Vinhos A viagem das castas continua

A viagem das castas continua

Por causa de um passeio de Joe Berardo a Itália, podemos agora provar um vinho inédito feito na Península de Setúbal, mas com uma casta de origem grega.
Edgardo Pacheco 17 de junho de 2017 às 13:00

Este Greco di Tufo é um vinho que cai na categoria dos Orange Wine e merece prova atenta. Custa 10€


A meio do processo de modernização da viticultura portuguesa - vamos datar isso na segunda metade dos anos 90 -, vários produtores lançaram vinhos varietais (feitos com uma só casta) como estratégia de educação dos consumidores. É certo que, quer em termos de marketing quer em termos financeiros, lhes dava jeito lançar vinhos resultantes de plantações com meia dúzia de anos, mas, em termos práticos, esses produtores estavam de facto a prestar um serviço à comunidade. Estavam a convidar os enófilos a provar e a testar os aromas e sabores de uma Touriga Nacional, de um Aragonês, de uma Trincadeira, de um Sousão ou uma Tinta Francisca, além, claro, de continuarem a apostar em marcas que toda a vida exploraram uma única casta: Arintos, Bagas, Fernão Pires, Alvarinhos e por aí fora.

Se tal estratégia teve uma função didáctica relevante, isso não deve deixar vincado que, com determinadas excepções, o ADN de um vinho português está no lote (várias castas) e não numa única casta engarrafada. Do vinho do Porto ao vinho do Alentejo, a nossa matriz é a mistura de castas porque isso traduz-se em riqueza e complexidade. A casta A dará bons aromas, a B estrutura, a C volume e a D a acidez necessária para que o vinho tenha vida e capacidade de evolução em garrafa. De maneira, por causa da história e da tal complexidade, a generalidade das empresas abandonou o conceito de vinho varietal.

Mas, seja porque não quer ir na corrente, porque tem informação estratégica ao nível dos mercados ou porque precisa de rentabilizar as suas 40 castas em 1.200 hectares de vinha, a Bacalhôa Vinhos decidiu reforçar a aposta em vinhos varietais e, nalguns casos, vinhos com duas castas, os quais serão apresentados aos consumidores integrados na marca Bacalhôa. Como se trata de uma sigla com notoriedade, passaremos, de agora em diante, a ver marca Bacalhôa como "chapéu" para diferentes vinhos varietais e não só.

Eu gosto e aplaudo esta estratégia porque, por mais conhecimento que tenhamos de uma casta, não nos faz mal provarmos, todos os anos, um vinho de determinada variedade. Pelo contrário, educa-nos. E mais. Tendo em conta que no universo da Bacalhôa há várias castas viajantes (tenham elas vindo de Monção, França ou Itália), isso torna a coisa desafiante.

Quer dizer, se eu quiser saber como se comporta um Alvarinho na região de Lisboa, posso contar com a Bacalhôa; se quiser acompanhar todos os seus Chardonnays, é só provar Cova de Ursa ou Catarina, e se quiser provar o melhor Cabernet Sauvigon feito em Portugal (opinião pessoal, claro está), pois não há como fugir àquele que nasce no Palácio da Bacalhôa, capaz de dar calças a muitos cabernets afamados neste mundo.

Assim sendo, e numa empresa com 40 castas, isso já seria matéria-prima em excesso, certo? Errado. Quer dizer, errado quando o dono da empresa se chama Joe Berardo e tem esse defeito de viajar e experimentar novos aromas e sabores.

Há meia dúzia de anos, passeando por Itália, o dono da Bacalhôa provou um Greco di Tufo, branco famoso no Sul do país e feito com uma casta originalmente grega - atente-se no mistério da andança das castas à volta do mundo. E tão fascinado ficou pelo vinho que sugeriu à equipa que plantasse a tal casta. Isso foi feito na vinha das Faias, na Península de Setúbal, pelo que o primeiro vinho português desta casta, de 2016, está aí para os consumidores se pronunciarem à sua vontade.

Por decisão da enóloga Filipa Tomaz da Costa, as uvas foram tratadas à moda antiga. Ou seja, o mosto que foi a fermentar contou com a colaboração das películas, daqui resultando o que modernamente se chama de orange wine. Vinho mais carregado de cor, com notas ligeiramente oxidativas, mas aqui com complexidade, num jogo que nos leva para aromas curiosos de casca de laranja confitada. Na boca, bom corpo e bom equilíbrio entre álcool e acidez.

Quando Portugal precisa de afirmar as suas castas no mundo, faz sentido perguntar por que razão um produtor se lembra de lançar mais uma casta estrangeira. Mas, primeiro, face ao volume da Bacalhôa, o Greco di Tufo é uma gota de vinho. Segundo, faz parte do ADN da empresa explorar muito bem castas estrangeiras. E, terceiro, não menosprezamos as castas portuguesas quando provamos o que vem de fora. Bem pelo contrário. É assim que valorizamos o nosso património. Jamais trocarei um Alvarinho, um Arinto ou um lote de branco do Dão e da Bairrada por um Greco di Tufo. Jamais. Mas a questão é que, por causa de um capricho de Joe Berardo, conheço agora um vinho italiano famoso feito com uma casta grega. No fundo, fiquei menos ignorante. E agradecido. Só isso.





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Anónimo 17.06.2017

Quem faz os melhores vinhos, é o clima, o solo e as castas, e se forem cepa velha e sem enxertia, o resultado é ainda melhor.

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