Weekend A personalidade do ano é Mário Centeno, o economista que venceu as probabilidades

A personalidade do ano é Mário Centeno, o economista que venceu as probabilidades

O ministro das Finanças Mário Centeno foi eleito a personalidade do ano pela redacção do Negócios.
A personalidade do ano é Mário Centeno,  o economista que venceu as probabilidades
Yves Herman/Reuters
Rui Peres Jorge 22 de dezembro de 2017 às 11:00
'Que ano!', pensará Mário Centeno nestes últimos dias de Dezembro, e com razão.

As primeiras notícias de 2017 não auspiciavam nada de bom. A agenda mediática estava dominada pelos ditos e não ditos quanto às condições de confidencialidade de salários oferecidas a António Domingues, o gestor que o ministro havia escolhido para liderar a Caixa, e que bateu com a porta meses antes dizendo-se traído. A polémica foi tal que o Presidente da República chegou a apoiar a continuação de Centeno no Governo apenas por atender "ao estrito interesse nacional, em termos de estabilidade financeira". Quem diria na altura que hoje estaria nomeado para liderar o poderoso grupo dos ministros das Finanças da Zona Euro.

Este é mais um episódio na história do economista do Banco de Portugal que nos últimos anos bateu várias vezes as baixas probabilidades que o destino lhe concede. Depois de Carlos Costa lhe ter vedado o acesso à liderança do banco central, chegou a coordenador de um grupo de reconhecidos economistas de centro-esquerda que desenharam o programa económico do PS; de seguida, passou de pensador liberal a ministro das Finanças de um executivo apoiado por PCP e Bloco de Esquerda, partidos que nunca tinham apoiado um governo, e que sempre criticaram Centeno pela ideologia de mercado; finalmente, de ministro com pouco jeito político e fragilizado pela CGD salta para líder dos ministros do Eurogrupo que tantas vezes criticou.

Destes sucessos nenhum foi tão debatido como a liderança do Eurogrupo, por muitos considerava inacessível. Marques Mendes, ex-líder do PSD, chegou mesmo a dizer que a hipótese parecia "uma partidinha do dia das mentiras". É verdade que não era fácil antecipar a conjungação de desenvolvimentos que levaram Centeno ao pódio, e que vão do desempenho económico interno ao tabuleiro político europeu, a que se juntou, também, alguma sorte.

Na frente económica, o ano fica marcado pela descida do défice perto de 1% do PIB; pela aceleração do crescimento para o ritmo mais elevado da década e pela descida do desemprego para valores pré-crise; e pela conclusão do processo de estabilização da banca. Tudo isto contribuiu para o fecho do Procedimento dos Défices Excessivos por Bruxelas, e para as subidas de rating que tiraram Portugal do lixo e ajudaram a baixar juros para valores inferiores aos italianos. Se a economia foi decisiva, também não conta tudo. Centeno beneficiou do facto de a direita europeia liderar grande parte dos altos cargos europeus (Comissão Europeia, Parlamento Europeu, e Conselho da UE, por exemplo), dando espaço a um socialista no Eurogrupo, e de muitos políticos na Europa quererem afastar-se da austeridade. Finalmente, alguma sorte: as eleições alemãs e as extensas negociações para um governo de coligação limitaram o apoio que Angela Merkel poderia ter dado a candidatos mais à direita, mesmo entre socialistas.

No fim, para a história fica a nomeação de Centeno, e mais uma vitória sobre as baixas probabilidades, o que aconselha cautela nas previsões sobre o seu futuro.





A sua opinião28
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Anónimo Há 3 semanas

Mágico. Tal como outro "mago financeiro" o era, Salazar. Mas quer com um quer com outro, Portugal consolida firmemente, e a todos os níveis relevantes, a sua posição na cauda da Europa e da própria OCDE.

comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Nos portos da Holanda, essa mesma de Dijsselbloem nascido em Eindhoven que é tão somente um centro mundial de inovação e empreendedorismo bem sucedido assente na grande dinâmica, abertura e flexibilidade do mercado de talento e capital, estão a automatizar todas as áreas e departamentos das instalações portuárias. Os colaboradores excedentários vão ser alvo de rescisão contratual apesar de terem organizado umas greves e contratado uma historiadora portuguesa (De onde haveria de ser?) para criar uns relatórios neoluditas com forte inspiração marxista, para apresentar como argumento reivindicativo à Organização Internacional do Trabalho. https://www.portofrotterdam.com/en/cargo-industry/50-years-of-containers/the-robot-is-coming

Anónimo Há 3 semanas

Jornal de Negócios, atentem num exemplo muito objectivo que nos chega da Escandinávia, onde existe ensino gratuito universal de inegável qualidade e os direitos sindicais adquiridos não se sobrepõem aos dos contribuintes e cidadãos em geral. É 1º Mundo onde não reinam a iniquidade e a insustentabilidade. Despedem excedentários, extinguem postos de trabalho que já não se justificam. A economia é robusta e enriquece, a sociedade é justa e feliz.
"The number of University staff will reduce by approximately 980 by the end of 2017." https://www.helsinki.fi/en/news/the-university-of-helsinki-terminates-570-employees-overall-staff-cuts-total-980
"Aalto University announced on Friday that it will shed a total of 316 positions by the end of 2018." www.helsinkitimes.fi/finland/finland-news/domestic/13754-aalto-university-to-lay-off-188.html
"University of Copenhagen fires 209 staff, 255 leave voluntarily" https://uniavisen.dk/en/university-of-copenhagen-fires-209-staff-255-leave-voluntarily/

Anónimo Há 3 semanas

O Jornal de Negócios, de preferência com recurso a trabalho temporário de talento na área do jornalismo ou a bons jornalistas freelancer, que foque a sua atenção para os bons exemplos que nos chegam das sociedades e economias mais prósperas e avançadas:
Reino Unido, Primeiro Mundo (2015): "Job cuts to shrink civil service to 1940s size" https://www.thetimes.co.uk/article/job-cuts-to-shrink-civil-service-to-1940s-size-5blwv2z6qmd
EUA, Primeiro Mundo (2014): "The Federal Government Now Employs the Fewest People Since 1966" https://blogs.wsj.com/economics/2014/11/07/the-federal-government-now-employs-the-fewest-people-since-1966/
Austrália, Primeiro Mundo (2016): “The intention of this reform is to streamline administration and governance arrangements and consolidate government agencies, bodies, boards and committees,” www.dailytelegraph.com.au/news/nsw/treasurer-gladys-berejiklians-plan-for-public-service-job-cuts-to-streamline-departments/news-story/7c73fcba059e7f8ee8102112c9f63850

Anónimo Há 3 semanas

A Holanda já tem emitido dívida a 10 anos com taxas abaixo de zero % ( http://www.reuters.com/article/eurozone-bonds-netherlands/dutch-10-year-bond-yields-turns-negative-for-first-time-idUSL8N19X16F ). O governo Holandês de Mark Rutte, eleito em 2010, reduziu em 12% o número de colaboradores do sector público holandês num mercado laboral já de si tão flexível. Não o fez por maldade ou mania. O processo está ainda em marcha, como o estará em França e tantos outros lugares no mundo mais evoluído ( http://uk.reuters.com/article/uk-dutch-government-jobs-idUKBRE94M0N520130523 ).

ver mais comentários
pub