Weekend António Lobo Antunes: Dá-me culpabilidade quando não escrevo

António Lobo Antunes: Dá-me culpabilidade quando não escrevo

"Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves Do Que A Água" é o seu último livro. Que lhe custou muito. À noite tinha sonhos horríveis e acordava a pedir a G3. É um livro ambivalente. Cruel e cheio de amor porque, como diz, não há sentimentos quimicamente puros. Construído em cima de uma guerra colonial que guarda para sempre. A personagem principal trouxe um filho preto dessa guerra. António Lobo Antunes tentou, por duas vezes, trazer uma criança para Portugal. No livro, "não há uma coisa que não tenha acontecido".
António Lobo Antunes: Dá-me culpabilidade quando não escrevo
Miguel Baltazar
Fizemos um livro publicado em Fevereiro deste ano ("O Que Faria Eu Se Estivesse no Meu Lugar - 10 conversas de vida com António Lobo Antunes"). Ou melhor. Ele falou, eu registei as suas palavras, passei-as para o insensível computador e elas mantiveram a alma. Aprendi. Muito. Ficámos amigos, acho. Eu pelo menos fiquei.

Como é que se entrevista um amigo sobre um livro que se viu crescer e se foi pressentindo em conversas de circunstância? Não se entrevista. Pode-se perguntar para tentar obter resposta ao que inquietou.

E que mesmo depois disso continuará a inquietar. Esta conversa tem como pretexto o último livro de António Lobo Antunes, "Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves Do Que A Água". Que é sobre a guerra colonial em Angola, a crueldade, o amor. Adjectivos redutores, para um livro que remói as entranhas. As do autor e as dos leitores.

"Não há uma coisa que não tenha acontecido. Mas custou muito. Tinha aqueles sonhos horríveis. Acordava a pedir a minha G3, onde está a minha G3, sem saber onde estava, e foi só depois de ter começado a escrever o livro. Às vezes sonho, claro, como todos os que lá estiveram, mas era uma angústia. Acordava de gatas no chão, e a cama é alta, a gritar a pedir a arma."

Para António Lobo Antunes, um livro começa antes de fixar palavras nos blocos pequenos, de hospital, com letra microscópica, a primeira versão dos seus livros. 

"Um livro começa bastante antes de começar a escrever. É como quando a gente sabe que vai adoecer, com uma gripe, por exemplo, começa com um mal-estar vago, não é bem um mal-estar, é uma inquietação interior e não tenho nada. Aliás, eu não escrevo com plano. Começo a escrever e é o livro que se vai estruturando, com se fosse uma coisa independente de mim. Mas este foi horrível. E cada vez que estou com um livro, sonho. E o livro avança também por causa de muita coisa que se passa durante a noite. É quando estou a dormir. Mas este tinha coisas violentas. Para mim eram violentas porque as vivi. E acordava numa angústia a pedir a puta da arma, a gritar. E depois dava-me conta de onde estava. Mas era estranho porque eu continuava lá. Mas eram coisas violentas, de maneira que acordava estoirado." 

"Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves Do Que A Água" revela no seu início o epílogo do livro. Porque António Lobo Antunes não conta histórias – as histórias são para avozinhas, costuma dizer – e as personagens são vozes. Uma matança de porco. O porco é morto, o filho preto, adoptivo, mata o pai e é morto por quem assiste à matança. Uma carnificina. 

"Histórias destas não fui eu que inventei. Nem é preciso estar numa guerra para assistir a cenas de uma imensa crueldade. Nisso, nós somos mais primitivos do que as mulheres. Reagimos logo com violência. O Camus, por exemplo, achava que o casamento era uma forma de matar o outro, mas era uma forma de matar devagarinho, pela usura. Um casamento é uma situação muito complexa, mas que às vezes é muito agradável. Viver sem uma mulher para nós homens é muito difícil de conceber. As mulheres aguentam-se muito melhor."

 

No livro pressente-se que este epílogo era uma fatalidade. António Lobo Antunes discorda. 

"Se fosse assim era como nas tragédias em que não há livre-arbítrio e tudo acaba numa carnificina horrorosa. Aliás, a guerra é uma carnificina horrorosa. Mas é engraçado que a crueldade e a violência às vezes são alegres. Não falo desses criminosos desprezíveis que em Braga fizeram aquilo ao homem. Falo de pessoas normais com qualidades e defeitos como somos todos nós. Dentro de nós há muita violência como há muita ternura, há muita maldade como há muita bondade. Nós somos muito complexos enquanto pessoas. Dentro de nós coexistem sentimentos às vezes contraditórios. Às vezes se um filho nos chateia muito, apetece dar-lhe duas chapadas e fazê­-lo desaparecer, mas ao mesmo tempo não queremos que ele desapareça, porque temos muito amor pelos filhos." 

