Weekend André Barros: Vou descobrindo o piano, vou errando, até me soar bem

André Barros: Vou descobrindo o piano, vou errando, até me soar bem

Compositor autodidacta, André Barros estagiou no estúdio dos Sigur Rós, na Islândia, e criou bandas sonoras de filmes como “The Left Behind” e “Our Father”, premiado no Los Angeles Independent Film Festival Awards. Lançou recentemente o álbum “In Between”.
André Barros: Vou descobrindo o piano, vou errando, até me soar bem
Miguel Baltazar
Lúcia Crespo 06 de Janeiro de 2017 às 14:00
Ele queria ser piloto e astronauta. Estudou Direito, trabalhou como jurista, é músico. André Barros sempre gostou de bandas sonoras e ficou apaixonado pela obra de Yann Tiersen no filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". Quis reproduzir os sons que escutara e construiu uma espécie de piano de papel, onde repetia e voltava a repetir os movimentos com os dedos sobre as teclas improvisadas. Um dia, tocou num piano a sério. E não parou. Compositor autodidacta, André Barros tem 32 anos, nasceu na Marinha Grande, estudou em Lisboa, tirou um curso de produção de música, estagiou no estúdio dos Sigur Rós, na Islândia. Criou bandas sonoras para filmes como "The Left Behind", de Oliver Salk, e "Our Father", uma curta-metragem de Linda Palmer premiada no Los Angeles Independent Film Festival Awards. Depois dos álbuns "Circustances" e "Soundtracks vol.1", o músico lançou recentemente "In Between", com a participação de Rodrigo Leão e da cantautora islandesa Myrra Rós.


Quando eu era mais pequeno, ouvia música como os outros miúdos, mas sempre gostei mais de bandas sonoras, sobretudo do lado instrumental e orquestral. Eu e o meu irmão alugávamos, em média, dois filmes por dia. Lembro-me de ter ficado fascinado com a música do "Braveheart", do James Horner, e do "Twin Peaks", do Angelo Badalamenti, mas o filme que me levou a querer tocar piano foi "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". A banda sonora, do Yann Tiersen, é lindíssima e as músicas são relativamente simples. Como não tinha piano, desenhei umas teclas no computador, imprimi-as e, através de um programa que me permitia saber quais eram as teclas pressionadas, praticava esses movimentos repetitivos com os dedos. Um dia, fui a casa de uma amiga que tinha um piano. Toquei e aquilo saiu-me bem. Fiquei incrédulo e apaixonado. Comprei um piano digital e comecei a compor de ouvido. Sempre encarei a música como algo irracional. Quando me sento ao piano, não penso em acordes, não penso em nada. Quem estuda composição, geralmente, faz música a pensar na parte teórica, até há compositores que compõem com fórmulas, a música é matemática. Não pensar em qualquer teoria é, para mim, fascinante. Cheguei a ter aulas de piano e desisti pouco tempo depois. Não leio partituras, e não quero, sei que parece presunçoso, mas não é, de todo. É com o intuito oposto. Ou seja, eu tenho é imenso prazer em trabalhar desta forma, em sentar-me e não pensar em absolutamente nada. Vou descobrindo o piano, vou errando, até me soar bem. Se começo a racionalizar, perco a paixão e afasto-me da música.

Quando comecei a tocar piano, já estava a estudar Direito na Universidade Clássica e, depois de acabar o curso, fui trabalhar como jurista na sede da Caixa Geral de Depósitos, onde analisava processos de crédito habitação. Foi um trabalho curioso, mas enfadonho e, como não me permitia dedicar à música da forma que eu queria, sentia-me frustrado. Saí da Caixa e decidi tirar o curso de produção e criação musical na ETIC. No final, já conseguia autoproduzir os meus temas e fui estagiar para a Islândia, no Sundlaugin Studio, o estúdio de gravação dos Sigur Rós. Sou fascinado por eles desde que os ouvi, pela primeira vez, no filme "Vanilla Sky". Eles reúnem tudo, o rock, o clássico, o minimalismo e exploram todo o tipo de instrumentos. Fazem parte do tal post-rock e são muito melódicos. Fiquei no estúdio deles durante três meses como assistente técnico de som, mas também fazia os cafés para os artistas. Só no final do estágio é que pude tomar as rédeas da mesa de mistura, e apenas por momentos.
Viver na Islândia foi extraordinário, adoro aquela língua, os "géisers", a aurora boreal, os glaciares, as gentes. Aos fins-de-semana, os islandeses são completamente "malucos", fazem festas no meio da rua, exposições, teatro. Todas as pessoas têm uma actividade artística, têm muito orgulho na sua cultura e querem mostrá-la, e isso é fascinante. Nós, em Portugal, não temos esse orgulho de identidade tão vincado e, se calhar, até teríamos mais razões para tal acontecer.

