Weekend Bairradas puros

Bairradas puros

Aos consumidores de gosto apurado chamamos a atenção para a designação Bairrada Clássico no rótulo das garrafas. Lembram-se daqueles vinhos míticos, eternos e que davam conversa que nunca mais acabava? Estão de volta e com designação própria.
Bairradas puros
Edgardo Pacheco 21 de janeiro de 2017 às 16:00
Outrora Bairrada
Clássico tinto, 2012 35€.
Messias Bairrada Clássico Garrafeira tinto 2013: 20€.
Frei João Bairrada
Clássico branco 2015 15€.


No país do duopólio vínico Douro/Alentejo, duas semanas seguidas a escrever sobre a Bairrada pode levar alguns leitores a pensar que me aconteceu alguma coisa ruim. Bem pelo contrário. Nos últimos tempos, provei vinhos da Bairrada que me deslumbraram. Novos ou velhos, brancos, espumantes ou tintos, da Bairrada saem vinhos com um perfil que não encontramos em mais lado algum.

Esta é uma região complexa a diferentes níveis. Tem uma casta tinta predominante que só releva na sua expressão máxima em determinados anos, assistiu à passagem dos consumidores em peso para o Douro e para o Alentejo e, como se não bastasse, é governada por... bairradinos. A Antropologia não é o meu forte, mas estou convencido que um bairradino puro é capaz de constituir um tipo específico de português, em particular na teimosia que coloca nas suas ideias. Se o individualismo é geneticamente português, na Bairrada estão os melhores exemplares da estirpe. Em almoços, jantares, feiras, reuniões de toda a forma e feitio, nunca vi três bairradinos de acordo sobre o mesmo assunto. Pior, cada um defende as suas ideias com carácter quase religioso.

Dito isto, convém sublinhar que as coisas estão a mudar. Lentamente, mas a mudar. Coisa que se deve à equipa da Comissão Vitivinícola da Bairrada (CVR), liderada por Pedro Soares, que, imagino eu, deve ter formação superior em gestão de conflitos.

Depois do torcer de nariz de muitos agentes económicos, a categoria de espumante Baga Bairrada (vinho feito a partir da casta Baga) pegou de raiz. Em menos de dois anos já existem 13 marcas no mercado, qualquer coisa como 350 mil garrafas. E tudo aponta para que mais produtores adiram ao conceito.

Agora, a CVR está empenhada em dinamizar a categoria Bairrada Clássico como estratégia de identificação do que deve ser um Bairrada puro.

Durante décadas, um tinto genuíno da Bairrada era feito com a casca Baga. Veio a moda dos vinhos doces, cheios de fruta, macios e fáceis de beber um ano depois da vindima e as vendas dos vinhos da região caíram a pique. A fórmula que então se encontrou para estancar o problema foi permitir, nos vinhos com denominação de origem, a participação de outras castas mais em voga, nacionais e estrangeiras (Touriga Nacional, Tinta Roriz, Syrah e por aí fora).

Ora, como havia quem advogasse que se corria o risco de perda do perfil de vinhos tintos que identificavam a Bairrada, genericamente feitos com a predominância da casta Baga, a CVR está agora apostada em dinamizar o aparecimento de mais vinhos certificados como Bairrada Clássico. No caso dos tintos, serão vinhos com, pelo menos 50% de Baga e 30 meses de estágio mínimo, 12 dos quais em garrafa. No caso dos brancos, a lista de castas é mais abrangente (Cercial, Bical, Arinto, Maria Gomes e outras), com estágio mínimo de 12 meses, seis dos quais em garrafa.

Ao contrário do que acontece no Dão com a categoria Dão Nobre (que exige a obtenção de 90 pontos na classificação da câmara de provadores), na Bairrada, os regulamentos exigem que o vinhos tenham um perfil que recordem o que eram os grandes clássicos da região. Em duas penadas, muita mineralidade e acidez nos brancos, muito carácter vegetal, mineralidade e adstringência nos tintos, sendo que pelo meio, para os dois, há variedade de aromas e sabores e uma longevidade acentuada.

Neste momento, existem no mercado três vinhos com o selo Bairrada Clássico, sendo que, em prova recente, a CVR fez questão de mostrar outro vinho que, apesar de já não existir nas prateleiras - o Quinta de Baixo 2003 - revelar na perfeição o que deve ser o Bairrada Clássico.

O branco Frei João 2015 tem uma mistura de flores com frutos cítricos e a mineralidade da praxe. Deve ser comprado agora, mas bebido a partir de 2018. O tinto Messias de 2013 é, de facto, um clássico. Notas de tabaco, casca de cereja, especiarias, com a boca a indicar a habitual adstringência da casta. O Outrora 2012 é mais profundo e contemporâneo, com as notas de chocolate negro, especiarias, e frutos pretos, sendo que na boca é mais doce e muito guloso.

Só espero que à categoria Bairrada Clássico aconteça o mesmo que aconteceu ao espumante Baga Bairrada. De início, poucos; para o ano, muitos.




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