 

Neste caso, aparentemente, a crueldade da tragédia ganhou ao amor. 

"É a tragédia da relação de um pai com um filho. É sempre um tribunal inesperado, o julgamento de um pai pelo filho, do filho pelo pai, as incompreensões, etc., e depois ficamos em paz quando os pais se vão embora. Eu agora tenho imensas saudades do meu pai. Nunca me passou pela cabeça ter saudades quando ele estava vivo. E dei-me conta de que o amava. Depois vem sempre o remorso. Mas é um julgamento terrível. Nós estamos constantemente a julgar os pais, os nossos, que por sua vez também nos estão constantemente a julgar. E é cheio de incompreensões. Eu estou a falar em geral." 


 

Na página 31, lê-se: "De modo que agora, como os meus pais andam por aí, principiei a escrever-lhes esta carta feita de riscos no chão." Este livro pode, assim, ser entendido como a conversa que António Lobo Antunes nunca teve com os pais sobre a guerra colonial. Revela o que passou, escondendo-se nas personagens. 

"É que ele [o pai] fazia muitos riscos com o pé, como eu faço às vezes. Ou com uma cana, ou com um pauzinho, ou com a ponta do cano da arma. Eu via muito isso lá na Beira Alta quando era pequenino. Os velhotes que estavam sentados no largo da aldeia, todos eles com a bengala, com isto com aquilo, tudo a fazer riscos no chão, enquanto falavam."

"Nunca contei a ninguém o que se passou na guerra. As pessoas não iam entender e para as que lá estavam comigo não era preciso falar. E a camaradagem era muito intensa. Aquele espírito de união… Morria-se." 

 

O filho preto inquieta-se com o facto de os outros não entenderem este desfecho trágico. "Incapazes de entenderem que gostávamos um do outro, que eu tinha de fazer aquilo e ele de aceitar que eu fizesse aquilo para que tudo certo finalmente e nós os dois em paz, pai e filho sem ninguém a separá-los." 

"Num dos melhores poemas do Oscar Wilde, ‘A Balada do Cárcere de Reading’, o estribilho é: todo o homem mata aquilo que mais ama. Isto é verdade. A gente quando se envolve com alguém está logo a ver as consequências que normalmente são trágicas para nós. E realmente a maior parte das vezes são, porque não há amor feito, é preciso estar sempre a fazê-lo. Porque é que a maior parte dos casamentos dura, porque a gente começa a pensar, porra, se fico sozinho e tiver uma diarreia como é que resolvo. Nós homens, temos um medo do caraças das diarreias sozinhos. E depois os homens que vivem sozinhos… A solidão cheira, tem um cheiro horroroso." 

 

O filho preto é a memória sempre presente que o pai branco, antigo combatente, tem dos horrores da guerra. O passado feito presente, António Lobo Antunes, quando esteve em Angola, também tentou, por duas vezes, trazer uma criança para Portugal. 

"É uma relação muito complicada. Eu estive para trazer primeiro uma miúda camussequele, aqueles chineses amarelos que eram os primitivos habitantes, até que vieram da Etiópia os povos bantu que invadiram a África Austral. Os camussequeles, que são amarelos, eram os escravos deles. Muitos deles eram tropa da UNITA contra o MPLA. Connosco não colaboravam, porque eles falavam aquela língua que são uma espécie de estalinhos, e não falavam outras línguas. Havia bastantes na UNITA. Foi um golpe de mão, a família dela morreu durante esse golpe de mão e ela estava ali sozinha, quatro anos, com uma grande barriga. Eu levei-a para o aquartelamento. Estava sempre comigo. Depois apareceu um avô… Os africanos não beijam, nem abraçam. Nunca vi uma mãe abraçar um filho, nunca vi uma mulher beijar um homem ou um homem beijar uma mulher. O amor era assim, bater no próprio peito e no peito da outra pessoa."

"Era relativamente frequente [adoptar crianças]. Vieram imensas. A gente tinha de dar afecto a alguém. Não podíamos viver sem dar afecto. Depois da rapariga camussequele quis trazer um rapaz. Mas aí as autoridades civis chatearam-me não sei porquê. Tinha 10 anos o rapaz e era inteligente que se fartava. Mas vieram vários. Conheço vários rapazes que cá ficaram. Depois eram perfilhados por esses homens. Eu tinha de dar afecto a alguém ou a alguma coisa. Não tínhamos família. Eu tinha uma filha que nasceu enquanto eu estava lá e não conhecia. Quando fui a mãe estava grávida de um mês, quando vi a miúda já ela tinha não sei quantos meses. Foi uma solidão muito grande."

