Weekend Anabela Mota Ribeiro: Escrevemos para nos ouvirmos

Anabela Mota Ribeiro: Escrevemos para nos ouvirmos

As palavras dos outros ganharam asas com as suas interrogações. Agora inverteram-se os papéis e vestiu a pele de entrevistada para falar de escrita, livros e literatura. Anabela Mota Ribeiro assina em conjunto com José Eduardo Agualusa a programação paralela da Feira do Livro do Porto, que se realiza em Setembro.
Anabela Mota Ribeiro: Escrevemos para nos ouvirmos
Miguel Baltazar
Escrevemos para nos ouvirmos. Entre 2006 e 2016, Anabela Mota Ribeiro ocupou este espaço do Weekend na qualidade de entrevistadora. As palavras dos outros ganharam asas com as suas interrogações. Agora inverteram-se os papéis e vestiu a pele de entrevistada para falar de escrita, livros e literatura. Este ano publicou o livro "A Flor Amarela - Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis" e em conjunto com José Eduardo Agualusa assina a programação paralela da Feira do Livro do Porto, que se realiza em Setembro.


Entrevistar é escarafunchar as pessoas?

Não gosto muito da palavra escarafunchar, não soa muito bem e remete para um lado físico ou pestilento. Por acaso, raramente uso a palavra escarafunchar, mas acho que é mesmo uma questão fonética e depois aponta para outros lugares de que gosto menos. Entrevistar é escutar o outro. Escutar com atenção, com tempo e com disponibilidade para integrar o que o outro está de facto a dizer. No meu caso, diria que é uma coisa fácil porque estou, de facto, interessada naquela pessoa ou naquele assunto.

 

Entrevista pessoas variadas, empresários, escritores, arquitectos… Presumo que seja diferente entrevistar cada uma destas categorias.

Acho que o que interessa é a diversidade. Se for alguém monocórdico, é mais chato. Sendo um empresário ou sendo um escritor, se for chato é chato. Mas tento não ter essa visão reducionista de que os empresários são chatarrões e apenas se interessam por aquele tipo de assuntos que nós imaginamos que são aqueles que lhes interessam e que os escritores são todos pessoas interessantíssimas e que têm um mundo muito rico e fantasista. A verdade é que há de tudo e interessa-me muito a diversidade. O que me interessa mais do que tudo é a diversidade do ser humano. Portanto, antes de os ver como o escritor, o empresário, o jornalista, o arquitecto, penso quem é esta pessoa.

 

Qual foi o escritor que lhe deu mais prazer ou a surpreendeu durante uma entrevista?

A Agustina Bessa-Luís, talvez. Porque ela era muito desconcertante. Prodigiosamente inteligente. Mas dizia as coisas com uma naturalidade… integrava elementos muito diversos, convocava mitologia e logo a seguir a costureira que fazia uns bordados extraordinários na Areosa. Sei lá, estou a inventar. Mas integrava todos estes elementos com uma naturalidade imensa.

 

Está a falar de uma pessoa que pôs um anúncio no jornal à procura de marido porque não tinha tempo para essa tarefa.

Exactamente. E casou com um que respondeu. Mas há uma dela que adoro, que é a de dizer que tinha um fascínio pelo Orson Welles e só não casava com ele porque ele já era casado. A Agustina era – eu digo era porque não dá entrevistas agora e está retirada – muito desconcertante. Fiz duas entrevistas ao [José] Saramago de que gosto muito também. A primeira foi mais difícil, ele era um homem mais reservado e que podia ser seco, era muito contundente, e depois de repente tornava-se macio e oferecia-se à conversa. E podia sorrir. Na segunda entrevista, já o conhecia bem e portanto toda a entrevista foi mais dada. Também aconteceu que essa segunda entrevista foi a seguir à "Viagem do Elefante", depois de ele ter estado muito doente.

 

Tenho a ideia de que a "Viagem do Elefante" é o livro mais ternurento dele.

Também acho que é um livro mais solar, um livro de ternura, sim, é uma boa palavra.

 

Os escritores são bons conversadores?

Nem sempre. Acho que a escrita talvez seja uma longa conversa consigo mesmo. E silenciosa. E há pessoas que têm o dom da palavra e depois não são grandes conversadores. Agora lembro-me de um, que não é português, e é fácil dizer isto – o Chico Buarque, que é um artífice da palavra, como toda gente reconhece, não só nos livros mas também e sobretudo nas canções, é um poeta extraordinário a meus olhos, e vemo-lo a falar naquela colecção de vídeos e não é muito articulado, deixa as frases a meio, não tem um discurso sedutor.

