Weekend Angela Gulbenkian. A herdeira que rasga a tradição dos Velhos Mestres

Angela Gulbenkian. A herdeira que rasga a tradição dos Velhos Mestres

"Só estou aqui pelo amor à arte." Ainda antes de ganhar o apelido, Angela Gulbenkian já se dedicava à compra e venda de arte. Com o marido, Duarte, mudou-se para Lisboa, onde está disposta a criar parcerias e a abrir espaços dedicados à arte moderna e contemporânea. Tem planos para a Fundação com que partilha nome, mas recusa interferir na sua gestão diária.
Angela Gulbenkian. A herdeira que rasga a tradição dos Velhos Mestres
Bruno Simão
Ponto de transformação. "O meu marido seguia os Velhos Mestres, que ainda são a maioria da colecção dos pais dele. Ele conheceu-me. Tudo o que eu queria era arte moderna e contemporânea. Agora, surpreendentemente, ele também adora."

Angela Gulbenkian é que ainda não se deixou convencer pelos Velhos Mestres. Há sete anos, adoptou o apelido quando casou com Duarte, sobrinho bisneto de Calouste Gulbenkian e filho de Micael Gulbenkian. E, com ele, novos rumos de vida.

Fizeram as malas e vieram viver para Lisboa em 2016. "Depois da morte do meu pai, decidi que queria ver o mundo do Duarte." E porque não, de uma certa forma, experimentar com Lisboa o mesmo efeito alcançado no companheiro? "Convenci-o. Acho que tenho uma hipótese de dar outro toque artístico a esta cidade."

Os primeiros passos dados pela negociadora de arte são tímidos. Aos 35 anos, Angela está a tentar perceber se os diferentes agentes culturais estão dispostos a colaborar com ela para trazer novos artistas a Lisboa, que acredita ter potencial para se afirmar como um novo centro no mercado da arte. "É possível optimizar. É insanamente livre."


Aos 35 anos, Angela Gulbenkian tem vários projectos para Lisboa. Admite avançar sozinha se não encontrar parceiros disponíveis. 


Inspiram-na nomes como Gerhard Richter, Claes Oldenburg, Jean-Michel Basquiat, Isa Genzken ou Ai Weiwei. "Podia levar horas a fazer a lista." Nos jardins da Fundação com que partilha o apelido, onde teve lugar esta conversa, Angela imagina esculturas em forma de abóbora da japonesa Yayoi Kusama. "Seria de tirar a respiração." E uma forma de dar um novo fôlego a uma instituição que diz estar ainda muito fechada em épocas artísticas mais antigas.

"Porque não tentar, a uma pequena escala, ter um sector contemporâneo?" É uma das pontes que a empresária quer criar, afastando o cenário de qualquer cargo ou de interferência na gestão diária da Fundação Calouste Gulbenkian. Posição também adoptada pelo marido, dedicado ao mundo do futebol enquanto agente na FIFA [Federação Internacional de Futebol] e dono da LXG Sports.

"Não quero criar conflitos. Só estou aqui pelo amor à arte." Angela Gulbenkian admite que pode ter de avançar sozinha na hora de encontrar e abrir novos espaços dedicados à arte contemporânea em Lisboa. Porque não há um centro ou uma rua cheia de galerias, por exemplo. "Tudo pode ser criado. Estou disponível para investir. De outra forma, nem teria começado."


Uma troca de experiências é o que esta "art broker" deseja. "Acho triste que a arte portuguesa não seja tão conhecida como outras." É fã assumida de Vhils, pseudónimo de Alexandre Farto, que classifica como "o número um", e assegura estar a estudar outros percursos de artistas nacionais. "Isso leva tempo." Sobretudo quando se procura alimentar o fluxo em dois sentidos: trazendo artistas estrangeiros para conhecer, trabalhar e expor em Lisboa. E criando consciência sobre o lugar desta capital no mundo da arte.

"É uma cidade que tem uma luz maravilhosa para os artistas criarem." E um dos argumentos, quem sabe, para trazer uma galeria de Nova Iorque durante seis meses, em formato "pop up". "Não gosto do termo, mas fizemos isso em Munique. Só para testar o mercado."

Foi precisamente em Munique, Alemanha, que Angela nasceu. Estudou Política e História em Londres. Na capital britânica, abriu uma empresa de marketing. Vendeu-a pouco tempo depois. "Decidi fazer algo porque tenho paixão": negociar arte.


A ideia desta negociadora de arte é promover a troca de experiências. E colocar Lisboa no mapa mundial da arte contemporânea. 


"Cresci nesse negócio, o que é muito difícil." Fê-lo, ainda antes de conhecer Duarte Gulbenkian, assente nas ligações que tinha a galerias e coleccionadores amigos dos pais, de quem herdou o gosto pelo coleccionismo. Com a ajuda deles, comprou a sua primeira obra de arte.

Ainda se lembra: um Günther Uecker, alemão conhecido por utilizar unhas em algumas das suas criações. "Como era estudante, não tinha muito dinheiro. Um dia, fizemos uma exposição para toda a família, também com os meus quadros."

A partir daí, nunca parou de comprar. Umas atrás das outras. "Sou viciada. Obcecada mesmo. Depois de nos apaixonarmos por arte, não conseguimos cansar-nos." Angela Gulbenkian prefere pintura e escultura. O vídeo não lhe conquista tanto o olhar. Não sabe bem explicar porquê.

Apesar da mudança para Lisboa, a empresária mantém em Londres o seu projecto de vendas privadas de arte, a Fine Art Private Sale, onde os negócios são fechados sem que comprador e vendedor cheguem a conhecer-se entre si. "Só funciona com uma rede muito forte", que está a procurar a alargar com coleccionadores portugueses, embora este número seja "minúsculo".

Para tornar ainda mais eficaz este tipo de vendas, Angela e a equipa estão a desenvolver uma aplicação para que seja possível, também de forma anónima, comprar arte. Mesmo nesta modalidade, diz-lhe a experiência, são três os "D" a motivar as vendas: "death, divorce, debt" [morte, divórcio, dívida]. A capital lusa também entra neste projecto. Como? Pelo apoio tecnológico. "Todas as companhias de tecnologias de informação dos Estados Unidos da América estão a vir para Lisboa aos poucos."

Nesta fase, os negócios ainda vão sendo fechados em inglês ou alemão. A língua portuguesa está a ser uma das descobertas. "Compreendo, mas ainda sou tímida para começar a falar. Falo depois de um bom copo de vinho tinto." Até lá, espera que o apelido Gulbenkian vá tornando os contactos mais fáceis.

"No mundo da arte, este nome abre portas, mas não fecha negócios. As pessoas espantam-se por ser membro da família. Existem outros. Talvez seja a única que não fica envergonhada e fala". Porque há uma responsabilidade associada. "As pessoas esperam mais de nós. É um desafio, gosto de desafios. Há essa tradição. Basta pesquisar para ver que há o Museu e a Fundação Gulbenkian." E agora há Angela.

(Face ao texto publicado na edição em papel, é corrigida a ligação de Duarte Gulbenkian a Calouste Gulbenkian, como sobrinho bisneto.)




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