Livros A busca obsessiva da vida eterna

A busca obsessiva da vida eterna

Don DeLillo regressa com uma das suas obras que nos obrigam a reflectir profundamente sobre o sentido da vida e a tentativa de fazermos das tecnologias a salvação total. Até da vida.
Fernando Sobral 29 de Outubro de 2016 às 12:30
Don Delillo, "Zero K" Sextante, 270 páginas, 2016

A partir de certa altura, a questão da mortalidade coloca-se no horizonte. Morrer assusta. Mas ninguém está isento de ter de se confrontar com ela. Só que Don DeLillo, um dos mais sólidos escritores norte-americanos das últimas décadas, transporta-nos, como é seu timbre, para essa discussão, através de um ambiente radical. Seguimos aqui o sonho de um bilionário, Ross Lockhart, que, ciente da condição de morte prematura da sua jovem mulher, Artis, quer que os seus corpos sejam preservados até que os avanços tecnológicos permitam, no futuro, fazê-los viver mais tempo.

É aqui que choca o poder ilimitado do dinheiro com a limitação da vida. O filho de Ross, Jeffrey, assiste a tudo isto e vai-se confrontando, a pouco e pouco, com as questões éticas e morais que tudo isto levanta. Tal como a lei da natureza e da vida. É possível e desejável contrariá-la? Os temas do terrorismo, das catástrofes ambientais ou da alienação tecnológica têm ocupado as páginas dos livros do autor. Aqui, ele evolui para um outro dos paradigmas da nossa sociedade.

A Convergência é o laboratório secreto onde poderá ser possível a vida depois da morte. "Estamos à espera de entrar na câmara frigorífica, à espera de descobrir o que iremos enfrentar ali. Alguns dos que esperam são bastante saudáveis, sim, poucos, muito poucos, mas escolheram abdicar do que resta das suas vidas actuais para descobrir um nível radical de autorrenovação."

O local onde tudo isto se sonha é patrocinado por homens ricos e por agências secretas governamentais. Corpos e órgãos, ali preservados (de gente com poder económico), estão em estado de vida suspensa até que algo se decida: é a fé baseada na tecnologia que tudo guia. O local é a estepe do Cazaquistão, lugar inóspito e pouco apetecível, e a Convergência parece um local militar secreto. Mas não deixa de ser curioso como DeLillo vai criando a noção de que, mais do que um laboratório, a Convergência é um projecto de arte conceptual visionário. A forma e o conteúdo unem-se. Ali cruzam-se várias instalações, incluindo ecrãs que projectam catástrofes naturais e humanas. Jeffrey, que gasta os seus dias em funções como analista, planeador ou gestor, que na realidade não têm um significado preciso, olha para o pai Ross e para o seu sonho.

Este é um bilionário que subiu a pulso na vida. Jeffrey está espantado por o pai desejar entrar num estado de suspensão, sem ter necessidade disso. Será o amor que o guia? O certo é que Ross tem mais medo da morte do que o próprio Jeffrey e vai mudar de ideias.

O que Don DeLillo faz de forma brilhante é cruzar os universos da identidade, da tecnologia e da mortalidade. Não deixa, por isso, de ser curioso como a Convergência é um local onde se procura excluir alguma tecnologia (não há wi-fi, por exemplo). Os quartos são feitos para se poder ter calma e se poder contemplar. Afinal, a busca da imortalidade é feita, com tecnologia, contra a ditadura desta. Como se, quem pode e tem poder soubesse o que realmente é importante.




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