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Tempo de cinzas e censuras. Ar pesado, cheio de invectivas e memória curta. Cheira a despojos do fogo e nem por isso a temperatura abranda. Tempo adverso. Bem prega o Presidente à convergência e ao entendimento. Mas as tragédias parecem não ter sido suficientes para compromissos. Cinza e mais cinza quando importa respirar.
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António José Teixeira 27 de outubro de 2017 às 13:00

respiro. As cinzas ainda não assentaram. Pairam. Ainda cheiram a morte e devastação. Impregnam o revestimento do que sobrou. Sentem-se, cheiram-se. Falta ar. Falta arejar. Há cinza no interior. No interior dos que viram o seu mundo cercado e no interior dos corpos que perderam alma. Cinza e mais cinza. Dor abafada, silêncio, muito silêncio, medo de um tempo cruel, que pode repetir-se. Cheira a despojos do fogo, como se fossem despojos de uma guerra sem rosto. Cheira a descalabro e impotência. Enquanto Marcelo afaga corações, tentando levantar os ânimos e o que resta do cimento nacional, o Governo abre os cordões à bolsa para a reconstrução do socorro e das paredes. É alguma coisa. Passaram poucos dias sobre o desabafo de um homem da Lousã: "O nosso respiro voou". Ficou a cinza, demasiada cinza. É preciso respirar!

 

incrédulos. As tragédias precisam de responsáveis. E não se diga que somos todos nós. São os que estão ao leme, são quem esteve ao leme, os governos, a meteorologia, o fogo, o vento, a seca, a protecção civil, a negligência… Culpar o Verão não podemos. Os piores infernos foram no final da Primavera e no princípio do Outono. Nem as estações do ano nos orientam. As oposições culpam e censuram o Governo por não ter sido capaz de evitar os desastres: incompetência, descoordenação… O Governo justifica-se com muitos anos de abandono e desordenamento da floresta, negligência dos cidadãos, alterações climáticas… Há seguidores de ambos os lados e os argumentos raramente se cruzam. Tolera-se mal quem os junte. A verdade não é propriedade única de qualquer das partes, mas arrisca-se a ser tão-só uma questão de convicção. Os argumentos, todos, deveriam estar no horizonte de um debate racional. Mas não. Valham os remédios receitados por um conselho de ministros extraordinário sob pressão de Belém. Positivos, disseram quase todos os partidos, depois do apelo presidencial à convergência. Vamos ver, até onde? O tempo é de incrédulos. A única certeza é que Marcelo continuará vigilante.

 

censura. É fácil o trocadilho de que a censura saiu censurada. Ou dizer que saíram todos censurados. É fácil dizer que o CDS marcou pontos na oposição ou que o CDS ajudou a reforçar o mandato socialista. O que não é fácil é dizer que o País renovou a confiança nos poderes públicos, sejam o Parlamento ou o Governo. A dissensão é útil, mas terá cimentado mais adversidade do que a necessária a um debate político à altura da devastação deixada pelo fogo e pela incúria. Não é difícil justificar a censura ao Governo. Como é fácil constatar as enormes responsabilidades governativas acumuladas ao longo de décadas. Ainda que sejam necessárias respostas urgentes e convergentes, a política não pode dissolver-se. Estamos precisados de adoptar boas e duradouras ideias, que se apliquem na reconstrução e reordenamento do território. Censuras chumbadas, censuras sobreviventes, não podem neutralizar a urgência de políticas largamente concertadas. António Costa tem a obrigação de envolver todos os partidos. Consensos, convergências, pactos, o que quiserem.

 

nome. "O meu nome é Pedro Santana Lopes e assumo tudo o que fiz". Em autoconfiança ninguém o bate. Não terá passado pela cabeça de Rui Rio o ressurgimento do "menino guerreiro". Santana Lopes sabe que, em política, se pode morrer e regressar muitas vezes. As arestas da memória arredondam-se e, para a história, fica o que mais quisermos fazer sobressair. Emotivo, Santana foi o «enfant terrible» permanente do PPD/PSD, um temível orador e um mal-amado. Encantou munícipes da Figueira da Foz e de Lisboa, mas perdeu o país. O seu adversário Rui Rio não terá os mesmos encantos. Austero, frio, inflexível, Rio conquistou o Porto com boas contas. Não podiam ter perfis mais contrários. Água e azeite. Não se misturam, mesmo que já tivessem partilhado a mesma mesa. Santana não muda, quer um PSD cada vez mais PPD. Rio quer mudar, deseja um PSD mais PSD. Velha pecha de um partido pouco ideológico. Veremos se o PPD/PSD quer apostar numa evolução na continuidade ou render-se a quem lhe quer mudar o rumo. n

 

adúltero. O juiz Neto de Moura, do Tribunal da Relação do Porto, desculpa a violência exercida sobre uma mulher por esta ser adúltera. Baseia-se na Bíblia e num código de 1886. Não é a primeira vez que o adultério lhe serve de justificação para anular penas por violência doméstica agravada. "Uma mulher que comete adultério é uma pessoa falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral. Enfim, carece de probidade moral. Não surpreende que recorra ao embuste, à farsa, à mentira, para esconder a sua deslealdade e isso pode passar pela imputação ao marido ou ao companheiro de maus tratos. Que pensar da mulher que troca mensagens com o amante e lhe diz que quer ir jantar só com ele 'para no fim me dares a subremesa [sic]'?", pergunta Neto de Moura. Pareceria caricato se não fosse abjecto. O Conselho Superior da Magistratura lembra que os juízes devem obediência à Constituição e à lei, mas não intervém em questões jurisdicionais. Começou por não ter a certeza de que a sentença tivesse relevância disciplinar, mas perante o clamor da contestação concedeu abrir um inquérito. É inaceitável que a justiça tolere que um juiz viole valores básicos de um estado de direito e que, neste caso, não haja recurso jurisdicional. Os privilégios do estatuto de independência de um juiz não podem resistir à Constituição e à lei. Um juiz violador e adúltero. Intolerável.

 

cães. Nem todos os animais merecem o mesmo trato. Não é o mesmo falar de mosquitos ou de cães. Nem devemos colocar no mesmo patamar os cães e os humanos. Não é apenas uma questão de racionalidade, mas de natureza. Os cães, como boa parte dos animais, merecem ser bem tratados. São chamados apropriadamente de animais de estimação. Por todas as razões, nada me move contra os cães. Não direi o mesmo dos humanos. Não raro, vejo-os tratar animais com mais consideração do que os humanos, vejo-os até ridicularizar os animais vestindo-os, transportando-os em carrinhos de bebé… Aumenta o número de cães em espaços urbanos, ao mesmo tempo que crescem os dejectos dos canídeos deixados na via pública. Há poucos dias, os deputados da Nação preocuparam-se em alargar os direitos dos cães. É preciso deixá-los entrar nos espaços comerciais, nomeadamente nos restaurantes. Porquê? Coitados, têm de ficar à porta ou, sozinhos, em casa… Sei que não é politicamente correcto dizer isto, mas só nos faltava mesmo levar com a canzoada à mesa. 




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