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Com Agosto a queimar a memória, a retoma política tem autárquicas e orçamento na agenda. Muita agitação e muita irritação quando o mundo se torna mais assustador. A escalada está em marcha e a vertigem é grande. Só a política pode trazer esperança.
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António José Teixeira 08 de setembro de 2017 às 13:00
campanha. A poucas semanas das eleições para as autarquias locais, há muito ruído no ar. São milhares de eleições, votos diversos, mais escolha de candidatos do que de partidos. No final, a contabilidade política alinhará os partidos. Também os independentes mais sonantes. Haverá leituras nacionais, comparações e ilações. Mesmo que, em rigor, cada eleição seja um caso particular. Estão em causas programas, candidatos, mandatos e realidades incomparáveis. Não dissociáveis das convicções e fidelidades, ainda assim cada freguesia e cada concelho são escolhas distintas. Distintas também pela importância do que está em jogo. A pouco e pouco - mais ainda no futuro próximo - as freguesias e os concelhos serão mais decisivos na nossa vida. O nosso dia-a-dia é condicionado pela governação municipal, seja nos transportes, no estacionamento, nos espaços públicos, na limpeza, nas escolas, na habitação ou na atracção de investimento e de emprego. Isto é, para os hojes e amanhãs das nossas vidas, a freguesia e a câmara municipal valem mais do que os governos centrais. Talvez não seja exagero. E por isso, importa medir bem os programas e os candidatos que nos batem à porta. 

ideologia. As irritações em curso, que ganharam eco nos palcos de Verão, são ainda o resultado de não ter sido digerida a solução política construída no rescaldo das eleições legislativas. O discurso de Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD é ainda isso mesmo. Mais do que a crítica das políticas seguidas pelo governo socialista, é a recusa de entendimentos fora daquilo que até há pouco se designava por "arco da governação". A ideia de ilegitimidade do actual Governo continua presente, mesmo que não assumida com clareza. Valem pouco as indignações com o "pio", ou a falta dele, como valem pouco as queixas de intolerância. Fazem parte da dialéctica partidária. O que importa registar é que nem Cavaco Silva nem o PSD se afastaram da ideia de inaceitabilidade de um governo que tem compromissos à sua esquerda. Tal como não reconhecem alternativas para o cumprimento das regras orçamentais de Bruxelas. Por mais que se rebaixe a ideologia ao peso da realidade, é de ideologia que continuamos a falar. Não se perderam as diferenças. Mesmo que sejam poucas.

disputas. O incêndio do Verão queimou a política, sobretudo a governação. Recuperar das chamas e das cinzas requer fôlego e tempo. Com autárquicas à porta e o Orçamento do Estado de 2018 para aprovar, o caderno de encargos de António Costa é pesado. A chamada «rentrée» política não trouxe qualquer sinal de novidade. O tempo é de disputa, como sublinhou o líder do PS, que acenou ao PSD para consensos nas florestas e nas obras públicas. Nem os temas são novos nem há qualquer inversão táctica. É apenas Costa a querer realçar o seu papel central no espectro político ao mesmo tempo que negoceia com os seus parceiros orçamentais. O exercício é difícil, tendo em conta o muito que os divide, mas o instinto de sobrevivência vai comprometer a esquerda uma vez mais. Descontada a retórica e o tom dos protestos, objectivamente o BE e o PCP aproximaram-se do centro. Do outro lado, Pedro Passos Coelho tem provas talvez mais difíceis. Autárquicas e congresso do PSD são desafios pesados. Talvez se enganem os que pensam que não lhes sobreviverá. Direita e esquerda não parecem disponíveis para grandes riscos. Mais do mesmo é o que se vê no horizonte. Mas é ainda cedo. 

enxame. Quando se fala de respeito parece que cheira a naftalina. Lembra o "respeitinho" no tempo da "outra senhora". O respeito que aqui trago tem mais a ver com a comunicação digital. Respeito como ponto de partida de uma reflexão de Byung-Chul Han, um sul-coreano que ensina Filosofia na Universidade das Artes de Berlim, e que nos lembra que "respeito" significa "olhar para trás". Um olhar de novo, que pressupõe distância, uma condição essencial da esfera pública. A verdade é que o olhar perdeu distância, ganhou proximidade, tornou-se o olhar característico do espectáculo, do escândalo. Público e privado confundem-se na comunicação digital, privatiza-se a comunicação, promove-se a indiscrição. É a sociedade em que vivemos. Passámos da era das massas para aquilo que Byung-Chul Han designa como a era do "enxame digital": volátil, sem mediação, somatório de solidões, inorgânico, fixo no presente, incapaz de uma acção comum consequente. Ou seja, apesar das tempestades de indignação, tão pródigas das redes sociais, as novas "massas" são mais controláveis, mais monitorizáveis e previsíveis. Pouco respeito para muita impotência. 

ameaça. Há poucas dúvidas sobre a capacidade nuclear da Coreia do Norte. Há anos que a dinastia Kim desafia a comunidade internacional. Desrespeita as decisões da ONU, expulsa inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica e prossegue o seu programa nuclear. São já sete as rondas de sanções económicas contra Pyongyang. De pouco ou nada valeram, desde logo porque não foram suficientemente fortes. Anunciam-se novas sanções, mas poderão ter o mesmo resultado. A dissuasão não tem funcionado. Muito menos as ameaças de "fogo e fúria" do presidente dos EUA. Não há opção militar para lidar com este problema. A menos que se escolha a catástrofe. Até Steve Bannon, o antigo estratega de Trump, o percebeu. Aqui chegados, a única saída (mesmo que precária) para estancar a escalada é convencer a Coreia do Norte a sentar-se à mesa das negociações, o que significa pensar no que teremos para lhe oferecer como contrapartida. 

falha. O mais assustador quando olhamos para a barbárie que por aí anda à solta, seja em Charlottesville ou em Barcelona, é a constatação de que o progresso civilizacional não chegou a todos. Ou, pelo menos, a muitos, a muitos a que deveria ter chegado. Falhámos, continuamos a falhar, na transmissão de saberes e valores. Falhámos muito na integração das diferenças, na tolerância. Falhámos em questões básicas como o racismo. Não espanta que existam racistas, extremistas, irracionalidade. O que é assustador é que o racismo e a intolerância ganhem tantos adeptos, que programas políticos de intolerância e negacionismo saiam vitoriosos. Uma América que ainda não ultrapassou o racismo, que fala e combate em nome de supremacionistas, que estuda o criacionismo nas escolas, é uma América que falhou em traves mestras da nossa civilização. E se ela falhou - basta olhar para Trump - muitos falharam e continuam a falhar no designado mundo desenvolvido. Uma educação comprometida com os valores civilizacionais é a resposta fundamental ao regresso da barbárie. Não será para acabar com ela definitivamente. Tão só para, energicamente, a reduzir a limites suportáveis. 





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