"A criança tinha 12 anos nessa altura. Gostava dele. O miúdo era muito inteligente, tinha imenso humor, fazia imitações espantosas, era muito giro, e podia ter uma vida melhor. E por outro lado, cada vez que olhasse para ele, ou pelo menos algumas, lembrar-me-ia de África. Nunca vi nada tão lindo como Angola. O interior era de uma beleza extraordinária, extraordinária, extraordinária. E as pessoas têm uma relação muito mais simples e directa com a natureza do que nós europeus."

 

A frase do filho preto remete-nos para o assassinato com a derradeira prova de amor. Um amor que só se obtém no território da eternidade. 

"Isso não é a mim que me compete dizer, é aos leitores. Eu só escrevi aquilo. Quando se está a escrever e as coisas estão mesmo a correr bem, tenho impressão que há uma voz a ditar, que aquilo não lhe pertence. Portanto, não se pode gabar de ter feito um grande livro. É qualquer coisa que de vez em quando começa a mexer em mim. Com este livro como com os outros. Não me interessa nada contar histórias, interessa-me escrever aquilo que não sei de onde vem".

"O amor é mais complexo que o ódio. Não posso com esse gajo, pronto, fica logo tudo resolvido."

"A nossa sede amor e ternura é tão grande que o nosso sonho é sermos idealmente amados. Não há sentimento que não seja acompanhado do seu contrário. Isto pode-se dar num livro. Não é difícil porque é a vida. Não há sentimentos quimicamente puros."

"Gostas de mim, sim ou não. É impossível responder assim. Porque mesmo as pessoas de quem mais gostamos têm coisas que nos irritam. E depois somos muito possessivos e exigimos um amor infinito dos outros dando nós o menos possível, para nos protegermos. Estamos sempre a sonhar ser idealmente amados. Nós, homens, mais do que as mulheres." 

 

Neste livro, há desumanidade. Orelhas cortadas, violações, decapitações. Inevitabilidades da guerra que são omitidas por vergonha ou medo. É um assunto mal resolvido em Portugal. 

"Isso, não sei dizer. Dentro de mim é mal resolvido porque continua a atormentar-me. As outras pessoas, não sei. Acho que agora as pessoas já nem pensam nisso, a maior parte nasceu depois."

"Uma guerra não é um chá da Cruz Vermelha. Tem de ser eficaz, tem de vencer e aterrorizar o inimigo. Sempre aconteceu. Uma guerra é isto. Não são abraços, beijinhos, um chazinho. Dentro de nós existe uma grande crueldade. Quem não é capaz de matar? Toda a gente é capaz de matar, temos é medo. E ali, de repente, matar era porreiro porque não havia consequências. Não estou a dizer que era assim que se passava, ou que não se passava assim, isso não interessa, mas entre nós existe muita crueldade."

"A cena de violação do major, isso vi eu."

"Quando morava no Conde Redondo, chegou a conhecer a casa (sim), havia um gajo que morava por cima do restaurantezeco onde eu comia que tinha dois frascos cheios de orelhas. E os catangas, muitas vezes, iam para a mata com colares de orelhas. Era um troféu. As orelhas já estavam completamente brancas, era um horror, aquilo metia nojo. Era só a cartilagem, nem sequer cheiravam mal. Nós íamos para a mata em silêncio, os catangas que combatiam connosco iam com um lenço encarnado atado ao pescoço e a gritarem. Batiam a mata numa barulheira e nós todos caladinhos. O Governo português e a PIDE tinham prometido aos cantangueses que acabada a guerra colonial Portugal ia ajudá-los para o Catanga ser de novo independente. 


 

Escrever, neste contexto, poderia ser entendido como um acto catártico, de reconciliação com o passado. António, este livro trouxe-lhe paz? 

"Nunca tive paz, desde que me conheço. Como é que o livro me havia de dar paz? O Celso conhece-me um bocado. Sabe que a minha inquietação interior é muito grande e impede-me de ser feliz, como é evidente. Eu não estou zangado com o passado. Como é que hei-de explicar. As circunstâncias eram horríveis, a violência era enorme. Mas o treino aqui era bem feito, porque era um bocado pavloviano, para reagir. Eu não punha grandes problemas. Nem eu nem os rapazes. Nem os oficiais, nem os sargentos, nem os soldados. Culpabilidade, nunca senti." 

