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De novo, o fogo indomável e a impotência dos homens. Um país a arder e a devorar muitos dos seus homens e mulheres. Apenas a chuva e Marcelo Rebelo de Sousa serenaram os ânimos. Teimamos há muito em não aprender as lições do fogo e em tratar mal a terra que respiramos.
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António José Teixeira 20 de outubro de 2017 às 13:00
responsabilidade. Sábado, véspera de nova tragédia e enquanto se discutia o Orçamento do Estado, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a Pedrógão. Não distribuiu só afecto nem pediu paciência. Já havia relatórios e reclamou acção: "Portugal aguarda com legítima expectativa as consequências que o Governo irá retirar de uma tragédia sem precedente na nossa história democrática". O Presidente não se referia apenas a consequências políticas, mas também às responsabilidades civis do Estado. Mal imaginava que, no dia seguinte, o fogo voltava a matar tantos portugueses. A tragédia repetiu-se. O pesadelo e a devastação deixaram marcas profundas no território e em todos nós. Antes de tudo, esperávamos dos que nos representam um suplemento de alma, de confiança, de protecção, um sentido forte de comunidade. Apenas Marcelo Rebelo de Sousa soube estar à altura da responsabilidade. Mesmo tendo em conta que são necessárias mudanças largas e profundas na gestão do território, não se acautelou o possível nestes últimos meses. Mais do que desculpas, exige-se responsabilidade. A todos. 

fragilidade. O Estado falhou em Junho e falhou em Outubro. É incontestável. Falhou. Cruel e reiteradamente. Falhou porque não foi capaz de proteger os seus cidadãos, a sua primordial razão de ser. Nem sempre é capaz e não é pressuposto que o seja sempre. Mas quando tantos morrem ao abandono, quando tantos perdem tudo, absolutamente tudo, há uma responsabilidade política ineludível. A ministra da Administração Interna percebeu-a em Junho, mas não foi consequente. Percebeu-a na leitura do relatório da Comissão Independente, mas não foi consequente. Percebeu-a de novo no domingo e no dia seguinte voltou a não ser consequente. Pelo caminho, demonstrou insegurança, fragilidade e falta de liderança. A frágil ministra fez fraca a forte gente, como diria Camões. Custa a entender como o primeiro-ministro pensou que poderia contrariar a evidência. Se dúvidas houvesse, foi preciso o Presidente da República dissipá-las. A demissão foi tardia, mas é um gesto de respeito. Responsabilidade, consequências, clareza, convergência, floresta como prioridade nacional são as palavras de ordem de Marcelo. Um "teste decisivo" ao seu mandato. 

ciclo. Marcelo Rebelo de Sousa previu há muito um novo ciclo político pós-autárquicas. Não se enganou. A reconfiguração da direita e do centro-direita vai completar-se com uma nova liderança do PSD. O incómodo dos resultados autárquicos no PCP obriga-o a ponderar a sua relação com o PS. O diabo esperava-se nas finanças e as tragédias do fogo não faziam parte das previsões. A grande vitória autárquica socialista não chega para garantir outros triunfos. Depois do fogo, António Costa e seus pares fragilizaram-se e obrigam-se agora a trabalhos redobrados. Além do cumprimento das metas orçamentais, da satisfação dos compromissos e das expectativas, há um território e uma comunidade a proteger e a mobilizar. É precisa determinação e capacidade de compromisso para que se gere confiança. Daqui para a frente, abre-se um novo tempo. O Governo precisa de novo fôlego, de se reorganizar e remodelar. Os seus parceiros precisam de fazer render os seus compromissos. E as oposições de credibilizarem uma alternativa. Se assim for, também Marcelo terá reforçado o seu papel. Um novo ciclo com mais risco e mais pressão. 

clareza. Há um aspecto quase paradoxal na comunicação ao país do Presidente. Se, em geral, foi uma censura antes da tentativa de censura do CDS, a exigência de clareza à Assembleia da República obriga os apoiantes do Governo minoritário do PS a assumirem-se. Marcelo quer que a soberania dos deputados responda à continuidade, ou não, do Governo. É uma moção de censura que se tornará moção de confiança. Bloco de Esquerda e PCP contestarão sem dificuldade a iniciativa do CDS. Mas já lhes dói que do seu voto possa resultar um compromisso maior com o futuro do Governo. Marcelo percebeu a vontade de descolagem de comunistas e bloquistas e quer evitar equívocos. António Costa agradecerá, mesmo que o seu caderno de encargos se tenha tornado mais pesado. Uma direita mais forte e com mais iniciativa, conjugada com um Presidente mais interveniente, obrigará a esquerda, ou as esquerdas, a maior clareza táctica e estratégica. Marcelo quer estabilidade política e alternativas. Doravante, o jogo político é mais exigente.

interior. Já lá vai a divisão entre campo e cidade, entre o rural e o urbano. O Portugal de hoje mudou muito desde que Orlando Ribeiro lhe traçou o perfil. E se o rural se tornou mais campo de nostalgia nem por isso se deve ignorar que há abandonos negligentes, espaços em estranhas metamorfoses, desleixo perigoso, gentes e bens deixados à sua sorte. As feridas que se abriram nos últimos meses derivam da falência da gestão do território, de um deslaçamento geográfico e da ausência de um modelo integrado que proteja o território e os seus habitantes. O que designamos por interior costuma estar associado a uma quebra de ligações, às falhas de rede, a um isolamento fruto do abandono social e económico, à pobreza esquecida, à ausência do Estado. Não só, mas também. É por isso que é preciso que a devastação do fogo não se apague da memória à custa do jogo político. Importa discutir e escrutinar, mas isso não deve substituir a exigência de revitalização do território e de acabarmos com a fronteira entre o interior e o exterior. 

antónio. Manuel Alegre ganhou raízes fundas na História e no território em que ganhámos vida. Sofre com a morte do "verde pinho" de D. Dinis, ardido este domingo. Enquanto não cala a revolta pelo desleixo, publica um novo livro de poesia. Chama-se "Auto de António". Centra-se em D. António Prior do Crato, o último "príncipe de Avis", um lutador determinado pela independência de Portugal ao tempo em que falhavam soluções para evitar o domínio dos Filipes de Espanha. Não consta nas galerias reais - talvez devesse -, mas reuniu à sua volta muitos dos que prezavam a causa portuguesa. Muitos o apoucaram na História de Portugal. Não é o caso de Manuel Alegre: "António é um país dentro de um nome / Filipe de Espanha disse: / 'É preciso desterrar essa melancolia.' / António é outra forma de tristeza / e de alegria do avesso / esse não sei quê que é quem nós somos / e não tem preço." 






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