Weekend Ana Deus: Acho normal gostar do que não é normal

Ana Deus: Acho normal gostar do que não é normal

Ana Deus foi vocalista dos Ban e dos Três Tristes Tigres. Voltou a juntar-se ao “tigre” Alexandre Soares para lançar o grupo Osso Vaidoso. Editaram agora o seu segundo álbum, “Miopia”, um disco cheio de poemas.
Ana Deus: Acho normal gostar do que não é normal
Bruno Simão
Lúcia Crespo 02 de dezembro de 2016 às 15:00
Ana Deus vivia numa espécie de casinha de chocolates cheia de guloseimas. A vocalista dos Três Tristes Tigres cresceu em Santarém numa rua cheia de fabriquetas. Havia a fábrica de gelados, a fábrica de marmelada e a fábrica de amêndoas. E ela comia os gelados, a marmelada e as amêndoas. Era uma terra encantada que a desencantou mais tarde. Ela gostava de ouvir as histórias dos retornados que vinham das terras grandes, das terras onde as pessoas não viviam encostadas umas às outras. Foi viver para o Porto. Um dia, João Loureiro, fundador dos Ban, ouviu-a a cantar no Aniki Bobó e levou-a para o grupo. Depois vieram os Três Tristes Tigres nos seus loucos anos 90. Ana Deus voltou a juntar-se ao "tigre" Alexandre Soares para lançar o grupo de rock alternativo Osso Vaidoso. Editaram agora o segundo álbum, "Miopia", um disco feito com textos de Gastão Cruz, Natália Correia, Jorge Luís Borges, entre outros. Em paralelo, a cantora mantém um duo com Nicolas Tricot no projecto Bruta, inspirado na poesia de autores como Ângelo de Lima, Mário de Sá Carneiro e Sylvia Plath.


Temos muitas dúvidas, muitas inquietações, estamos sempre a mudar de ideias, estamos sempre à procura. O tipo de poemas que escolhemos para o álbum "Miopia" reflecte um bocadinho isso, a dificuldade de viver, parece que as coisas nunca estão certas, parece que nunca estão bem acabadas. O poema "Dentro da Vida", de Gastão Cruz, reflecte bastante essa inadequação e, ao mesmo tempo, o pânico, nós não somos bons nem para viver nem para morrer, estamos num desajuste completo. Não estando no disco, por engano, o poema "Miopia", do Alberto Pimenta, dá título ao CD e fala sobre a dificuldade de ver as coisas ao longe. Só percebemos o dia de hoje quando o dia de hoje é o dia de ontem e, mesmo assim, nem sempre isso acontece.
Sempre li, lia aquilo que calhava. A minha mãe gostava muito de ler e em Santarém, onde morávamos, havia o Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian. Lembro-me de ler "A Desobediência", do Alberto Moravia, adorei. Assim como "A Um Deus Desconhecido", do John Steinbeck. Lia coisas que não percebia. Também lia poemas, mas comecei a ter uma ligação maior à poesia mais tarde, através da Regina Guimarães (autora das canções da banda Três Tristes Tigres), ela escreve maravilhosamente bem.

A minha infância em Santarém foi muito feliz. Eu vivia no meio da cidade, onde havia uma zona verde com dois ou três montes, tínhamos muitos animais e eu corria aquilo tudo com os cães. Na minha rua existiam muitas fabriquetas. Havia uma fábrica de gelados, davam-me gelados. Havia uma fábrica de marmelada, davam-me marmelada. Havia uma fábrica de amêndoas, davam-me amêndoas na Páscoa. Cresci numa espécie de casinha de chocolate cheia de guloseimas.
Tinha 12 anos no 25 de Abril e só depois é que soube muitas coisas do passado, tinha tido familiares presos, eu não sabia. As famílias, às vezes, são muito misteriosas, não contam tudo. Recordo-me da alegria que senti naquele dia porque senti as pessoas alegres. Mas Santarém era uma terra conservadora e fechada, mantinha muitos costumes - Portugal mudou bastante, mas, volta e meia, surpreendo-me com algumas opiniões, ou seja, temos de estar sempre alerta porque as liberdades são adquiridas, mas não estão garantidas - e o meu 25 de Abril foi quando saí de lá e fui para o Porto.
Santarém recebeu retornados e lembro-me de, ao princípio, mesmo as pessoas de esquerda acharem que vinham lá "os que tratavam mal os pretos". Eu adorava os retornados, ia muito a casa deles ouvir as histórias das terras grandes. Tive a noção de que havia países muito grandes e que isso se notava no comportamento das pessoas. Nós vivíamos no "diz que disse", metidos na vida da vizinha, e, de repente, aquelas criaturas eram mais frescas, percebia-se que vinham de sítios onde as pessoas não estavam encostadas umas às outras. E trouxeram-me discos que eu não conhecia, trouxeram-me os Pink Floyd, Frank Zappa, Soft Machine.

