Livros A grande aventura do Repórter X

A grande aventura do Repórter X

Reinaldo Ferreira, o Repórter X, foi um homem dos mil ofícios. Do jornalismo à ficção, passando pelo cinema, dedicou-se a tudo na sua curta e intensa vida. Oportunidade para o recordar
Fernando Sobral 19 de agosto de 2017 às 09:15
Reinaldo Ferreira
O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho
Pim! Edições,
334 páginas, 2017


Reinaldo Ferreira tinha uma máscara. Refugiou-se atrás do nome Repórter X. Como aliás se escondeu por trás de outros pseudónimos, faces de uma vida percorrida em passo veloz entre a realidade e a ficção, entre o jornalismo e a literatura. No século XX, é um dos nomes de referência da melhor criatividade nacional, especialmente num período tempestuoso que vai da I República ao nascimento do Estado Novo. Irrequieto, Reinaldo Ferreira fez da imprensa o espaço privilegiado para libertar toda a sua criatividade. O universo do crime ou das corrupções eram como um farol para ele. Passam agora 120 anos do seu nascimento e todas as homenagens parecem poucas para a grandeza da sua influência.

A reedição agora de uma das suas mais importantes obras, publicada primeiro em folhetim no já desaparecido O Século e depois transposta para livro, é um motivo de saudação. "O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho" é frenético e empolgante. Repare-se que o início do folhetim data de 1917, ano em que Lisboa era o centro de todas as intrigas e especulações, entre a morte de Sidónio Pais, o presidente-rei, a revolução bolchevique na Rússia e as aparições de Fátima. Que outro ano seria tão acolhedor para o mundo criativo de Reinaldo Ferreira?

Tudo começa, nesta história de mistérios, com as cartas de alguém, Gil Góis (Goes, na altura em que foi escrito), que vai escrevendo cartas para "O Século", relatando um crime macabro que se teria passado na Rua Saraiva de Carvalho, uma das principais ruas de Campo de Ourique, mais concretamente num prédio de inspiração pombalina. Três homens embuçados teriam saído do prédio com um grosso volume de forma humana.

Ao longo das páginas, Gil Góis vai-nos descrevendo as suas investigações sobre estes estranhos homens, acompanhado do seu fiel colaborador Gafanhoto. A quadrilha misteriosa é chefiada por um homem de olhos tortos. Seguir estes episódios diários tornou-se fascinante para os lisboetas, nesses tempos de incertezas e muitos boatos. E com isso se solidificou a singular posição de Reinaldo Ferreira como jornalista e ficcionista.

Muitos outros momentos de inspiração ficcional (misturados com possíveis realidades) iriam nascer da tinta do autor, como um outro episódio publicado, "O Mistério da Rua dos Fanqueiros", aqui já no coração de Lisboa e não numa rua que, na altura, era uma espécie de fronteira entre a capital e o que a cercava.

Muitas das suas obras, como o fenomenal "O Táxi n.º 9297" (baseado no assassinato da corista Maria Alves), garantiram-lhe um lugar de destaque na prosa nacional e acabariam por torná-lo também um nome ligado ao cinema. Lendo este "O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho" percebe-se como o universo do fantástico corre defronte dos seus olhos. A sua vida, uma verdadeira correria, onde tentava descobrir um pouco alcançável amor, terminaria depressa. Morreria em Outubro de 1935 com 38 anos. Olhando para tudo o que se escreveu, parece que a sua passagem por aqui foi muito maior e mais ampla, tal a diversidade de projectos e de escritos que nos legou. Este livro é, espera-se, apenas o primeiro que servirá para recuperarmos toda a sua fabulosa criatividade.






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