 

E remorsos? 

"Quando eram os rapazes de que gostava. Lembro-me uma vez, tinha dois guarda-costas, um levou com um tiro e eu não aceitava a morte dele. Os soldados queriam levá-lo e eu dizia, ele não está morto, está a dormir. Mandei-o deitar na minha cama, esteve ali uma data de horas. É difícil aceitar a morte. Sei lá se ele estava morto, estava só calado."

 

A morte perpassa o livro. Parece que António Lobo Antunes a esconjura escrevendo sobre ela. A ironia ajuda. E isso violenta o leitor, mostra-lhe o que ele quer esconder. O destino que todos renegariam, sem hesitar. 

"Quem é que percebe a morte? Talvez os mortos pudessem explicar mas eles têm uma certa tendência para se calar. Não se percebe porquê, não é. O problema não é tanto perceber, o problema é que a morte é uma inevitabilidade na nossa vida. Um dos meus bisavôs matou­-se, deixou uma carta, foi uma coisa que me fez impressão. Eu nos primeiros tempos de ser médico, quando estava no internato de psiquiatria, interessava-me o suicídio porque tinha havido na minha família, e o que me espantava mais era o sentimento de imortalidade dos suicidas. O suicídio não era o fim. Não estou a matar­-me, estou a matar aquilo que me impede de ser feliz. Por exemplo, esse meu bisavô tinha um cancro e a carta que ele deixou era muito clara, embora não se desse conta porque aquilo foi escrito à pressa e estava cheio de sangue, porque ele suicidou-se com um tiro na cabeça e caiu sangue no papel, ele não estava a matar-se a ele, estava a matar o cancro que o impedia de viver melhor e com menos sofrimento."

"Quantas pessoas felizes conhecemos? Muito poucas. Há sempre tanta insatisfação, tanta tristeza. E mais. Quando as coisas estão a correr bem, já viu o que as pessoas fazem, batem com os nós dos dedos na madeira para conjurar o bem-estar. Nós vivemos muito melhor com a tristeza do que com a alegria. A alegria assusta-nos muito mais, faz-nos sentir culpados muitas vezes. À tristeza e desgraça estamos nós habituados. À doença, à ideia da morte, etc." 

 

"Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves do Que A Água" pode ser visto à luz da estrutura de uma tragédia grega, na qual as personagens não são senhoras do seu destino. Mas António Lobo Antunes afasta esta comparação. 

"As pessoas tendem a confundir o drama com a tragédia, no sentido grego do termo. O problema é que na tragédia não há livre-arbítrio, é um pouco como nós, a morte é que vai escolher quando é que nos leva, não somos nós que decidimos. Portanto, as decisões das pessoas, na tragédia grega, no que chegou até nós dos grandes dramaturgos e comediógrafos, Ésquilo, Eurípides, não há livre-arbítrio. O final está pré-determinado. Como na Castro do António Ferreira, como no Frei Luís de Sousa do Garrett. Os dramaturgos portugueses continuaram, até agora, de uma forma ou outra, a seguir os grandes tragediógrafos gregos."

"Na tragédia não existe livre-arbítrio. Não é permitido às personagens fazerem escolhas. Estão submetidas ao destino, um destino irreversível. E no drama existe livre-arbítrio, as personagens podem tomar decisões."

 

Nesse sentido, este livro é um drama? 

"Não me compete dizer. Nem nunca pensei nisso quando estava a trabalhar. Quando estou a escrever, estou tão preocupado com os problemas técnicos que o livro tem que nem me dou ao trabalho de pensar nisso." 

 

Já releu o livro depois de publicado? 

"Hoje [27 de Novembro] li um bocado e fiquei surpreendido com a qualidade do livro. É muito melhor do que pensava, é do caraças." 

 

Do caraças, porquê? 