O meu pai tocava guitarra e chegou a ter um grupo. Eu tive sempre uma guitarra em casa com um homem a tocar e eu a cantar, foi uma espécie de treino. Depois fui tendo mais experiências, bandas, mas a coisa só se tornou significativa com os Ban. Um dia, já no Porto, o João Loureiro ouviu-me numa performance, eu estava a cantar à capela com uma menina a fritar bacalhau - ela era alemã, estava fascinada com as mil e uma maneiras de fazer bacalhau, então resolveu montar uma tenda no meio do Aniki Bobó, com um fogareiro, e queria alguém que cantasse coisas sobre o mar. Eu cosi uma espécie de fadunchos, o João Loureiro estava lá, ouviu e foi assim. Ensaiávamos numa fábrica desactivada e, passado pouco tempo, fomos para estúdio. Gostei de fazer o "Surrealizar", mas não me identificava muito nem com as pessoas nem com a música, gosto mais de rock. E aquilo era muito organizado e limpinho.
Os Três Tristes Tigres acabaram por ser uma "insistência" da Regina Guimarães. Ela fazia filmes com o seu companheiro e precisava de uma pessoa que cantasse. Alguém lhe falou de mim, lá fui eu, gostei muito dela, demo-nos muito bem, fizemos mais uns trabalhos e depois vieram os Três Tristes Tigres. Foram tempos giros, muita festa, muito esquecimento.
Nos anos 90, havia muito menos gente a fazer música, era mais fácil, as editoras apostavam nos artistas. Por outro lado, o processo era-nos mais distante. Bem ou mal, fui eu que fiz a capa deste CD. O vídeo, fui eu que o fiz. Hoje, quem tem de andar a vender os concertos, bem ou mal, sou eu. De alguma forma, sendo mais difícil, o produto acaba por ser mais coerente, mais artístico. Gosto mais das coisas feitas assim, gosto de ter mão nas coisas.

Hoje, consigo viver da música porque tem de ser. É engraçado, eu não vivia da música e vivia melhor, vivia de um negócio familiar, da família do pai dos meus filhos - tenho três filhos, o mais velho com 26 anos e os gémeos com 21. Só que, com a crise, a única que ficou com "emprego" fui eu, sendo que este é um "emprego" de inventar. Claro, passei a inventar mais. Em vez de uma banda, tenho duas. Além do Osso Vaidoso, tenho o projecto Bruta, um duo com Nicolas Tricot. Começámos um trabalho com poesia de pessoas internadas em hospícios ou com problemas mentais. Quis descobrir beleza naquilo que, muitas vezes, é desconsiderado.
Parti para a procura de uma poesia bruta a partir do meu gosto por arte bruta plástica. Gosto muito dos artistas brutos, que fogem um bocadinho aos cânones. Tenho um fascínio pelo Adolf Wölfli, pelo Carlo Zinelli, pelo Henry Darger - aquele homem não falava com ninguém, vivia no seu cubículo e só depois de ele morrer é que se descobriram uns calhamaços com uma história ilustrada maravilhosa que agora vale milhões. Ele tinha uma criação gigantesca dentro das quatro paredes onde vivia.
Eu gostava tanto de arte bruta que acabei por tentar perceber se existe uma poesia da arte bruta, ainda não tenho a certeza de que exista. Mas foi a partir do Ângelo de Lima que parti para o projecto Bruta. Descobri-o no "Reconhecimento à Loucura", do Almada Negreiros. De repente, o Almada diz: "Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?" Fui ver quem era o Ângelo de Lima e descobri o poema "Pára-me de Repente o Pensamento". Fiquei fascinada! Depois é que soube que ele tinha passado quase toda a sua vida internado. Além daquela escrita muito bonita, ele também inventava palavras, o que fez com que os poetas da Orpheu o tivessem editado. Quem diria que ele era louco? Para mim, não era. Para mim, ele é um poeta maravilhoso.
Acho que é normal gostar do que não é normal, é uma necessidade, um fascínio, não sei. Fui educada por uma mulher que também gostava daquilo que não era normal. Em Santarém, as pessoas de quem nós mais gostávamos eram aquelas que eram consideradas, de alguma forma, um bocadinho diferentes: era o homossexual da cidade, o Clementino, era a Teodora, uma mulata. A minha mãe tinha um grande carinho por todas as pessoas "raras" e acho que herdei isso dela. Sim, acho normal preferir o que não é normal.





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