Weekend António Raminhos: "Basicamente, eu não tenho vergonha de dizer aquilo que muitos pais pensam"

António Raminhos: "Basicamente, eu não tenho vergonha de dizer aquilo que muitos pais pensam"

O humorista Raminhos cresceu "num contexto pesado" e procurava no humor uma espécie de escape. "Nunca pensei em fazer comédia, mas a comédia esteve sempre presente na minha vida". Bom aluno, esteve no quadro de honra na escola secundária, estudou Comunicação Social e foi jornalista n'A Capital. O jornal fechou, ele criou o blogue "Samouco ao Rubro" e foi assim que tudo começou.
António Raminhos: "Basicamente, eu não tenho vergonha de dizer aquilo que muitos pais pensam"
Bruno Simão
Lúcia Crespo 25 de agosto de 2017 às 14:00
Elas têm sete, quatro e um ano de idade. São as Marias, filhas do humorista António Raminhos. É a partir delas que ele faz o seu espectáculo de "stand up" "As Marias", nome que também dá título ao livro editado pela Contraponto. Em registo irónico, trata-se quase de um desabafo entre pais. Este pai nasceu em 1980 nos Olivais quando os Olivais eram um bairro pesado, onde as crianças faziam brincadeiras de crianças, mas acrescentavam uma vertente agressiva. A reboque de um jogo de escondidas vinha um assalto a uma mercearia. Foi neste "contexto pesado" que cresceu. O humor era uma espécie de escape.  


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urante quase dois anos fiz um espectáculo de "stand up" chamado "As Marias" e costumava dizer que aquilo era uma espécie de palestra motivacional ou "desmotivacional" para quem quer ser pai. É um pouco como este livro, que apresenta questões que são apenas idiotas e outras que não são tão idiotas assim. Ser pai assenta muito na ideia de que as coisas não são como nós queremos, ser pai é pensar em sair de casa às nove, acordar às sete e despachar-me às dez. O registo do livro é irónico, mas há sempre uma mensagem e funciona quase como um desabafo. Basicamente, eu não tenho vergonha de dizer aquilo que muitos pais pensam: que os putos são chatos, dão um trabalho do caraças e, muitas vezes, por milésimos de segundos, pensamos que nunca deveriam ter nascido. Mas é claro que não imagino a vida sem as minhas filhas.

Eu e a minha mulher conversamos muito sobre a exposição pública das miúdas, temos dúvidas, claro, recebi muitas críticas, mas recebi sobretudo mensagens de pais a dizer que gostariam de ter tido uma infância como a das minhas filhas ou que gostariam de ter tido um pai como eu ou até que se revêem naquilo que faço. Mas, claro, nas redes sociais, há malta a cair-me em cima, muitas vezes as pessoas não percebem bem aquilo que eu quero dizer e existe sempre quem não está de bem com a vida. Não tenho problemas que me digam que não acharam piada às minhas piadas, mas não gosto da atitude de quem está lá simplesmente para destilar ódio. As redes sociais vieram dar voz a quem não a merece. Não é uma frase minha, mas é verdadeira.

Sinto que hoje os homens estão mais envolvidos na educação dos filhos. Tenho a felicidade de conseguir ir buscar as minhas filhas à escola e foi, em parte, por causa delas que decidi ir morar fora de Lisboa. Vivo em Mafra, numa aldeia perto da Murgeira, a 35 quilómetros de Lisboa. Estou a 10 minutos da praia e tenho boa comida. Estamos agora a criar raízes com a região e, é engraçado, encontrei amigos a viver por lá, como o meu chefe dos escuteiros, que morava nos Olivais. Há muita gente que trabalha em Lisboa a viver naquela zona saloia.

Nasci nos Olivais com malta de bairro, toda a gente tinha alcunhas, eu era o Cabeças. Éramos putos, só fazíamos porcaria, as nossas brincadeiras eram brincadeiras de crianças mas com uma vertente agressiva, elevávamos sempre o nível! Por exemplo, à noite jogávamos às escondidas mas, nesse processo, arrombávamos mercearias e íamos roubar pastilhas... Ou, então, jogávamos à bola à uma da manhã, fazíamos um cagaçal no meio da rua, vinha a polícia refilar e tirar-nos a bola. Uma vez, nos Santos, fizemos uma fogueira gigante com caixotes de fruta e começámos a atirar latas de spray para o meio...

