Livros A grande luta étnica

A grande luta étnica

Paul Beatty, uma das mais sólidas vozes da literatura negra americana, apresenta-nos aqui uma sátira muito bem estruturada sobre o que o racismo fez aos negros norte-americanos.
Fernando Sobral 17 de junho de 2017 às 09:15

Paul Beatty
O Vendido
Elsinore,
311 páginas, 2017


A questão do racismo nunca deixou de fazer parte do universo social norte-americano. Nem mesmo durante o período em que Barack Obama foi Presidente. Paul Beatty, uma das mais sólidas vozes da literatura negra americana, apresenta-nos aqui uma sátira muito bem estruturada sobre o que o racismo fez aos negros norte-americanos. A novela inicia-se com a presença, em julgamento, do narrador, perante o Supremo Tribunal. A sua primeira linha de defesa é simples e clara: "Pode ser difícil de acreditar, vindo de um homem negro, mas nunca roubei nada. Nunca fugi aos impostos nem fiz batota a jogar cartas." O tom provocador do livro está colocado e assim vai ficar ao longo das suas páginas.

O absurdo é que ele está a ser julgado por tentar restaurar a escravatura e a segregação num subúrbio de Los Angeles, Dickens (a referência literária ao escritor britânico é óbvia). O narrador foi educado pelo pai (à falta de qualquer outro membro familiar), um homem que tinha o condão de acalmar os negros mais exaltados. Mas acabou morto a tiro pela polícia. E o narrador ficou entregue si próprio. Consumido pela raiva e pela culpa, agarra num velho actor negro e torna-o seu escravo. A lógica é: para esta atitude ser vitoriosa, o narrador necessita de se tornar "branco". Ao mesmo tempo que domina um negro.

Tudo pode parecer absurdo aos nossos olhos. Mas não admira. Uma das personagens mais interessantes do livro é um professor que está sempre a ser desprezado, de nome Foy Cheshire, que rescreveu "Huckleberry Finn" substituindo, por exemplo, a palavra "negro" por "guerreiro". O plano diabólico do narrador é reinstalar o orgulho negro através da reinstalação da segregação de raças.

O seu pensamento parece lógico: se o Apartheid uniu os negros na África do Sul, porque é que não poderá acontecer o mesmo em Dickens? Esta ideia não é nova: nos anos 60, a Nação do Islão (organização negra radical nos EUA) teve conversações com o Ku Klux Klan, participando inclusivamente em congressos deste movimento racista branco, enquanto ambos discutiam uma forma de dividir a América, havendo uma parte onde viveriam brancos e, noutra, negros. Beatty bebe nesse mundo alucinante.

Beatty acaba por apostar muitas vezes no valor da sátira, em detrimento de um argumento sólido que seja típico de uma novela e, muitas vezes, parece mesmo que estamos aqui perante muitas ideias coladas com inteligência, mas sem uma visão mais vasta de um todo. Mas talvez essa seja mesmo a ideia de Beatty. No final, assistimos a uma comédia "stand-up" e nela um comediante negro critica um casal branco que se está a rir das suas piadas dirigidas aos brancos. E diz: vão-se embora. Isto é nosso. O que levanta a questão de podermos rir também com o livro e com o que por lá se parece defender.

Beatty gosta de fazer, ao longo de todo o livro, várias ligações entre as referências culturais que o povoam e a vida das seus personagens e da própria sociedade americana. E isso reforça o peso indiscutível desta obra. Que nos coloca defronte de um palco onde a América parece fazer uma peça de teatro. Cheia de sarcasmo e de autocrítica.






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