 

A escrita é o muro que se constrói para uma pessoa não se mostrar aos outros.

Eu gosto dessa imagem da conversa silenciosa consigo mesmo. Imagino que a escrita seja isso. De uma maneira diferente, nós, jornalistas, quando estamos a escrever estamos também a dialogar com aquela matéria, mesmo que sejam as palavras de outros.

 

Mas também escreve livros. Para si a escrita é o quê?

Acho que é uma forma de pensar, de pensar com palavras. O Siza [Álvaro Siza Vieira] pensa desenhando. Achei isso muito bonito quando o entrevistei uma vez e ele disse que pensava a desenhar. Penso que é importante que cada um perceba quais são as suas ferramentas e os seus caminhos. É um exercício de autoconhecimento importante. Acho que penso melhor com palavras, penso melhor se for em silêncio e comigo. Há pessoas que pensam a falar, que pensam na argumentação, na disputa. Não é o meu caso. Prefiro esse movimento silencioso que é a escrita. E também prefiro a conversa de um para um, talvez por isso me sinta também tão confortável nas entrevistas. Modero muitos debates, participo em conversas com muitas pessoas, mas na verdade o dispositivo que me é mais confortável e onde acho que funciono melhor é aquele em que estamos, como agora, olhos nos olhos, um para a um.

 

Quando escreve, tem prazer, sofre? Quais são os sentimentos que a dominam quando escreve?

Não sei se sofro. Tenho sobretudo o espanto de pensar como é que fui dar a esta palavra, a esta ideia, a esta frase. Quando comecei este texto não sabia que ia desembocar ali. E isso é uma revelação, um espanto. É vermos uma matéria a ganhar vida própria e isso acontecer em nós, mas quase independente de nós. É uma coisa esquisita. É esse o sentimento que me domina, o do espanto, daquilo ir ganhando autonomia, corpo próprio.

Mas é sempre uma parte sua que lá está.

Claro, absolutamente. A escrita é sempre uma auto e hetero biografia. Claro que não é uma biografia directa e claro que ficcionamos imenso e claro que incorporamos elementos que nos são externos, mas somos sempre nós os condutores daquela música.

 

Relaciono-me muito com as coisas que estou a ler, com as pessoas que estou a entrevistar. Serve-me sempre para um exercício de interpelação. 

 

Feita com os materiais da nossa memória.

É. Mas quando dizia que aquilo ganha um corpo próprio e que é espantoso perceber como é que fomos dar àquele lado, assim como se isso funcionasse autonomamente, eu acho que quer dizer que temos muita coisa de que não somos conscientes, muitos sedimentos. E é espantoso como eles, depois, se revelam, emergem.

 

Nesse sentido a escrita também é catártica.

Acho que sim.

 

Lembra-se do primeiro livro que leu?

Não sei dizer o primeiro livro, mas sei dizer o primeiro que me impressionou muito e que foi o "Diário de Anne Frank", que li quando tinha uns 12 anos. Aprendi a ler muito miúda, porque fui para a escola com cinco anos, sem estar matriculada, porque o meu irmão é um ano mais velho e eu queria ir para a escola também e a professora era amiga da minha mãe e deixou-me ir. Foi uma coisa importante. Durante muitos anos esqueci isso e depois pensei que talvez isto tivesse importância porque tive um contacto cedo com as palavras e, sobretudo, tive um contacto muito sustentado, porque na verdade fiz a primeira classe duas vezes. Foi uma aprendizagem muito segura. Portanto, comecei a ler e a escrever cedo, com prazer e facilidade. E sempre gostei das redacções, sempre gostei de ler, sempre fui uma aluna boa ou muito boa, mas nunca fui uma aluna excepcional. Do que li nos anos da primária não guardo assim uma memória impactante, mas lembro do "Diário de Anne Frank" e da força que aquilo teve. Depois lembro-me de ter lido o livro com a minha irmã que é 20 anos mais nova do que eu e lembro-me de ter visitado com a minha sobrinha, há dois ou três anos, o anexo em Amesterdão em que ela escreveu, e portanto de ter voltado sempre àquele espaço onde se passou o pior da humanidade, mas onde está também o melhor da humanidade, porque a Anne Frank representa esse melhor da humanidade em que podemos pensar quando tudo parece perdido. Para ela a escrita foi um instrumento de sobrevivência, talvez catártico também, mas foi sobretudo uma expressão de identidade e uma expressão de vida. Estava à procura de outra palavra… A palavra que me estava a ocorrer era ímpeto. E é uma palavra na qual penso muito porque na minha dissertação de mestrado estudei um livro de Machado de Assis que se chama "Memórias Póstumas de Brás Cubas". E aquilo que estudei foi a flor da melancolia e o ímpeto cesariano, que são expressões usadas pelo Machado de Assis. E o que vem a ser este ímpeto cesariano? Tem que ver com esse desejo de fazermos vida e prolongarmos o nosso nome. Tem que ver com uma preocupação com a posteridade, com a maneira como os nossos filhos ou a nossa obra continuarão a dizer o nosso nome. E cesariano tem que ver com o imperador César. O que acontece com o Brás Cubas, a personagem do Machado de Assis, é que ele afirmou o seu ímpeto cesariano na escrita das memórias. Portanto, ele teve uma vida falhada, porque não casou, não teve filhos, não teve descendência, não teve profissão, não conseguiu um lugar no Senado, não conheceu a glória, todas as coisas que ele perseguiu em vida, e depois paradoxalmente tudo aquilo que ele procurou e não conseguiu obteve-o depois de morto neste exercício excêntrico e impossível de escrever as memórias depois de morto. Esse é um dos pontos que defendo na minha dissertação, o de que o ímpeto do Brás Cubas se exprimiu na escrita. Isto vem a propósito da Anne Frank e de também para ela a expressão de vida acontecer por via da escrita. Portanto, a escrita talvez seja também uma forma de sentirmos o ímpeto.