Olivais, nos anos 80, era um bairro pesado e só com a Expo'98 e com a primeira Super Esquadra portuguesa é que a coisa acalmou. Tenho amigos de infância que são "skinheads", outros morreram, outros foram presos. Dei-me com aquela malta toda e é engraçado como não degenerei. Mesmo o contexto familiar era um bocadinho pesado. Tive um irmão que morreu antes de eu nascer e vivi com essa herança, até fiquei com o nome dele. Fui sempre muito protegido, mas havia sempre aquela névoa negra. Tinha um primo, que morreu de overdose, que ia muitas vezes a minha casa completamente pedrado ou a ressacar. Estas são imagens que guardo da minha infância e acho que o humor acabou por ser, um bocadinho, uma forma de escape. Nunca pensei em fazer comédia mas a comédia esteve sempre presente na minha vida. Via filmes em barda do Jerry Lewis, via tudo o que era do Mel Brooks. O meu irmão também estava sempre a fazer porcaria, tive sempre gente na família a dizer parvoíces. E lembro-me de ser puto e ouvir o Zip-Zip, no gira-discos, com o Raul Solnado. Mas o Herman é a referência e há-de ser sempre o mestre de todos nós. O Herman é o Herman.

Só comecei a escrever comédia quando fiquei desempregado. Foi na altura do "boom" dos blogues, eu trabalhava no jornal A Capital com a supra-sumo dos blogues, a Ana Garcia Martins, a Pipoca, e, quando o jornal fechou, decidi criar também um blogue, chamava-se Samouco ao Rubro - na altura, eu vivia no Samouco, ao pé de Alcochete. Uma amiga arrendou-nos uma casa baratíssima e tínhamos uma vida de aldeiazinha. Comecei a escrever um ou outro "sketch", uma ou outra piadola, li livros técnicos sobre comédia e mandava vir álbuns de "stand up comedy". A minha referência continua a ser o "Mitch" Hedberg. Depois há o Conan O'Brien e gajos novos como o Daniel Tosh ou o "Jim" Gaffigan.

Entretanto, o Samouco ao Rubro começou a ter muitas visualizações, entrei em contacto com a malta do "Levanta-te E Ri", conheci o Carlos Moura, comecei a actuar com ele e, a partir de então, nunca mais parei. Depois fiz o "5 Para a Meia-Noite", onde estive sete anos, mas queria experimentar outras coisas, ganhei coragem e foi assim que surgiu a "Banheira das Vaidades".

Orgulho-me de dizer que tudo aquilo que fiz nunca resultou de cunhas e odeio quando dizem que faço o que faço graças aos amigos. Sempre tive de lutar muito para conseguir as coisas, não sei quantas vezes contactei as Produções Fictícias e outros sítios, enviei currículos, liguei, cheguei até a contactar aquelas empresas que fazem postais de aniversário com frases cómicas.

Hoje estou confortável mas sou um gajo poupadinho, não ostento, tudo aquilo que puder poupar eu poupo, só não poupo em comida, gosto de comer. Mas o problema de fazer comédia é viver dela e ter de fazer comédia todos os dias. É difícil ter piada todos os dias.

Nunca lidei bem com a pressão, o que é engraçado porque agora tenho uma profissão em que tudo funciona sob pressão, estou a ser constantemente julgado em palco, na rua, e no que quer que faça ou diga. Se aprendi a lidar com isso? Não. O que move no "stand up" é a adrenalina, mas no final parece que levei uma tareia. O meu amigo Carlos Moura diz que o "stand up" é como a heroína, experimentas uma vez e ficas agarrado àquilo, sabes que te faz mal, no sentido de apanhares uma carga de nervos desnecessária, mas não és capaz de desistir.

A pressão para ser bom fez com que desistisse de muitas coisas, principalmente no desporto. Sempre fui um bom atleta, entrei nas escolas de volley do Sporting, mas a pressão para ganhar e o facto de sentir toda a gente a olhar para mim fez com que tivesse desistido. O mesmo aconteceu com o basquete. Ou com o futebol. Eu não jogava especialmente bem, mas cheguei a fazer treinos de captação do clube desportivo de Chelas e fiquei na equipa. Quando o treinador me ligou, no início da época, eu disse-lhe que tinha partido o braço. E é claro que não tinha.

Agora, faço MMA, artes marciais mistas, já tinha feito Muay Thai e Kung Fu quando era puto. Quando fui viver para Mafra, procurei malta para voltar também a jogar basquete e descobri o Clube Hiper-Activo da Malveira, que costuma entrar em competições. Nos primeiros treinos a que fui, ia no carro e, a meio caminho, estava cheio de vontade de voltar para trás, começavam a vir aquelas coisas da infância: 'não sou capaz, não sou capaz', mas insisti e fui. Jogamos no campeonato de veteranos da Inatel e, é engraçado, basta estarem duas pessoas a assistir para eu me sentir muito mais pressionado do que estando em palco. Em campo, sinto que estou sempre a ser avaliado - um passe que falha, uma bola que não entra… é ridículo! 





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