Weekend Angola: João Lourenço, o surpreendente exonerador

Angola: João Lourenço, o surpreendente exonerador

As eleições em Angola foram o acontecimento internacional do ano.
Angola: João Lourenço, o surpreendente exonerador
Stephen Eisenhammer/Reuters
Celso Filipe 22 de dezembro de 2017 às 16:00
As eleições de 23 de Agosto em Angola decorreram com a normalidade esperada. João Lourenço, cabeça-de-lista do MPLA e candidato à sucessão de José Eduardo dos Santos, foi o mais votado e garantiu a entrada no Palácio da Cidade Alta, residência oficial do chefe de Estado angolano. O acto eleitoral ficou marcado por um facto que ficará para a história. Eduardo dos Santos disse adeus à presidência, fechando um longo ciclo de 38 anos e abrindo a porta a uma transição que prometia ser tranquila.

O espanto veio logo depois. Quando muitos pensavam que o novo líder seria uma marioneta e José Eduardo dos Santos continuaria a mexer os cordelinhos do poder angolano, João Lourenço surpreendeu com uma autêntica razia de titulares de cargos públicos afectos ao antigo presidente. A começar pelo governador do Banco Nacional de Angola, Valter Filipe, e terminando na mediática Isabel dos Santos. A filha primogénita de José Eduardo dos Santos foi afastada da liderança da Sonangol e viu cortadas outras ligações que mantinha com o Estado angolano, por exemplo, a parceria existente entre a Sodiam e Isabel dos Santos na De Grisogno, uma empresa de alta joalharia com sede na suíça controlada pela milionária angolana.

Pelo caminho, outros dois filhos de José Eduardo dos Santos, Welwitschia (Tchizé) e José Eduardo Paulino (Coréon Dú), foram afastados da gestão do canal 2 da TPA, a televisão pública angolana.

As medidas tomadas por João Lourenço foram recebidas com júbilo pelos opositores ao regime do MPLA e aplaudidas pela comunidade internacional, generalizando-se a percepção de que o novo inquilino do Palácio da Cidade está empenhado em moralizar o Estado e em reduzir drasticamente os índices de corrupção, um anátema que paira sobre o país e impede uma captação efectiva de investimento estrangeiro. Em paralelo, o novo Presidente quer que "angolanos detentores de verdadeiras fortunas no estrangeiro" sejam os primeiros a investir no país e promete um perdão fiscal para quem repatriar o dinheiro.

A acção rápida valeu-lhe o epíteto de "Exonerador Implacável", inspirado no filme "Exterminador Implacável", e nas redes sociais surgiram cartazes do filme onde o rosto de Arnold Schwarzenegger foi substituído pelo de João Lourenço.

No mesmo dia das eleições angolanas, a agência espanhola Efe publicou uma entrevista com João Lourenço onde este recusava a comparação com o ex-líder russo, Mikhail Gorbachev. "Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas certamente não Gorbachev, Deng Xiaoping, sim" contrapôs. Um paralelismo que não é inocente. Xiaoping liderou a China entre 1978 e 1992, tendo criado o designado socialismo de mercado, um modelo económico que se tem aprofundado e que George Soros classificou como "capitalismo de Estado". O ano de 2017 trouxe assim a promessa de uma Angola nova e 2018 servirá para verificar se esta vontade de mudança é efectivamente verdadeira.





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comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Realmente surpreendente e acutilante considera Portugal um simulacro de democracia ,visto q apesar da retórica só estão legalizados partidos de raiz esquerdista e avisa que mâo de obra,azeite e vinho há na Africa do SUL,Espanha,etc

Anónimo Há 3 semanas

Numa economia, existem 2000 cientistas de foguetões reutilizáveis distribuídos pelos cargos de chefia do sector público, do ensino privado e das empresas privadas de transporte terrestre que nada têm a ver com foguetões. Essa economia precisa de 2000 cientistas de foguetões reutilizáveis, mas tem 2000 chefes a mais no sector público, no ensino privado e nas empresas privadas de transporte terrestre. Estes chefes têm carreiras cheias de bónus, benefícios e progressões automáticas por antiguidade que os seus sindicatos negociaram com governantes eleitoralistas ao longo dos anos. O dinheiro que o sector público, o ensino privado e as empresas privadas de transporte terrestre gastam para pagar a esses 2000 chefes desnecessários, mal alocados e incrivelmente qualificados em ciência de foguetões reutilizáveis é equivalente ao que seria necessário ao mercado de capitais doméstico para investir no sector dos foguetões reutilizáveis naquela economia. O mercado laboral é rígido. O que fazer?

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