 

De tentar guardar um lugar na posteridade.

Mais modestamente, acho que escrevemos para aqueles que são os nossos contemporâneos. Não se escreve a pensar na posteridade do Camões, a não ser quando se é um grande escritor e a partir de determinada altura já se percebeu que se vai constar. E aí já toda a informação começa a ser organizada e a pose começa a ser feita a pensar nessa posteridade. Mas eu diria que escrevemos para nos ouvirmos, auscultarmo-nos e também para dialogar com os outros. E os outros são os nossos pares, aqueles que são os nossos contemporâneos. Mas a memória é que é a questão, como é que tu vais recordar o meu nome, como é que o vais dizer. E isto é uma coisa muito profunda porque nós, seres humanos, somos identidade e memória.

 

Poesia ou prosa?

Eu sou mais da prosa. Leio muita poesia, mas sou mais da prosa e não escrevo poesia.

 

A pergunta de algibeira. Se tivesse de optar por cinco livros quais escolheria para levar para uma ilha deserta?

O "Diário de Anne Frank" escolhia seguramente. As "Memórias Póstumas de Brás Cubas" também escolheria seguramente. E se calhar levava vários exemplares das "Memórias Póstumas de Brás Cubas". E passo a explicar porquê. Eu li o livro muitas vezes e escrevo muito nas margens, a caneta.

 

Escreve nos livros?

Tudo. É como se fosse um caderno. A dada altura as páginas já estão muito consumidas e então preciso de mudar para outro exemplar, para que a minha nova leitura seja menos sugestionada. E trabalho sempre sobre a mesma edição porque aí já sei onde fica cada coisa. Mas se levasse várias edições das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", acho que quase que poderia dizer que essa edição corresponde a uma determinada fase da minha relação com o livro. São diferentes graus de intimidade. E isso é muito engraçado também, quando nós pegamos no mesmo livro e percebemos como nós vamos sendo outros e como o livro vai sendo outro para nós.

 

Vai-se sempre descobrindo coisas novas consoante os momentos da nossa vida.

Exactamente. Nós vamos sendo pessoas diferentes e vamos lendo e, de repente, encontrando ali uns tesouros que antes não tínhamos visto. E dizemos: mas como é que pude não ter visto isto! Mas este capítulo é fundamental, como é me pode ter escapado? Ou então há frases que já sabemos de cor e já não as lemos, já as temos integradas. Mas é engraçado percebermos isso. Isto da Anne Frank, eu li aos 12 anos, depois li aos 32 de novo e aí li com a minha irmã ao telefone. Claro que era outra pessoa aos 32. Claro que tinha outras ferramentas para ler a Anne Frank que não podia ter quando tinha 12 anos. E ainda tive uma outra compreensão do livro quando fui ao espaço físico onde aquilo se passou. Foi como se lesse o livro de uma outra maneira, de um ponto de vista físico. Eu não tinha tido noção, até visitar o espaço, de como aquilo era esporo. E, portanto, na minha memória, estavam sobretudo as relações tortuosas daquelas duas famílias que viviam no anexo, estava a exiguidade do espaço, mas mesmo assim ainda era mais pequeno do que imaginava que era, mas nunca tinha prestado atenção à luz, por exemplo.

