Weekend As plumas da Chanel

As plumas da Chanel

A casa de luxo foi ao passado buscar um dos seus motivos icónicos, ao mesmo tempo que encontrou uma arte japonesa esquecida. O resultado é uma colecção de peças únicas.
As plumas da Chanel
José Vegar 08 de julho de 2017 às 09:00
No mundo extremamente competitivo e por vezes saturado do alto luxo, a procura da diferença é, talvez, a estratégia mais valorizada. A equação que os criadores e as casas do luxo enfrentam, nos sectores da moda, da joalharia e da relojoaria, é a de que ao aumento do poder de compra mundial correspondeu uma dinâmica da oferta que é, muitas vezes, autofágica, no sentido em que se torna impossível singularizar um produto.

Perante este contexto, a dinâmica da procura da diferença, da singularidade, torna-se não só obrigatória, como por vezes, desesperada. São vários os percursos seguidos pelas casas de luxo, da fixação em tendências contemporâneas de grande poder mediático, à escolha de colecções de choque. No entanto, provavelmente uma das linhas mais interessantes é aquela que procura fundir a manutenção da identidade da casa, ou de uma parte dela, com a recuperação de uma manufactura verdadeiramente artesanal, uma das características mais valorizadas hoje em dia, porque encerra o valor autenticidade.

Foi esta linha que a Chanel seguiu, na sua mais recente colecção de joalharia, a "Plume de Chanel". A casa recuperou primeiro as plumas, um dos elementos mais queridos da sua fundadora, e presente continuamente ao longo dos tempos nas peças, especialmente nos chapéus, já que, para Coco Chanel, davam um toque de graciosidade único.


A Casa Chanel recuperou as plumas, um dos elementos mais queridos da sua fundadora. 


Com as plumas como elemento central e a moldar nas peças, a Chanel foi ao Japão, ao encontro do mestre artesão Yuji Okada, um dos últimos a dominar a arte do Maki-e. A arte designa literalmente "polvilhar uma imagem" e, em termos rudimentares, consiste na criação de uma imagem ou de um objecto numa superfície lacada que é "polvilhada" com um metal, como por exemplo ouro, que depois permite o trabalho de desenho.

Assim, a Chanel conseguiu recuperar um elemento icónico da sua identidade e colocar um mestre artesão, que nunca tinha concebido jóias, a criar. O resultado é efectivamente singular. Trabalhando com platina, ouro branco, pérolas e diamantes, Okada combinou uma superfície lacada negra com os metais brancos, criando motivos geométricos.

As peças criadas são um colar, um broche e um par de brincos, a que se juntam, na colecção "Plume", anéis e braceletes. O preço das peças começa nos 40 mil euros, e as mais valiosas chegam perto dos 90 mil euros. A escolha da Chanel materializada na colecção "Plume" leva a várias reflexões. A primeira é a de que continua sempre a existir alguma coisa ainda não visível no mundo, neste caso um mestre e uma arte, que encerra em si beleza e virtuosismo. A segunda é que o passado, neste caso as plumas, tem um valor único e pode ser sempre reciclado. A terceira é que, por vezes, estas combinações geram peças verdadeiramente únicas.


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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