Weekend André Amálio: O 25 de Abril descolonizou os territórios, mas não descolonizou o pensamento

André Amálio: O 25 de Abril descolonizou os territórios, mas não descolonizou o pensamento

O actor e encenador André Amálio leva ao Armazém 22, no Porto, o espectáculo “Libertação”, a última peça de uma trilogia sobre colonialismo português. Com o seu teatro documental, o actor quer “reescrever” a história que está nos livros da escola.
André Amálio: O 25 de Abril descolonizou os territórios, mas não descolonizou o pensamento
Miguel Baltazar
Lúcia Crespo 20 de outubro de 2017 às 14:00
Moçambique fazia parte da casa de André Amálio, mas não as palavras descolonização ou colonização. O pai foi polícia de segurança pública naquele território. A mãe tinha sido freira. Conheceram-se mais tarde em Lisboa, a mãe deixou a sua opção de vida e André nasceu à entrada dos anos 80. Quando estava a estudar teatro em Londres, o actor e encenador português foi desafiado com perguntas sobre o passado colonial português. Inquieto, começou a desconstruir a história dos livros da escola. Transformou a sua herança numa tese de doutoramento e num ciclo de teatro documental, levado à cena pela companhia Hotel Europa, fundada pelo próprio e pela coreógrafa checa Tereza Havlickova. Juntos, criaram uma trilogia que começou com o espectáculo "Portugal Não é Um País Pequeno", continuou com "Passa-Porte" e culmina com "Libertação", que está este fim-de-semana no Armazém 22, no Porto. Depois, o passado continuará a ser reescrito por André Amálio, com um projecto chamado Amores Pós-Coloniais.


Os meus pais viveram em Moçambique quando ainda eram solteiros. Eles não se conheciam e estavam em localidades diferentes. O meu pai era polícia de segurança pública e a minha mãe era freira, ensinava as crianças a ler, a escrever, a cantar. É curioso, o meu pai fazia cumprir a lei do Estado Novo e a minha mãe foi integrada naquela ideia de colonizar, civilizar e catolicizar. Regressaram a Portugal uns anos antes do 25 de Abril, conheceram-se em Lisboa e a minha mãe deixou de ser freira.

Sempre soube que os meus pais tinham estado em Moçambique, eles falavam disso, mas não falavam sobre colonização ou descolonização. Só mais tarde, quando estava em Londres a fazer um mestrado em Criação na Goldsmiths University, é que comecei realmente a ser confrontado com o passado colonial português. Várias pessoas questionavam-me sobre esse período da nossa História. Até então, aceitava aquela narrativa normal de que os portugueses tinham sido os bons colonizadores.

Quando comecei o meu doutoramento sobre teatro documental, na University of Roehampton, decidi focar-me neste período histórico e, com o decorrer da investigação, descobri a forma estética de trabalhar o tema. O primeiro espectáculo da trilogia chama-se "Portugal Não é Um País Pequeno" e parte de testemunhos dos antigos colonos e das experiências dos retornados. Contactei com muitas histórias, histórias de partidas, histórias de pessoas que saíram do país na mais completa miséria, iam em beliches, nos porões dos barcos.

Salazar abriu as portas das colónias a partir dos anos 50, numa altura em que toda a África estava a descolonizar-se. Portugal acabou por ser um colonizador tardio. O regime queria provar que os portugueses estavam ali enraizadíssimos e que Portugal não era um país pequeno. Havia no discurso político uma descrição de um certo paraíso colonial, e eu quis desmontar tudo isso.

Muitas pessoas que entrevistámos descreviam-se como apolíticas e diziam ter sido apanhadas de surpresa pelo 25 de Abril e pelo processo de independências. E eu perguntava: mas como foi possível, não havia uma guerra? Como é que foi uma surpresa tão grande? Para muitas pessoas, a guerra era uma coisa distante, feita pelos terroristas e apoiada pelos comunistas. Ou feita pelos estrangeiros que queriam tirar as terras portuguesas aos portugueses.

Nos espectáculos, faço uma desconstrução do discurso do Estado Novo e vou introduzindo uma visão autobiográfica. Começo o "Libertação" precisamente com o meu pai. Queria saber se ele foi cúmplice, se ele participou ou se testemunhou alguns actos de violência. Tenho todas estas perguntas para lhe fazer, mas o meu pai faleceu antes de eu começar este trabalho. É também da vontade de querer saber sobre esse seu passado que nasceu esta trilogia.

