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Semana assombrada por luto e esperançada pela solidariedade. Também por tiros no pé na procura do pontinho fácil. São muitas as dificuldades de comunicação, ainda assim menores do que as incapacidades políticas. Abundam as armas de distracção massiva: muita ansiedade para muito medo de falhar.
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Negócios 30 de junho de 2017 às 13:00
redes. O Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal, também conhecido por SIRESP, tornou-se a sigla mais falada dos últimos dias pelos piores motivos. E não são de agora. São de nascença. Aprovado em 2005 por um governo demissionário, resultou de uma parceria público-privada, que apenas beneficiou os privados. Renegociado várias vezes, custa demasiado dinheiro ao Estado. Mesmo depois da tragédia de Pedrógão Grande, perante a evidência do falhanço das comunicações, o SIRESP garante que esteve "à altura da complexidade do teatro de operações".  Talvez do teatro, não das operações. Fernando Alexandre, o secretário de Estado que renegociou o SIRESP em 2015, pôs o dedo nesta ferida no jornal Eco: "O contrato continua a ser mau para o Estado". O Sistema justifica-se, "mas entregar uma rede de emergência e segurança do Estado a privados levanta muitas dúvidas", diz o antigo responsável da Administração Interna. É por isso que a Polícia Judiciária, que deveria integrar uma rede como esta, não se incluiu. Não confia. Razões de sobra para o Estado tomar conta da rede. Desde logo para que funcione e possamos confiar nela. 

pontinho. O que aconteceu em Pedrógão Grande foi demasiado trágico para que fique tudo na mesma. Avaliar responsabilidades e extrair consequências é uma exigência obvia. Tão óbvia como devia ser a exigência de respeito pela dor e pelo desespero em que vivem as populações atingidas. Adicionar mais dramatismo ao drama é inútil e pode voltar-se contra o aproveitador. A política não tem prazos para começar ou para finalizar. Nem é pressuposto que faça interregnos, por mais respeitáveis que sejam os apelos. Se a política for um exercício de racionalidade interessa-nos a todos, terá um sentido útil e uma justificação permanente. Nesta altura, todos concordaremos que são bem-vindas todas as propostas e acções – sobretudo acções – que resolvam problemas. Quem disse que «não devemos dramatizar nem desdramatizar» tinha razão. Já há drama suficiente. Insuficiente é a racionalidade na política, tal é a sua vertigem para o descrédito. O combate político não pode resumir-se à conquista do "pontinho", ao passa-culpas do costume. Tem de ser algo mais. Tem de ser útil aos cidadãos. E não apenas àqueles a quem chamamos políticos.

suicidário. Pedro Passos Coelho tem a imagem de político seguro, sereno e responsável. Longa carreira política: experiência de liderança, experiência parlamentar e experiência governativa num período muito difícil. Nervos de aço, grande autocontrolo, que não deixavam antever falta de bom senso e precipitação. Falar da ocorrência de suicídios para atirar pedras a quem quer que seja é já uma atitude insensata. Falar de suicídios sem os confirmar é de uma enorme irresponsabilidade. Sempre se poderá dizer que neste contexto o seu caso não é o único. As notícias da queda de um avião, que não caiu, também não abonam a favor da comunicação social. Mesmo não estando sozinho, o líder do PSD diminuiu muito a sua credibilidade. Isso ficou bem patente na contenção a que se sentiu obrigado no debate parlamentar com o primeiro-ministro. A contenção será sempre boa conselheira. Neste caso, Passos Coelho não tinha alternativa.

juntos. Por todos. Por Pedrógão Grande. Por Portugal. Um enorme concerto de solidariedade, organizado em tempo recorde, reuniu televisões e rádios num evento sem precedente. Foi um grande gesto de generosidade e de união. Mostrou que há causas maiores que estreitam laços e fortalecem pertenças. Constrói-se coesão e aviva-se o sentido de cidadania e de comunidade. Grandeza enorme; contudo, insuficiente. Não nos iludamos com a beleza. Não deixa de ser uma circunstância mediática, por natureza precária. Por isso, não dispensa a política e a memória. "Juntos por todos" fica como exemplo de responsabilidade e afecto. Que a política, que todos nós, saibamos estar à altura do gesto.

medo. Já tínhamos o clássico «Sociedade de Risco», do sociólogo alemão Ulrich Beck. Aí se levantavam as transformações políticas, financeiras e ambientais, que colocaram novos problemas às sociedades contemporâneas. Agora, o também sociólogo alemão Heinz Bude publicou «A Sociedade do Medo». Medo de quê? Da marginalização social, da solidão, do fracasso pessoal e profissional; medo dos outros, da percepção que formem de nós, da decepção que podemos provocar, de não estarmos à altura da responsabilidade… Muitas expectativas, ansiedade, competição e um risco a pairar sobre as nossas cabeças: o medo de falhar. Falhar nas relações pessoais, familiares e nas relações de trabalho. Bude diz que «há muita amargura e ressentimento nas nossas classes médias». A frustração e a falta de horizonte são bem visíveis. 

dispersão. Por estes dias, El País alertava-nos para uma «arma de distracção massiva que trazemos no bolso»: o smartphone. São incontestáveis a grande oferta de informação e conhecimento, a capacidade de conexão e interacção permanentes ou as aplicações para nos facilitar a vida. São inúmeras e contínuas as solicitações. Se não conectamos não existimos. O telefone inteligente mudou o nosso modo de vida. Afectou a atenção e a capacidade de concentração. Tudo nos dispersa face a tanto alerta. Distracção e dispersão. Perdemos cada vez mais o foco, tamanha é a dependência que o aparelho nos criou, tamanho é o medo de que algo nos possa escapar. A dispersão, denominada de "monkey mind", tem remédio, diz o diário espanhol. Há técnicas de desconexão digital e há quem pague a treinadores para redirigir a atenção.



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