No final desse Verão de 2012, regressei a Portugal e comecei a gravar alguns temas. O Hugo Ferreira, da Omnichord Records, de Leiria, ouviu, gostou e contactou-me. Reunimos e editámos, no ano a seguir, o "Circustances". Fiz também a minha primeira banda sonora, para a curta-metragem "Wounds of Waziristan", da realizadora Madiha Tahir. Waziristan, no Noroeste do Paquistão, é uma zona montanhosa fustigada com bombas que visam atingir rebeldes que se escondem por ali, mas que fazem danos colaterais e matam muitos civis. Depois deste trabalho percebi que podia ter algum potencial em termos de bandas sonoras. Já antes, a produtora do meu irmão - a Lua Filmes, de Carlos M. Barros - tinha usado músicas minhas.

Ando sempre a navegar na net à procura de projectos interessantes para bandas sonoras. Envio milhares de e-mails, contacto os produtores ou os realizadores. Em causa estão, geralmente, filmes independentes sem uma máquina grande por trás, o que facilita o contacto. No ano passado, fiz o "The Left Behind", do Oliver Salk, a minha primeira longa-metragem com um orçamento maiorzinho e até me pagaram o bilhete de avião para ir a Nova Iorque ver a estreia do filme. Também gostei muito de fazer a banda sonora para o "Our Father", uma curta-metragem de Linda Palmer, com o actor Michael Gross. E foi um filme especial por ter ganho um prémio (melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival Awards). No fundo, as bandas sonoras são o meu ganha-pão.
Em Portugal, nunca fiz músicas para filmes ou imagens sem ser com o meu irmão. No início, enviava muitos e-mails a produtoras, mas não tinha qualquer resposta, era frustrante. Não percebo porque é que não há, pelo menos, a abertura para escutar. Depois surgem outros obstáculos, que estou agora a sentir com a promoção deste disco ("In between") que é passar os temas na rádio, por exemplo. Na Islândia, a companhia aérea do país, a Icelandair, disponibiliza aos passageiros os álbuns de praticamente todos os artistas islandeses. Em termos de marketing, isto é incrível. Em Portugal, os artistas que passam na rádio são sempre os mesmos, são aqueles que já estão no circuito. Parece que não há espaço para todos. Portugal até está muito na moda e tem um bom "branding", com o fado, a calçada, a sardinha, mas, falando especificamente da música, temos as novas vozes do fado, e, de resto, estamos muito limitados.

A minha música tem algo da chamada portugalidade, mas sinto-me um bocadinho pseudo-intelectual quando analiso aquilo que faço. Tendencialmente, a música portuguesa é sempre muito nostálgica, e eu, como português, recebo essas influências. Sou muito nostálgico no sentido da contemplação. Gosto de criar e ouvir este género de música, mais instrumental, porque me permite contemplar as coisas sem grandes interferências, permite-me abstrair de qualquer intenção que o autor possa ter, sobra tudo para mim, ou seja, posso criar tudo na minha cabeça.
Não tenho ninguém na família ligado às artes. O mais interessante é que o meu irmão, cinco anos mais velho do que eu, também andou "perdido" em vários cursos, depois decidiu estudar produção de vídeo na ETIC, e também está ligado ao cinema. E eu, quando acabei o 12.º ano, queria ser piloto da Força Aérea, mas chumbei nos testes por causa da visão, e então entrei para Engenharia de Aeródromos para, mais tarde, tentar novamente ser piloto. No fundo, queria ser astronauta - para trabalhar na ESA ou na NASA - e uma das formas de chegar lá era sendo ser piloto. Durante a formação militar, percebi que não tinha nada que ver com aquilo e fui para Direito. Achava, de uma forma simplória, que através do Direito podia fazer justiça, mas percebi que não é assim. E acho que na música consigo ajudar de uma outra forma. A música tem algo de terapêutico.





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