Passei quatro anos a recolher entrevistas para este ciclo, falei com noventa e tal pessoas, muitas directamente relacionadas com este período histórico, outras são da minha geração, da geração pós-memória. Que memória colonial lhes foi transmitida e o que é que ficou dela? Esta é uma dimensão retratada pela minha própria vida, mas também pela vida de outras pessoas que estão comigo em palco, como a Lucília Raimundo e o Nelson Makossa, que começaram por ser meus entrevistados. Depois de ouvir a história deles, convidei-os para integrar este projecto.

A mãe do Nelson veio de Angola no início da guerra civil, teve de fugir porque havia alguém da família que apoiava a UNITA. Foi viver para uma pequena aldeia do Ribatejo e, durante um baile da terra, o pai do Nelson foi desafiado pelos amigos para ir "dançar com a preta". Ele foi "dançar com a preta" e apaixonou-se por ela. O Nelson foi criado ali na aldeia, ia ouvindo as histórias da mãe e da avó, sentiu necessidade de descobrir mais sobre essas suas origens e fê-lo através da música. Encontrou na música a forma de conhecer a sua identidade africana. Hoje, é um DJ especializado em música africana dos anos 60, 70 e tem um grupo - os Irmãos Makossa.

A Lucília tem uma história diferente. Fugiu do Moçambique independente. Ela vem de uma família de assimilados que não estava a adaptar-se ao regime comunista de Samora Machel e temia ser enviada para centros de reeducação. A Lucília tinha um passaporte moçambicano, mas na verdade queria um passaporte português. E não gostava que as pessoas lhe fizessem perguntas sobre África, não queria que começassem a falar crioulo com ela, ela não fala crioulo, ela fala português.

Durante a minha investigação, fiquei surpreendido com aquilo que acho que foi a conduta ética dos movimentos de libertação durante o desenrolar da guerra. Não estou a falar do início do conflito. Estes movimentos perceberam que, para terem reconhecimento internacional, teriam de fazer uma guerra limpa. Atacaram sobretudo o exército português e os seus aquartelamentos. Já o exército português atacou aldeias, matou mulheres e crianças, destruiu culturas inteiras. Também fiquei impressionado com o discurso de Amílcar Cabral e o impacto que teve junto dos soldados portugueses na Guiné, no sentido de dizer: não estamos a lutar contra o povo português, estamos a lutar contra o colonialismo português e lamentamos as mortes que estamos a causar aos soldados portugueses, que são vítimas desta guerra que não faz sentido. É uma visão lúcida que distancia aquilo que era o governo colonialista e o que era o povo português.

Neste processo, foi para mim muito difícil ouvir uma pessoa contar-me que cometeu massacres. Essa pessoa veio de África doente, mas não deu o passo de condenar a guerra. Por um lado, compreendo a sua atitude, como é que condenamos uma coisa quando andámos a matar em nome dela? Seria um passo enorme, gigante. Ainda não apontámos o dedo para dizer que aquilo que se passou foi um crime de guerra. Deveríamos ser capazes de o fazer. Numa guerra, não vale tudo. Quem pensou, quem ordenou e quem executou devia ter sido, pelo menos, julgado.

As pessoas que mataram indiscriminadamente em nome do nazismo também cumpriam ordens, também estavam num sistema de propaganda que lhes incutia a ideia de que estavam a fazer o que era correcto. Obviamente, colonialismo e nazismo não são a mesma coisa, mas é muito mais fácil olhar para uma coisa que está fora de nós e dizer, por exemplo, que os julgamentos de Nuremberga foram importantes. Dar esse passo em casa é muito complicado, trata-se da nossa família, mas deveríamos falar mais, porque continuamos a fingir que "isto" não aconteceu.

Quando António Lobo Antunes queria falar da guerra, ninguém queria ouvi-lo - mas por que camandro ninguém fala disto? Isto não existiu? Agora já existe um público que quer saber. Há um movimento que começou nas universidades, atravessou as artes e chegou à sociedade civil, mas o debate ainda não passou para as altas instâncias. Habituámo-nos a mitificar e a santificar a nossa História e ainda encontramos a lógica luso-tropicalista do Estado Novo no discurso dos nossos representantes oficiais.

O 25 de Abril descolonizou os territórios, mas não descolonizou o pensamento português. O meu trabalho insere-se precisamente num movimento internacional que exige a descolonização dos livros de História. E escolho o teatro documental porque acho que é uma forma de trabalhar politicamente e tentar contribuir para uma descolonização que, realmente, ainda não aconteceu.





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