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"Demos os nossos hojes pelos vossos amanhãs", assim se lê no topo do portão de um cemitério em Caxemira descrito nas páginas do mais recente livro de Arundhati Roy. Podia ser noutros lados. As recusas da tirania e a luta pela liberdade não foram e não são óbvias. E por isso o mundo nos interpela hoje quando se perde a racionalidade e se recuperam ódios.
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António José Teixeira 15 de setembro de 2017 às 13:00
juízes. De ameaça em ameaça, os juízes vão fazer greve. Apesar da estranheza geral, assumem o seu direito à greve por ter precedente "sem que o céu tenha desabado"… A greve do poder judicial é um contributo para o seu enfraquecimento. Ao se revoltar contra o executivo e o legislativo, assume uma dependência, menoriza a sua autonomia, como se fosse uma mera corporação. O secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes invoca o federalista americano Hamilton para dizer que o poder judicial é o mais fraco dos três poderes, por estar à mercê do legislativo e do executivo. Logo, justifica-se que seja o mais defendido. De acordo. Mas não é assim que se faz a sua defesa. Há reparos pertinentes ao estatuto dos juízes. Mas serem eles a impor ao legislativo e ao executivo o seu interesse desvirtua a separação de poderes. Acresce que o ponto mais importante do protesto dos juízes, mesmo que apareça secundarizado, é o capítulo remuneratório. E aqui colocam-se ao nível de qualquer corporação. Finalmente, calendarizar uma greve com o objectivo de prejudicar a validação dos resultados das eleições autárquicas é, simbolicamente, um atentado à democracia. É triste e grave que os juízes não o entendam.

soberania. É difícil fazer escolhas quando os recursos são escassos. Vivemos um tempo em que se pede cada vez mais ao Estado, mesmo os que mais o querem privatizar. Justiça, defesa, educação, saúde e segurança social são cinco áreas em que é pressuposto o Estado ter um papel relevante. Em algumas, podemos divergir no seu alcance, mas nem por isso são alheias aos nossos impostos. Uma das aquisições da democracia portuguesa foi um Serviço Nacional de Saúde que tem um impacte forte na sociedade portuguesa. Fruto de escolhas, de crises financeiras ou de crises de crescimento do sistema, o Estado tem vindo a conceder espaço crescente à iniciativa privada. Nem por isso diminui a factura pública da saúde, seja porque a população envelheceu, seja porque poderosos lóbis e corporações capturaram recursos ao Estado. Todas as funções de soberania serão inquestionáveis: justiça, defesa e segurança. Deveríamos acrescentar a saúde como área de soberania, pois protege a vida e o nosso bem-estar. Num país tão envelhecido não podemos deixar degradar o SNS. É uma opção que exige recursos e boa gestão. Importa fortalecer os cuidados de saúde.

bater. Não sei se Marcelo Rebelo de Sousa beneficia de um paraíso comunicacional, como diz Pacheco Pereira. Que não lhe tem faltado ímpeto, voz permanente, é uma constatação. Talvez a bem da clareza e da frontalidade. Nem sempre da prudência. O antecessor Cavaco Silva tem o direito de dizer o que bem entenda. Não teve razão nas críticas à "verborreia frenética" visando Marcelo. O Presidente da República recuperou influência e serenou o País. Isto não quer dizer que, aqui e ali, agora em Andorra, Marcelo não tenha sido insensato. Em tom coloquial, foi ácido com a direita. Disse que já não vira à direita «há algum tempo», que, quando o faz, "a direita não nota, está distraída a bater na esquerda, em vez de aproveitar, não nota". Marcelo comentador de si próprio e da política portuguesa prejudica o Presidente e o livre jogo partidário. Até poderá ter razão, mas não lhe cabe julgar os partidos, sejam da direita ou da esquerda. Talvez inebriado pela sua enorme popularidade, pareceu dar razão a Cavaco.

razão. Não é de hoje, é de sempre. Mesmo que hoje nos pareça que a incerteza nunca foi tão grande. A verdade é que os homens sempre se moveram por interesses, ambições e emoções. Procuram referências, legitimidades, nem sempre racionais ou morais. Adoptam regras, o que não os impede de as ignorar. O progresso e a civilização foram feitos de fluxos e refluxos. O poder não se importa de ser amado ou odiado desde que triunfe. Na era de Trump, a ficção tem dificuldade em acompanhar a realidade. Não é a primeira vez. Ou melhor, talvez nunca tenha sido tão flagrante. Na série americana "House of Cards", o presidente Francis Underwood demite-se numa comissão de inquérito do Congresso denunciando a manipulação geral das regras. "O baralho está viciado", diz, acusando tudo e todos de jogarem esse jogo. Proclama, por isso, a morte da idade da razão: "Não há certo nem errado, só há estar dentro ou estar fora". Uma vaga de descrédito do poder democrático está em marcha. Tudo se relativiza. Até a verdade e a mentira as querem tornar apenas uma questão de escolha…

hojes. Há uma frase do mais recente livro de Arundhati Roy («O Ministério da Felicidade Suprema») inscrita num arco de ferro forjado sobre um portão de um cemitério de mártires, em Caxemira, que diz assim: "Demos os nossos hojes pelos vossos amanhãs". Os hojes pelos amanhãs. Muitos deram tudo para que a liberdade fosse possível, muitos pagaram com a vida para que muitos mais vivessem, muitos se sacrificaram em nome da dignidade. Há demasiados mártires na história humana. Nem todos por ódio ou irracionalidade. Há outras causas que melhoraram o mundo e que custaram muitos hojes. Visitar os cemitérios da Normandia, o Memorial de Martin Luther King em Washington ou o legado do seringueiro da Amazónia Chico Mendes ajuda-nos a perceber como não foram, e não são, óbvias as recusas da tirania, do racismo ou da preservação da floresta. Há muitos saudosos das fogueiras inquisitoriais. Surgem onde menos se esperaria. Talvez porque a História não faça suficiente justiça aos que fizeram o mundo melhor, aos que sacrificaram os seus hojes pelos nossos amanhãs. Ou porque a História se faça de esquecimento.

extremo. "Politiques de L'Extrême Centre" é um livro do filósofo francês Alain Deneault, que dá conta de um mal-estar que atravessa a esquerda que não se deixou comprometer com o que costumamos chamar de "centrão". Falar de "extremo centro", como costumamos falar de extrema direita ou de extrema esquerda, é por si só sintomático. Quem se afirma de esquerda acrescenta um "mas", quem se diz liberal prefere situar-se à esquerda. Um centro extremo ou largo em que tudo se ganha e se perde. Perde-se clareza e distinção. Assistimos à dissolução dos ecossistemas mundiais, das instituições, a uma alienação da política e da economia à finança global e a um manietar dos Estados, próprio de períodos de excepção. Daí a preocupação que Deneault coloca em forma de manifesto. Quer acabar com a indignação e passar a uma nova etapa: identificar causas válidas; organizar-se, evitando hegemonias, capelas e sectarismos; desprezar a ideologia e reforçar o pensamento crítico; e ensaiar novas formas de representação. É um desafio radical para uma resposta ao tal "extremo centro", num tempo tão incerto como pantanoso.



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