Weekend Folha de assentos

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Há incêndios vários a consumir o País. Uns ardem sem se verem. Outros, em lume brando. Há pólvora desaparecida, paióis ao abandono e muito desconcerto. Acumula-se o desleixo, algumas ameaças, algum drama, enquanto a temperatura convida a férias e descanso.
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António José Teixeira 07 de julho de 2017 às 13:00
paiol. De repente, em Portugal também a pólvora anda à solta, desvairada, descontrolada. Não chegavam os incêndios e os downbursts avassaladores. A pólvora sem guarda num país atónito: no território de alegados brandos costumes assaltam-se quartéis! Tancos é conhecida como "a reserva estratégica" do Exército. Duas dezenas de paióis armazenam explosivos e outros petrechos de guerra. Três foram assaltados. Levaram muitos quilos de explosivos, granadas e lança-granadas foguete. Parece que faltavam arame farpado, patrulhas e videovigilância. Também falta de zelo e de senso. Há dois anos. Falta dinheiro e sobram burocracia e incapacidade política. Os governos do "ajustamento" orçamental têm pouca sensibilidade para as funções de soberania. A sociedade também. Salvo quando a casa aparece roubada. O que é mais surpreendente é o desleixo militar. E este é o desleixo mais primário. Um quartel que não consegue garantir a sua segurança transforma-se na primeira vulnerabilidade do país.

estado. As últimas semanas têm sido férteis em acidentes e incidentes que deram enorme visibilidade a instituições e dimensões do Estado: protecção civil, bombeiros, GNR, ministérios, militares… Segurança, afinal. Morre-se às dezenas num ataque de fogo, logo depois assalta-se um polígono militar, a sequência é assustadora e propicia instabilidade política. Mina-se a confiança no Estado e abre-se espaço a toda a sorte de demagogia. Falham as instituições por acção ou omissão, ficam em causa as tutelas políticas. O Estado baratinho sai caro. E os que mais denunciam o desinvestimento são os que mais contribuíram para a dieta empobrecedora. Um descaramento. Como sempre, importa distinguir o trigo do joio, pois a incúria não é desculpável, qualquer que seja a dieta.

grave. Foi o adjectivo encontrado pelo Governo para qualificar o assalto a Tancos. A Pedrógão Grande sucedeu a gravidade de Tancos. Grave é algo sério, importante, ponderoso, severo, profundo, perigoso. Perturbador para governantes e governados. Incentivador para a oposição, que exige responsabilidades e a demissão de dois ministros. Nem por isso António Costa alterou o calendário de férias. Se as suspendesse legitimaria a ideia de que não é apenas grave o assalto a Tancos, mas a própria situação do país. Não suspendendo as férias desvaloriza o impacte do assalto na confiança dos portugueses e expõe-se às críticas de irresponsabilidade. «Mais complicado seria se o Presidente da República estivesse em férias», diz Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente ganha mais palco enquanto o primeiro-ministro ganha tempo. O optimismo reinante sofreu alguns golpes. Costa não o pode ignorar. O estado do Estado parece grave. Na música, diz-se que grave é o mais lento dos andamentos. Na política, talvez não.

carreiras. Enquanto o primeiro-ministro goza férias, a Associação Sindical dos Juízes escreve-lhe cartas abertas. Negoceia-se o Estatuto dos Magistrados Judiciais. Muitas reuniões com a ministra da Justiça, uma magistrada do Ministério Público, e uma ameaça de greve a pairar. A principal razão invocada para a greve era que a alteração do estatuto limitava a independência dos juízes. A ser assim, a razão era grave. Colocava-se em segundo plano o aumento das remunerações. Na carta que dirigem a António Costa reconhecem que, quanto à defesa da independência dos juízes, "as negociações foram bem-sucedidas". As divergências estão nas questões de carreiras e remunerações. Não é a independência, mas o dinheiro. Que os juízes devam ser bem pagos, parece-me normal. Que os juízes se comportem como assalariados, diminui o seu estatuto. Que ameacem ou façam greve, desacredita-os. Afinal, uma greve de juízes é contra quem? Onde fica a sua independência?

paterson. Nome de uma pequena cidade, junto de New Jersey, perto de Nova Iorque. Também de um motorista de autocarros, que faz poesia nas pausas. Paterson é um filme de Jim Jarmusch, que já tinha passado por Lisboa no ano passado. Chega agora às salas de cinema e merece ser visto. É um filme delicado, sereno, cheio de angústias e ironias, que retrata a vida de um casal: o motorista/poeta e a mulher, uma criadora permanente de geometrias várias a preto e banco, sejam cupcakes, vestidos ou cortinados. Paterson é terra de poesia. Um dos filhos da terra é o poeta William Carlos Williams, preferido do protagonista Paterson. Pequenas histórias entrecruzam rotinas nas quais se inclui Marvin, um bulldog cheio de personalidade. Paterson colhe poesia nas ruas e paisagens que atravessa e contempla todos os dias. Toda uma vida em cadernos diários.

viagem. "ITÁLIA. Práticas de viagem" é um livro propício à época. Talvez a todas as épocas. António Mega Ferreira viaja há quatro décadas por Itália. Uma paixão que já tinha partilhado, há quase 20 anos, num livro sobre Roma e que agora se alarga a outras direcções: Trieste, Veneza, Bolonha, Ferrara, Siena… Lugares, música, pintura, arquitectura, múltiplos traços de peregrinações por "lugares míticos de construção de uma identidade europeia", como diz o autor, que se centra "na luminosidade expansiva e sensual do sul, em alternativa à sombria meditação de indução luterana do norte da Europa". Perante a enxurrada de turistas que nos espera, Mega Ferreira aconselha um "semicerrar dos olhos até que a poluição visual se dilua, uma espécie de exercício mental de 'limpeza' das vistas, ignorando-se as mulheres gordas, os homens barrigudos e as crianças malcriadas, concentrando o olhar apenas naquilo que vale a pena ser visto. E em Itália há tanto que vale a pena ver…" Há.





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