país que mais inspira e financia o terrorismo islâmico. Niilismo puro.

delação. O Brasil vive em regime de delação. Não tem prémio, apenas revolta. Perdoam-se crimes em troca da denúncia de outros maiores. Ano após ano, senador, ministro, presidente… a corrupção virou epidemia. Um terço dos deputados é suspeito de falcatruas. Não se fazem negócios sem propina, comissão, mala de dinheiro. Regra de sobrevivência. Escutas e gravações dos processos são exibidas pela justiça como se também ela estivesse em jogo. Visto de fora, o Brasil parece condenado a substituir uma nomenclatura pouco recomendável por outra pior. Era notória a má reputação dos que substituíram o PT após o afastamento de Dilma. Acabar com a cultura de corrupção não será fácil. O sistema tenderá a encontrar soluções de continuidade. Por isso, não se renova. Não há outros rostos, outros partidos. Os movimentos que se conhecem são mais ou menos inorgânicos. Contestam, protestam, revoltam-se pelo desenvolvimento que tarda a generalizar-se. O país da esperança, que Fernando Henrique Cardoso credibilizou e a que Lula chegou a dar substância, não quebrou a teia corrupta. A delação ajudará à depuração. Por enquanto, apenas pôs a nu a podridão endémica e a revolta popular. Não se vislumbram sinais de mudança.




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