Weekend A solidão do poder autoritário

A solidão do poder autoritário

Cinco homens marcaram o século XX na forma solitária e autoritária como conduziram os seus países e os seus povos. Não custa ver, numa Europa estilhaçada dos dias de hoje, sinais semelhantes àqueles que permitiram a estes homens chegar ao poder. A história repete-se. E nem sempre como farsa.
A solidão do poder autoritário
Fernando Sobral 06 de Janeiro de 2017 às 12:00
O poder é solitário. E isso tem reflexos nas sociedades, especialmente se a liberdade e o confronto de ideias não existem. Cinco homens marcaram decisivamente o século XX na forma isolada e autoritária como conduziram os seus países e os seus povos. Todos eles dispensaram a democracia (mesmo que alguns, como Adolf Hitler, tenham chegado ao poder por via eleitoral). Uns tornaram os seus países locais isolados (como Salazar em Portugal), outros transformaram-nos em ditaduras sangrentas (como Estaline, afastando todos os opositores, ou Franco, que chegou ao poder depois de uma fratricida guerra civil) e outros conduziram os seus países ao desastre (Hitler e Mussolini) depois de uma guerra mundial nascida de obsessões nacionalistas e hegemónicas. Jaime Nogueira Pinto, naquela que foi uma das melhores edições em livro de 2016, junta estas figuras cimeiras da política europeia e cruza os seus destinos. É um trabalho estimulante e, nalguns casos, sufocante: porque nos leva a perceber melhor como povos desesperados seguem líderes carismáticos rumo a becos sem saída. Não há aqui lugar para a inocência.

Como escreve o autor, para nos guiar neste labirinto histórico: "Estaline nasceu em 1878, Mussolini em 1883, Hitler e Salazar em 1889, Franco em 1892. Catorze anos separam o mais velho do mais novo. Mussolini, o primeiro a tomar o poder, foi nomeado chefe do Governo em Outubro de 1922, depois da marcha sobre Roma; Estaline, em 1929, já mandava em todas as Rússias e pôde expulsar o 'renegado Trotsky'; Salazar era ministro das Finanças da ditadura nacional em Abril de 1928 e presidente do Conselho em 1932; Hitler foi chanceler do Reich em Janeiro de 1933; e, em Outubro de 1936, catorze anos passados sobre a tomada de poder por Mussolini, Francisco Franco é aclamado pelos generais rebeldes chefe da Espanha nacional. Catorze anos, outra vez, entre o primeiro e o último a alcançar o poder.

Mas, além desta fútil coincidência cronológica e numerológica, há outras semelhanças e outros paralelos no tempo e no modo destes cinco homens fortes que marcaram a Europa do século XX: todos (à excepção do Duce italiano, que amava e respeitava o pai socialista e a mãe católica) são muito ligados às mães e têm más ou frias relações com os pais; todos, uma vez no poder, tratam, antes de tudo, de controlar o instrumento que os levou ao poder, seja o Partido (Mussolini, Estaline, Hitler), o Exército (Salazar), ou as 'forças rebeldes' (Franco). Todos são também grandes leitores, (os que lêem menos são Salazar e Franco) e quase todos cinéfilos." São homens que nascem num contexto histórico muito interessante (a globalização de finais do século XIX até à I Guerra Mundial) e que viveram intensamente a instabilidade das suas repúblicas nas primeiras décadas do século XX. E que tentaram impor a sua ordem (muito pessoal) aos povos que governavam.

Depois há o outro lado, como descreve Jaime Nogueira Pinto: "São homens sozinhos, secretos, que, mesmo quando têm família, ou amantes, ou amigos, marginalizam ou secundarizam os afectos. Até Mussolini, o mais humano dos cinco, é assim. Todos têm grande desprezo pelos bens materiais, embora não dispensem a pompa e a circunstância da vida pública, da qual cuidam até ao mais ínfimo pormenor. Vivem para o poder e só para o poder, que usam para fins ideológicos, que às vezes se confundem com visões utópicas, precipitando-se em apocalipses wagnerianos, para acabarem em purgas e campos de extermínio ou se perderem nos corredores escuros das prisões e dos degredos. Todos querem dobrar a História; os revolucionários, como Estaline, Mussolini e Hitler, para a fazer avançar para um qualquer admirável mundo novo; os conservadores ou reaccionários, como Salazar e Franco, para a tentar parar ou domesticar." Não deixa de ser curioso aquilo que o autor refere: a visão da História é diferente. Uns querem mudá-la para sempre, outros buscam redescobrir os velhos valores que se estão a perder. Por isso, os extremos tocam-se nesta evolução histórica.

Jaime Nogueira Pinto baliza o surgimento de Oliveira Salazar num país descrente com uma I República tumultuosa e um início de Revolução Nacional (nascida em 1926) que continuava a ter problemas de sustentação, fosse económica, fosse ideológica. O autor descreve o tempero onde a Europa era cozinhada: "Na política europeia, a reacção anti-individualista e antiliberal vinha de duas frentes: uma, assinada pelos partidos e movimentos de esquerda radical, preparava a contestação da sociedade burguesa e capitalista para, sobre as suas ruínas, instalar a ditadura do proletariado, seguindo uma matriz de tipo soviético; outra, de direita, seguia uma linha de nacionalismo e de defesa do interesse nacional. Nesta área, como mera contenção das forças radicais de esquerda que ameaçavam a unidade nacional e a ordem social, surgiam as ditaduras e soluções militares, como as dos Balcãs e da Europa Oriental; mas também surgira o fascismo italiano que, além do nacionalismo, do antiliberalismo e do anticomunismo, tinha uma dimensão de justicialismo social. Ao contrário dos sistemas autoritários tradicionalistas ou direitistas, o fascismo apresentava soluções modernizantes e revolucionárias, buscando também um 'homem novo' e retirando o exclusivo da mudança ao liberalismo e ao comunismo."

A II Guerra Mundial iria fazer implodir o fascismo italiano e o nazismo. Pelo contrário, Estaline, vitorioso, continuaria no poder. Salazar e Franco, poupados à guerra, continuaram no poder até à sua morte. Todos eles acabaram por ser determinantes na História da Europa e do mundo. Uns mais do que outros. Mas, ainda hoje, a sua impressão digital está presente nas sociedades que modelaram durante tanto tempo. Não custa ver, numa Europa estilhaçada dos dias de hoje, sinais semelhantes àqueles que permitiram a estes homens governar de forma totalitária os seus países. A História repete-se. E nem sempre como farsa. Este livro oferece-nos excelentes pistas para percebermos uma época. E para, à luz desses tempos, entendermos melhor o que se passa nos nossos dias.




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