 

A literatura é luz no meio da escuridão?

Acho que pode servir para alumiar caminho. Não é sempre e não é para todas as pessoas.

 

Ler, para si, significa o quê?

Eu relaciono-me muito com as coisas que estou a ler, com as pessoas que estou a entrevistar. Além do mais aquilo serve-me sempre para um exercício de interpelação. Afasto-me e aproximo-me, interrogo-me, projecto-me, reconheço-me, não me reconheço, há sempre esse jogo elástico que a leitura permite. E ler para mim é isso. Serve mais do que tudo para aprender. Essa é que é a palavra fundamental.

 

Escritores portugueses ou estrangeiros?

Tudo. Eu como estou há uns anos a estudar o Machado de Assis e continuo porque no doutoramento tenho neste momento uma intimidade maior com a língua portuguesa e autores que de repente são convocados pelo Machado de Assis. Mas o Machado de Assis, por exemplo, está sempre a citar o Shakespeare. E, portanto, lá vou eu ler o Shakespeare a partir do Machado de Assis. Isso é outra coisa de que não falámos mas acho interessante, que são as relações e as portas que se abrem. E ler também serve para isso. Para ir dar a lugares que são novos para nós. Assim como o processo da escrita, autonomamente, nos leva a lugares que não suspeitávamos, que nós não sabíamos que tínhamos aquele mundo escondido, a leitura também nos faz ir a lugares que não são os nossos. Voltando ao Machado de Assis, ele fala do "Tristram Shandy" do Laurence Stern logo no início das "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Eu não o tinha lido. Se não fosse aquela porta que se abriu daquela maneira eu não teria ido lá.

 

Nós temos uma ideia errada de que precisamos de muitas coisas, de muitos objectos. Na verdade, precisamos de poucas coisas.

 

Alguma vez roubou um livro?

Sim, sim. Roubei um livro numa biblioteca da Gulbenkian quando era muito pequena, porque era um livro muito pequeno, tinha assim mais ou menos o tamanho de um missal e era tão bonito que eu não resisti e roubei. É uma coisa muito feia, claro.

 

Lembra-se de que livro era?

Não. Acho que o roubei porque era tão bonito que era irresistível.

 

Ainda o tem consigo?

Não, eu não guardo nada, desfaço-me de tudo.

 

Dos livros também?

Na maior. Não consigo ter um sentimento de posse.

 

Compra livros, o que faz com eles? É capaz de os dar ou emprestar?

Sou capaz de os dar, emprestar, de dar os livros com todas as minhas anotações. Não tenho um sentimento de posse em relação a nenhum objecto. Ao contrário, acho muita graça à ideia de que isto que foi meu, me pertenceu, me fez companhia, me fez dar passos, vá para outra morada, ocupar um papel distinto e provocar outras coisas a outra pessoa. E se esta pessoa der a outra pessoa acho isso ainda mais extraordinário. Gosto desta ideia de cadeia.

 

Gosta de escrever à mão?

Sim, mas só para tomar notas. A ideia que tenho é, se vier um dilúvio ou um incêndio, isto vai tudo. Portanto, é preciso ter esse desprendimento e essa liberdade de recomeçar de novo.

 

Escrever é começar de novo?

Claro que sim. Nós temos, a meu ver, uma ideia muito errada de que precisamos de muita coisa, de muitos objectos, e não passamos sem aquilo. Na verdade, nós precisamos de muito pouca coisa e quando nós precisamos absolutamente de um objecto, normalmente e sem grande esforço, conseguimo-lo.

 

Visita as feiras do livro?

Sim. Aproveito para comprar em saldos, sou um bocado fona, portanto… Gosto de comprar coisas para mim e para dar, mas também tenho a sorte de receber muitos livros em casa que os escritores e as editoras me mandam. Por isso, normalmente aquilo que procuro nas feiras dos livros são as oportunidades. Um livro de que gostei e quero dar a alguém, um livro que já tive e que dei e não me importava de ter outra vez e como está a bom preço compro. É mais ou menos assim.



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mais votado IS Há 3 semanas

Relativamente à frase em destaque penso que as pessoas não escrevem para si próprias. Quando alguém escreve e publica importar-se-à sempre minimamente com a opinião de quem lê.

comentários mais recentes
IS Há 3 semanas

Relativamente à frase em destaque penso que as pessoas não escrevem para si próprias. Quando alguém escreve e publica importar-se-à sempre minimamente com a opinião de quem lê.

ricky Há 3 semanas

Saudades de a ver na tv ...

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