Weekend Baptista-Bastos, o adeus a um homem bom

Baptista-Bastos, o adeus a um homem bom

"Não há mortes naturais. Todas as mortes são injustas como uma culpa infundada, e inúteis como uma heresia", escreveu um dia Baptista-Bastos, que morreu esta terça-feira, 9 de Maio, aos 83 anos.
Baptista-Bastos, o adeus a um homem bom
Bruno Simão
Celso Filipe 12 de maio de 2017 às 12:00
Baptista-Bastos (1934-2017)

Falei pela primeira vez com Baptista-Bastos em 1983 à conta de uma reportagem sobre Urbano Carrasco, que tive de fazer para a cadeira de Jornalismo do curso de Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa. Urbano, um repórter com histórias mirabolantes, já tinha morrido, e portanto era preciso reconstruir a sua vida profissional com base no testemunho de terceiros. Um deles foi precisamente Baptista-Bastos, com quem me encontrei na redacção do Diário Popular.

Outros tempos. Máquinas de escrever em cima da mesa, fumo a pairar na redacção, um ambiente que a memória dessa época preservou como fílmico. A um canto da redacção lá estava Baptista-Bastos, que me contou episódios da vida profissional de Urbano Carrasco com a sua voz tonitruante e intimidante para um imberbe. Ainda teve a amabilidade de me apresentar a César da Silva, repórter da velha cepa, e José de Lemos, cartoonista, amigos de Urbano Carrasco, e de me indicar a morada da viúva deste. Na altura, Baptista-Bastos pareceu-me o arquétipo do jornalista que eu desejava ser.

Voltei a cruzar-me fisicamente com Baptista-Bastos em 1991, quando já estava no semanário Tempo. Em conjunto com a Maria Rodrigues, fiz uma reportagem sobre Lisboa vista por alguns dos seus filhos. Baptista-Bastos era um deles. Marina Mota e Artur Semedo, também já falecido. Recebeu-nos no Diário e falámos sobre a cidade que o encantava. Foi uma boa conversa oferecida por um conversador emérito.

Pelo caminho fui-me encontrando com Baptista-Bastos, através das suas palavras escritas, em jornais ou em livros, ou pela televisão, onde se tornou uma figura mediática com as "Conversas Secretas". Invejando a qualidade do que escrevia - é difícil, muito difícil, escrever bem - e reconhecendo nele o valor inquestionável de se ser um homem.

Durante 15 anos, foi cronista do Weekend, do Negócios. Todas as sextas-feiras oferecia uma escrita imaculada, tecida de memórias e opiniões fortes. Umas duas ou três vezes encontrámo-nos na redacção e reavivámos memórias. De Urbano Carrasco, Manuel da Fonseca e outros que fizeram das palavras o seu ofício. Ele para as recordar, eu para aprender com elas. Em Fevereiro de 2014, fomos fazer-lhe uma entrevista a propósito do lançamento do livro "Tempo de Combate", um livro que reúne as suas crónicas e que qualificámos então como "um calendário de iras, provações e afectos".

Ficou a imagem de um homem lúcido, incapaz de desistir e de uma desarmante ternura, apaixonado pela Isaurinha, a mulher da sua vida. "Conhecemo-nos éramos dois miúdos, eu estava desempregado por motivos políticos, é claro. Estive envolvido na Revolta da Sé, aliciado pelo Urbano [Tavares Rodrigues]. Eu dizia logo que sim a tudo o que era revolução, não podia viver neste país. E já tinha viajado, já tinha estabelecido confrontos. Conheci a Isaura quando tinha 25 ou 26 anos, e ela, 20. Contei-lhe tudo, 'olha que eu estou metido em coisas', e ela, 'eu espero por ti o tempo que for preciso'. Assim foi. E andamos nisto." E antes: "Sou um Isauro-dependente."

Esta quarta-feira, durante o velório, a D. Isaura camuflou a dor num sorriso afectuoso, "vai fazer-me muita falta". A nós também.

Sem palavras capazes de expressar o pesar, socorro-me das suas: "Não há mortes naturais. Todas as mortes são injustas como uma culpa infundada, e inúteis como uma heresia."





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