Weekend As marcas de Portugal

As marcas de Portugal

Diz o ditado popular que “a necessidade aguça o engenho”. Foi literalmente isso que aconteceu com as exportações portuguesas nos últimos anos. No livro “Os exportadores portugueses”, Filipe S. Fernandes explica o que mudou nas empresas, nos serviços e nos produtos nacionais que estão a ir lá para fora.
As marcas de Portugal
Filipa Lino 16 de junho de 2017 às 12:00

Filipe S. Fernandes
Os exportadores portugueses Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 100 páginas, 2017


Longe vão os tempos em que as conservas de peixe, o vinho do Porto, o calçado, o têxtil e a cortiça dominavam as nossas exportações. As vendas para o exterior estão muito mais diversificadas e agora incluem também a mais alta tecnologia e maquinaria. O jornalista Filipe S. Fernandes estudou os números das vendas para o exterior e editou, na colecção Ensaios da Fundação, o livro "Os exportadores portugueses", em que explica as transformações que as exportações portuguesas foram sofrendo ao longo dos últimos anos. Afinal de contas, quem está por trás dos números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística? São empresas e empresários de vários sectores e de várias regiões. Actualmente, o país tem cerca de 20 mil exportadores.

Mudar cá dentro para ganhar lá fora

O crescimento das exportações portuguesas no primeiro trimestre deste ano surpreendeu. Portugal conseguiu um dos melhores desempenhos da Zona Euro. Foi, aliás, muito por causa das vendas para fora do país que a economia nacional acelerou o seu crescimento para 2,8% nesse período. Filipe S. Fernandes considera que nos últimos anos houve uma mudança na mentalidade dos empresários portugueses. Por um lado, compreenderam que tinham de se virar para os mercados externos, dadas as "dificuldades no mercado interno". Por outro lado, para ganhar quota no exterior, tinham de se modernizar nos processos produtivos e na abordagem aos mercados porque, sublinha, "exportar é um processo complexo". Há várias questões a ter em conta. Desde logo os seguros de exportação e também as certificações [ambientais e de qualidade] que funcionam como "uma chancela". "Hoje, as exportações portuguesas exigem mais têmpera dos navegadores no tempo das Descobertas do que a astúcia do Oliveira da Figueira do Tintim", escreve o autor.

Foi preciso fazer o trabalho de casa antes de partir à procura de clientes. Uma mudança que foi transversal a todos os sectores. De facto, diz, "há uma constância no crescimento [das exportações] até em sectores em que não se estava à espera". Uma das surpresas é a exportação de máquinas e aparelhos "que teve um peso semelhante ao do turismo". E "era impensável há duas décadas que as exportações da agro-indústria pudessem ter o peso que estão a ter". No caso do vinho, a estratégia de fileira foi relevante na internacionalização e também o facto de os empresários estarem mais atentos ao gosto dos consumidores. "Passaram a fazer produtos destinados aos clientes e não para eles próprios", diz, ao Negócios, Filipe S. Fernandes.

Também houve mudanças no país que ajudaram na internacionalização das empresas. O facto de existir uma malha muito alargada de centros tecnológicos espalhados pelo território, muitos deles ligados às universidades e institutos politécnicos, favoreceu o aparecimento de empresas um pouco por todo o país". E, acrescenta o jornalista, as estradas também "facilitaram a mobilidade de quadros nas empresas". As estradas de alcatrão e as virtuais. "Uma das coisas interessantes nas start-ups é que são todas globais." Verifica-se que "cada negócio que surge já tem um olhar mais internacional".

Nos últimos anos, a dificuldade de acesso ao financiamento, tendo em conta a situação dos bancos portugueses, obrigou as empresas a "melhorarem e aumentarem as suas competências", refere o autor. Aliás, escreve Filipe S. Fernandes, "o facto de haver cada vez mais médias e pequenas empresas a exportar revela uma competitividade empresarial mais alargada porque a internacionalização e a integração nas cadeias de valor globais implicam maior capacidade técnica, de gestão, de inovação, de produtividade e de colaboração".

Palavra de ordem: diversidade

O que mais surpreendeu Filipe S. Fernandes quando começou a estudar os dados das exportações foi a diversidade de sectores que estão a vender para os mercados externos. O turismo já está mais do que falado como sendo um dos motores económicos do país. Duplicou a sua importância no PIB no espaço de uma década. Pesa agora 8% na riqueza gerada no país. É claro o crescimento deste sector, em particular nas cidades de Lisboa e Porto. Até Cristiano Ronaldo, um dos embaixadores da marca Portugal, não resistiu aos encantos da hotelaria. Em sociedade com o Grupo Pestana, o jogador da selecção das quinas e do Real Madrid lançou a cadeia de hotéis CR7. Para o autor, um dos símbolos da nova era do turismo em Lisboa é o tuk-tuk. "Devem existir mais de 200 empresas habilitadas a operar" estes veículos, escreve, "quando eram apenas duas em 2012, ano em que apareceram".

Mas até os sectores tradicionais estão mais modernos. Um desses casos é o do calçado, que em 1995 estava condenado à extinção, e que "fez uma revolução silenciosa" tanto na tecnologia como na mentalidade, sendo agora considerado uma indústria "sexy". Na cerâmica, que sofreu o forte embate do "dumping" da China, foi fundamental a inovação, em colaboração com as universidades, para acrescentar valor aos produtos. "Hoje, a cerâmica, de tradicional, só tem um passado longo, um saber acumulado, porque grande parte das empresas está tecnologicamente apetrechada e apresenta produtos com incorporação tecnológica e não apenas produtos com base em técnicas tradicionais", escreve o autor. É caso para dizer que a tradição já não é mesmo o que era.
1. A Corticeira Amorim fez uma prancha de surf, em parceria com a Mercedes-Benz, à base de cortiça, para Garrett McNamara deslizar nas ondas de Peniche. 2. Cristiano Ronaldo juntou-se a Dionísio Pestana para lançar a cadeia de hotéis CR7. 3. Os caiaques Nelo, do empresário Manuel Ramos, foram os mais medalhados nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. 4. A empresa de comércio electrónico de artigos de luxo Farfetch foi criada em 2008 em Guimarães, por José Neves 5. Fly London é uma insígnia de calçado com lojas próprias em Nova Iorque, Londres, Dublin, Copenhaga, Lisboa e Porto. 6. A pêra-rocha é considerada a rainha das exportações de fruta nacionais. 





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Anónimo 16.06.2017

Avaliações do BPI,têm putrefação.Vejam:há pouco tempo Impresa estava em 0,18Eur.BPI avaliou as cotadas,e das 4 que agora deu ordem de compra,está Impresa.Que fez?A avaliar pela subida ANTES da divulgação publica da sua avaliação,divulgou a entidades privilegiadas que foram as grandes beneficiadas.

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