Weekend A Casa da História de Cascais

A Casa da História de Cascais

A Casa Sommer, um edifício emblemático de Cascais do século XIX, que pertenceu ao empresário Henrique Oliveira de Sommer, esteve abandonada. Depois de um processo atribulado, a autarquia transformou-a na “residência oficial” da história do município.
A Casa da História de Cascais
A foto panorâmica da vila de Cascais tem a data de 1892. O autor é desconhecido.
Arquivo Histórico Municipal de Cascais
Filipa Lino 16 de dezembro de 2016 às 12:00
Uma fotografia de Cascais em 1892, cujo fotógrafo é desconhecido, está numa vitrina ao lado de uma outra assinada pelo rei D. Carlos em 1893. São duas das "jóias" que fazem parte da mostra "Tesouros do Arquivo Histórico Municipal de Cascais", que abre o espaço de exposições da recém-inaugurada Casa Sommer. Este edifício emblemático da vila, situado em frente à Cidadela, esteve durante vários anos ao abandono. Foi construído na última década do século XIX e pertenceu a Henrique Oliveira de Sommer, um comerciante de ferro e aço de origem alemã, que passou a frequentar Cascais em 1892. Era uma casa de veraneio.

Quando o empresário morreu, nos anos 1920, ela passou para os herdeiros. Ao longo dos anos, teve várias utilizações, nos anos 60 funcionou ali um colégio e, mais tarde, o Centro de Cultura e Desporto do Pessoal do Município de Cascais. Mas, com o tempo, entrou num processo de rápida degradação. A autarquia recuperou o espaço que agora é a sede do Arquivo Histórico Municipal de Cascais, a "caixa-forte" da memória colectiva do concelho, que vai acolher toda a documentação e conservação permanente do município. Aqui estão guardados documentos desde 1385 até à actualidade. Entre eles, o Foral de 15 de Novembro de 1514, o primeiro de Cascais, que foi restaurado em 2014, por ocasião dos 650 anos da vila. A representação mais antiga de Cascais, uma ilustração de cerca de 1530, também está nesta mostra, espalhada por três pisos da casa.
O conde de Barcelona, avô do rei Felipe VI de Espanha, que viveu exilado em Cascais no tempo do franquismo. A fotografia foi tirada em 1948 no Clube Naval de Cascais.
O conde de Barcelona, avô do rei Felipe VI de Espanha, que viveu exilado em Cascais no tempo do franquismo. A fotografia foi tirada em 1948 no Clube Naval de Cascais.
Arquivo Histórico Municipal de Cascais
São apenas alguns exemplos dos 91 fundos associativos, familiares, pessoais, empresariais e da administração local que aqui estão depositados. "Estamos a falar de 1,5 quilómetros de documentos de conservação permanente", diz João Miguel Henriques, o chefe da divisão de arquivos, bibliotecas e património da Câmara Municipal de Cascais. "A nossa base é muito rica", refere aquele responsável, "e permite aos investigadores e à comunidade conhecerem a história dos vários pontos de vista". Entre os documentos mais procurados pelo público estão as fotografias, que já se encontram praticamente todas disponíveis online. A digitalização das imagens foi a grande prioridade, explica aquele responsável, não só pela muita procura que têm, mas também por razões de preservação. "Temos cerca de 20 mil digitalizações de fotografias desde 1886", refere. Outros documentos bastante procurados são os processos de obras particulares entre 1850 e 1930.

Nesta exposição, podem ser vistos também alguns documentos do fundo do Hotel Palácio Estoril, entre eles partes dos álbuns fotográficos da unidade hoteleira de luxo dos anos 30 e 40 do século XX, assim como os boletins individuais de alojamento de clientes importantes, como o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro "O Principezinho", e o inglês Ian Fleming, o criador de James Bond. Diz-se, aliás, que foi no Hotel Palácio que o autor se inspirou para a criar a personagem do agente secreto ao serviço de Sua Majestade. Entre os fundos pessoais aqui guardados estão o do embaixador Armando Martins Janeira e de António José Branquinho da Fonseca, o pai das bibliotecas itinerantes em Portugal.

Um "parto" difícil

A Câmara Municipal de Cascais andou às voltas com as obras na Casa Sommer durante mais de uma década. "Quase pareciam as obras de Santa Engrácia", desabafa o vice-presidente da autarquia, Miguel Pinto Luz. Numa visita guiada aos jornalistas, antes da abertura ao público, o autarca explicou que "foram vários os empreiteiros que não conseguiram cumprir com a empreitada até ao fim". Os trabalhos tiveram de ser interrompidos várias vezes para abrir novo processo concursal. A obra custou 1,5 milhões de euros, mas antes a Câmara teve outro um processo igualmente difícil - negociar a compra do edifício com os mais de 150 herdeiros.
A Casa Sommer é a guardiã da história do município de Cascais desde 1385 até à actualidade, nas suas várias vertentes. O edifício, situado em frente à Cidadela,guarda documentos que, postos em linha recta, teriam 1,5 km de extensão.
A Casa Sommer é a guardiã da história do município de Cascais desde 1385 até à actualidade, nas suas várias vertentes. O edifício, situado em frente à Cidadela,guarda documentos que, postos em linha recta, teriam 1,5 km de extensão.
Arquivo Histórico Municipal de Cascais
A primeira dificuldade foi encontrá-los a todos. "Foi um drama", diz Miguel Pinto Luz. Não foi possível chegar a acordo com todos, mas a autarquia conseguiu fechar negócio com "a grande maioria". Depois os restantes "foram expropriados pelo valor a que tínhamos chegado a acordo com a maioria", explica. No total, a Câmara pagou 804.600 euros pela aquisição do imóvel (classificado em 2005 de Interesse Municipal) à família. Agora, a Casa Sommer é o 18.º equipamento do chamado "Bairro dos Museus", cujo "navio almirante" é a Casa das Histórias Paula Rego.
Um grupo de senhoras na praia do Tamariz, em 1930.
Um grupo de senhoras na praia do Tamariz, em 1930.
Arquivo Histórico Municipal de Cascais






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