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Nada será como dantes. A frase de António Costa ecoa, mas apenas parece inquietar. Não se vislumbra mudança. O país está tolhido pela seca, mas satisfeito com o curso da economia. Fazem-se contas ao Orçamento enquanto o Presidente trata dos afectos. António Damásio confirma que eles são a força que move a cultura humana.
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António José Teixeira 03 de novembro de 2017 às 13:00
paciente. O PS ficou chocado com Marcelo. Marcelo já tinha ficado chocado com Costa. Marcelo diz que chocado ficou o País. Costa exibe nervos de aço. Marcelo afirma-se sereno e muito determinado. Diz que é muito paciente, muito paciente. Costa recorda a sua condição de optimista, às vezes irritante, mas sempre optimista. Marcelo também responde com optimismo. Porém, realista. Costa aclara que estão retomadas as excelentes relações com o Presidente. Marcelo diz que andamos a discutir um pormenor, pessoal ou circunstancial, e, se continuarmos a discutir os pormenores, não chegamos lá. Até porque, sentenciou o chefe de Estado, menos de dois anos é pouco para recuperar de décadas de distracção ou de atraso e para corrigir o que é preciso corrigir. Nada será como dantes, já tinha repetido Costa. Não será. E talvez o menos importante sejam os choques entre Marcelo e Costa. Ambos jogam os seus mandatos no fortalecimento do Estado na gestão do território. Quererá Costa um compromisso político alargado à oposição? Que fará Marcelo? 

juízo. Só depois de um grande clamor e de o Presidente da República ter chamado a atenção para o cumprimento da Constituição é que o Conselho Superior da Magistratura decidiu, finalmente, abrir um processo disciplinar ao juiz que censurou uma vítima de violência doméstica e desculpou os agressores. A independência dos juízes é inquestionável. Mas não deve ser inquestionável o desrespeito flagrante da lei e da Constituição, que é pressuposto defenderem e fazerem cumprir. Há poucos meses, em plena campanha autárquica, um juiz afilhado do, na altura, presidente da Câmara de Oeiras, recusou a lista de um concorrente do seu padrinho. Não fez declaração de interesses (havia vários) nem teve pejo em decidir. A sua decisão foi revogada e o seu comportamento objecto de inquérito. O inspector propõe uma advertência (que não ficará registada). O mais surpreendente nestes casos é a constatação de que o aparelho judiciário acha que estes são casos menores. No primeiro caso, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça apelou a cuidados com a semântica… Não lhes passa pela cabeça que não é a linguagem que os trai, apenas os denuncia. São os valores e o carácter que os tornam incompatíveis com o exercício da Justiça. Nem todos podem ser juízes. Os dois senhores referidos não têm condições para o ser.

revolução. Passam por estes dias 100 anos da Revolução Russa que, depois de uma guerra civil, deu origem à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Dos czares à URSS de Estaline, da Rússia de Ieltsin à Rússia de Putin, ainda e sempre o império russo. A Rússia tem fortes raízes europeias, mesmo que pareça olhar mais para a Ásia quando se convence que o Ocidente a despreza. Nunca foi uma grande potência económica, mas nunca deixou de ser uma grande potência territorial e militar. Nacionalista, autoritária, a sua afirmação internacional passa por desestabilizar os seus principais adversários. Manipula as redes de informação, aposta em fragilizar os mais directos competidores. Não desenvolveu uma cultura democrática sob o falso pretexto, reclamado por Catarina, a Grande, de que as dimensões da Rússia tornavam necessária a autocracia. Não é fácil compreendê-la. Como nas matrioskas, há muitas camadas na sua identidade. Churchill dizia que a Rússia é "uma adivinha rodeada de mistério no interior de um enigma". Pode ser. Nem por isso a Rússia é dispensável para o concerto internacional.

redes. As mudanças do mundo nas últimas décadas tiveram nas redes de comunicação, sobretudo nas redes sociais, um impulso que ainda hoje não conseguimos medir com rigor. Mas sabemos que são muito poderosas e influentes, pois ligam uma parte significativa da população mundial. Aproximam, informam, mobilizam, mas também enganam e envenenam. Por estes dias, tivemos novos dados sobre a ingerência russa nas eleições americanas. Além das ligações ao círculo próximo de Trump, que estão a ser investigadas pela justiça dos EUA, também o Congresso está a inquirir os responsáveis do Facebook, Twitter e Google. Vultuosos investimentos russos foram feitos nestas plataformas para expor muitos milhões de pessoas a conteúdos manipuladores gerados na Rússia. Muitos milhões de publicações de propaganda enganosa foram dirigidas a centenas de milhões de americanos. Um poder que assusta por ser tão permeável à manipulação e que nos implica em duas exigências. A primeira é a de que, talvez nunca como hoje, tenha sido necessária informação livre e independente. A segunda deve envolver-nos, a todos, numa pedagogia de combate a três tentações: a de que tudo o que se publica é credível; a de que não devemos acreditar em nada do que lemos; e, pior, a de que a distinção entre verdade e mentira é apenas uma questão de escolha.

sentimento. "A Estranha Ordem das Coisas" é o mais recente livro de António Damásio, que deixou de se chamar neurocientista para preferir ser tratado por "biologista interessado na mente e no cérebro", como revelou a Clara Ferreira Alves. Já tinha reabilitado a emoção face à razão, hoje vai mais longe: é o sentimento o responsável pela criação de culturas. Sentimentos de sofrimento ou de prazer, trata-se da capacidade de os humanos criarem experiências. Sentimentos e consciência interligados. Não há consciência sem sentimentos, não há sentimentos sem consciência. E é aqui que António Damásio se rebela contra o fanatismo tecnológico de Silicon Valley, a miragem da criação de robôs que se equiparem aos humanos. O poder dos algoritmos tem um problema insuperável: não é possível, diz Damásio, criar sentimentos nos robôs. Os sentimentos são a expressão dos afectos, a força que move a Humanidade. Uma lição política fundamental.

aquecimento. Nunca houve tanto CO2 na atmosfera como em 2016, disse-nos a ONU esta semana. A notícia converge com a nossa realidade mais próxima: seca prolongada, culturas agrícolas desencontradas com a época, incêndios devastadores… O clima está a piorar e isso observa-se a um ritmo acelerado em muitas latitudes. Furacões em paragens menos comuns, degelos galopantes, cheias, secas, o planeta está a ficar mais inóspito. Há muito se diz essa verdade inconveniente. Al Gore transformou-a em filmes interpelantes. O mais recente chama-se "Uma Sequela Inconveniente: A Verdade ao Poder". Aí mostra as evidências recentes da nossa deriva autodestrutiva e deixa uma pergunta que as novas gerações não deixarão de nos fazer: "O que vos passou pela cabeça?". Há algumas décadas, o discurso ecologista parecia exótico. Denunciava más práticas, detectava sinais e apontava preocupações para anos distantes. Hoje, deixou de haver distância. Estamos a caminhar contra o prejuízo. Nem sequer a correr. Na próxima semana, reúne-se em Bona a conferência do clima para regulamentar o Acordo de Paris, que obriga os países a limitarem a subida da temperatura a menos de 2 graus Celsius. Um teste à convicção e à urgência. Já sem a inteligência de Trump… 





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