Livros A biotecnologia e o nosso destino político

A biotecnologia e o nosso destino político

Alexandre Guerra reflecte sobre um tema que não tem merecido muita atenção em Portugal: a relação das biotecnologias com o pensamento político. Uma obra que abre novos campos de reflexão.
A biotecnologia e o nosso destino político
Alexandre Guerra, "A política e o homem pós-humano" Aletheia, 206 páginas, 2016
Fernando Sobral 19 de Novembro de 2016 às 12:30
A ciência parece, para alguns, oferecer todas as respostas. Nalguns casos, promete transformar-nos, num futuro próximo, em deuses. A descodificação do genoma humano ou a internet são só dois sinais desta cultura actual baseada na ciência que tudo hegemoniza. Mas será que este mundo tecnológico não estará a ficar fora de controlo?

Tudo está a mudar: a inteligência artificial surgiu como a simples forma de permitir às máquinas fazer coisas para os humanos. Mas a combinação disso, de poderosos algoritmos e o crescente poder de processo de dados levou à "Big Data". Quando o império soviético colapsou, Francis Fukuyama prognosticou o fim das batalhas ideológicas e a vitória da democracia liberal, sendo esta a definitiva forma de governo. Mas ele não antecipava que o desafio que se colocaria à democracia liberal viria não da ideologia, mas das tecnologias de informação e das biotecnologias.

É sobre tudo isto que Alexandre Guerra reflecte num poderoso e estimulante livro sobre os desafios que se colocam às nossas sociedades. Como escreve, "poderá não ser para um futuro próximo, mas, atendendo ao que aqui foi demonstrado, as novas biotecnologias poderão ainda fazer o dia em que nascerá o primeiro 'homem' feito à medida da vontade de um seu semelhante. Da cor dos olhos e do cabelo, ao valor do QI, passando pelo sexo da criança ou pelo nível de agressividade das suas emoções, tudo será possível manusear como se fosse uma encomenda por catálogo".

A perspectiva é sombria. Quem controlará eticamente tudo isso? Alexandre Guerra fala da guerrilha nos EUA à volta deste tema, entre os que defendem os valores primordiais da ciência e os que advogam valores morais. Mas o problema é que as biotecnologias poderão, neste caso, afectar profundamente as lógicas das sociedades democráticas. E mesmo o seu reflexo no poder político. Como é já evidente na robotização das indústrias e na desvalorização do valor do trabalho humano.

Há quem defenda que a tecnologia conduz a História. Só que a tecnologia, nos anos passados, serviu para fomentar a produção de comida, veículos ou armas. Agora, a do século XXI, vira-se para os corpos e cérebros. E quem dominar este mundo novo reinará na nova sociedade. Alexandre Guerra nivela a discussão: "Porque a verdade é que, até ao surgimento da revolução biotecnológica, nunca se levantou a possibilidade de a Humanidade ser mais do que um conjunto de valores (políticos, religiosos, éticos, morais, artísticos, entre outros). Francis Fukuyama fala na Humanidade como um 'conjunto de genes'." Estaremos assim no limiar de uma nova selecção natural, ainda mais contundente do que aquela descrita por Darwin?

Há também aqui outra colisão: entre a religião e a ciência. A religião estava interessada na ordem, a ciência, no poder (percebendo porque e como as coisas acontecem e as sínteses que daí podem advir). Estamos perante um novo desafio: como é que a moralidade, a beleza, a filosofia, o humanismo, poderão sobreviver num mundo em que alguns poderão ser deuses?

Neste momento, as sociedades baseadas no individualismo, nos direitos humanos, na democracia e no mercado estão em perigo. A tecnologia do século XXI reconduz tudo a algoritmos bioquímicos. Afinal, a Google e a Amazon não começam já a saber os nossos desejos antes de nós próprios? Alexandre Guerra abre um espaço de debate em Portugal no meio de um silêncio enorme. Deve ser lido com muita atenção.






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