"Porque é bom. É melhor do que pensava. Eu sei que sou bom. Não tenho, nem falsa modéstia nem verdadeira. O Bento Domingues, de quem eu gosto muito, escreveu no Público a dizer que ninguém escreve como ele (eu), acho que é verdade, mas vou-me envaidecer disso porquê? É o meu trabalho. Quanto mais trabalhar melhor escrevo. Isto é trabalho. Escrever bem não é escrever uma página, é escrever 300 para ficar uma boa. Isto não é um milagre. Não é um gajo sentar-se à mesa e a mão está feliz. Não. É preciso pôr a mão feliz e isso dá muito trabalho. A maior parte dos livros que vejo escritos em português são feitos à pressa. As pessoas querem logo ter sucesso, ganhar todos os prémios que há, ou seja, querem tentar resolver o problema da sua insegurança. Escrever dá-me uma inquietação e um medo muito grande. Pode dar alegria depois. Acho que devia ser obrigatório escrever, porque enquanto estão a escrever não chateiam ninguém. Eu quando estou a escrever não chateio ninguém, não embirro com ninguém, estou ali quietinho agarrado ao papel, sou menos exigente, só quero é que me deixem em paz a fazer aquilo, não estou a maçar ninguém."


António Lobo Antunes sabe que a sua escrita é uma floresta densa. Desafia o leitor. Obriga-o a sair do comodismo das narrativas lineares. Escreve porque não sabe viver de outra maneira. E a sua escrita força-nos a pensar de outra maneira. É preciso querer.
 

"Aquilo que escrevo não é muito fácil de entender, é muito ambicioso e as pessoas gostam é de Facebook e de mensagens e as outras coisas não lhes interessam. A gente vive na nata das coisas. Se um livro ou uma música exige mais de si, a gente gosta é de ouvir as parvoíces do Tony Carreira. Mas ouvir os quartetos do Beethoven, que são difíceis, está quieto ou mau. Porque a cultura da mediocridade tem imensas vantagens para os governos. Não há nada pior do que um povo exigente. As pessoas são preguiçosas e têm medo do que existe de mais profundo nelas. Começamos logo por não nos conhecermos.

Conhecemos as camadas mais superficiais da nossa maneira de ser e o resto a gente tem medo. Se mergulharmos muito fundo dentro de nós, o que vemos é apavorante, muitas vezes."

"Dá-me culpabilidade quando não escrevo. Por exemplo, o intervalo dos livros é difícil porque me começo a sentir culpado. É como se estivesse a atraiçoar uma coisa que não é minha e que me deram. E que eu sabia que tinha com seis, sete anos. Não é dom. É aquilo que tinha de fazer. Não me torna melhor do que os outros, nem pensar. A única coisa que eu posso fazer e que talvez seja capaz de fazer bem é escrever. Tinha jeito para algum desporto (hóquei em patins) e fui transferido aos 14 anos, estava todo vaidoso e ganhava umas coroas no Benfica. O Benfica, quando eu era miúdo, tinha um defesa central, o Germano, um jogador maravilhoso, o gajo estava sempre a ler. Ia no autocarro a ler. Depois, quando acabou a carreira, foi trabalhar para uma editora. Quando estou a escrever é muito bom porque eu não existo. Existe uma cabeça, uma mão, uns olhos atentos ao que a mão escreve. Não tenho tempo para estar deprimido. Deprimo-me nos intervalos. A nossa vida não é mais do que as formas que a gente arranja de lutar contra a depressão, que é o sentimento mais fundo que todos nós temos. Porque viver é muito complicado."

 

António Lobo Antunes pergunta ao repórter fotográfico: a conversa está a ter algum interesse para si, está de fora. Ouve um sim. Mas ambos sabemos que está quase no fim. Uma hora é o limite temporal que colocamos às nossas conversas/entrevistas. A contagem decrescente é feita através de um último cigarro. Vamos acabar? 

"Acho que se falou mais de psicologia do que de literatura. Porque a literatura é um mundo com problemas muito específicos, ao nível técnico. Que uma pessoa vai aprendendo aos poucos, lendo muito, ouvindo escritores mais velhos. Aprendi imenso a ouvi-los. Quando estava no Benfica, tinha um treinador, que era o senhor Lisboa, aquilo era uma chatice, um gajo tinha de andar a dar voltinhas, a fazer coisinhas, era uma espiga do caraças, mas tem de ser assim. E se vir o treino de uma equipa, seja de que desporto for, a maior parte do tempo é isto, aperfeiçoar a técnica."

"Os melhores escritores são aqueles que trabalham mais. Se eu estiver um ano sem escrever e agarrar numa folha faço uma merda. A excelência vem do trabalho. Não há segredo nenhum. Eu estou fechado aqui o dia todo. É a única maneira. Senão, faço merda." 





A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Decididamente, o homem está perturbado na mente Há 3 dias

Olhem bem para o fácies do homem e digam se não há nele um olhar alucinado e transtornado.
Este homem devia ser ajudado por um psiquiatra.

Anónimo Há 3 dias

Um grande pensador,só pode escrever bons livros.Parabens