Weekend A mota era linda

A mota era linda

Cruzavam-se connosco em estradas remotas, ocupavam as paredes das praças, faziam um barulho desgraçado. As Famel Zundapp e as suas congéneres são finalmente objecto de uma merecida exposição, na Casa do Design de Matosinhos.
A mota era linda
José Vegar 14 de outubro de 2017 às 09:00
Tornavam-se rapidamente parte do nosso imaginário, estavam em todo o lado na paisagem nacional, transformaram-se num elemento cultural português. A sua história é essencialmente uma história económica, com uma larga dimensão social, intimamente ligada à estabilidade laboral e ao aumento dos salários dos trabalhadores industriais e rurais. Foram estes factores que permitiram aos operários e aos ganhões abandonarem as bicicletas e comprarem, dos modos mais imaginativos possíveis, "a mota".

Foi assim que, especialmente nas décadas de 60 a 80 do século passado, elas começaram a surgir nas estradas, nas ruas, nos becos e nas esquinas das aldeias, principalmente, mas também de algumas vilas e pequenas cidades. De dia, serviam para "ir para o trabalho", com a mulher e os cachopos pendurados em equilíbrio precário. De noite, serviam, com uma lealdade comovente, dado o habitual estado anímico precário do condutor, os seus donos das deambulações por cafés, bailes, e, mais tarde, discotecas.
A partir do momento, que chegou rápido, em que a sua posse se tornou motivo de honra, a sua produção e venda multiplicou-se. Surgiu a Casal Boss, mas também a SIS Sachs Andorinha, igualmente a Confersil Dina 104, a Macal, a mais mítica de todas, a Famel Zundapp GT25, e ainda a Vilar, a V5 e a Cinal Pachancho, todas elas fabricadas em Portugal, através de licenças das marcas originais. Deverá ser raro o português que não tem uma história com uma destas "motas", nem que seja a de se cruzar com alguma numa estrada improvável. A mesma história económica e social fez com que a partir da década de 90 do século passado entrassem em decadência, graças ao crédito automóvel. Mas continuam a circular em estradas remotas, em paragens afastadas do nosso território. É esta a história que é recordada e contada, com grande poder narrativo, numa exposição da Casa de Design de Matosinhos, comissariada por Emanuel Barbosa.
A "Motos de Portugal" tem várias dimensões que exigem deslocação às terras litorais do Norte. Antes de tudo o mais, é provavelmente a maior concentração alguma vez feita no nosso país de motos desta tipologia, todas elas gloriosas no seu restauro impecável. Depois, Barbosa seguiu as melhores práticas internacionais para mostra deste género, e reuniu um vasto acervo documental, especialmente imagético, que nos permite conhecer e observar os velocípedes dentro do seu contexto cultural, económico e social.

Finalmente, para os investidores no tema, é uma oportunidade de ouro para tomar conhecimento detalhado da oferta existente. De facto, este é um mercado de nicho em Portugal, como o dos automóveis clássicos, mas não menor. Uma Famel, uma V5 ou as suas similares, restauradas com peças de origem, já atingem preços que vão dos 2 aos 5 mil euros. 


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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