Weekend Caminhar até Santiago já não é só promessa

Caminhar até Santiago já não é só promessa

A história do Caminho de Santiago perde-se no tempo e cruza-se com a lenda do destino do corpo de São Tiago. No século XXI, os motivos religiosos para a peregrinação misturam-se com o turismo e a cultura.
Caminhar até Santiago já não é só promessa
Luís Vieira/Correio da Manhã
Alexandra Noronha 19 de maio de 2017 às 14:00
Fazer o caminho de Santiago é, à partida uma experiência espiritual. Ou antes, era. Entre os milhares de pessoas que percorrem a malha de percursos que partem um pouco por toda a Europa e desembocam em Santiago de Compostela, há uma parte significativa que vem "em bando", com os amigos. A religião e a espiritualidade convivem cada vez mais com o turismo e o desporto, mas quem vai garante quem vem de lá diferente. Veja-se, por exemplo, o filme "The Way" (2010), protagonizado por Martin Sheen, que faz o papel de um médico americano que é obrigado a viajar para a Europa, depois de o seu filho (Emilio Estevez, filho na vida real e realizador da obra) morrer ao tentar levar a cabo a peregrinação. Com o desgosto, Sheen resolve fazer os 800 quilómetros do Caminho Francês, que começa na fronteira de Espanha com França, para homenagear o filho, e acaba por mudar a sua vida.

Filmes como este contribuem para uma massificação crescente do Caminho, que traz cada vez mais desafios. Para um veterano das rotas de Santiago, como Manuel Araújo, técnico superior do Arquivo Histórico da Câmara do Porto, as mudanças dos últimos 20 anos são notórias. "Agora é o comércio que está por trás do caminho. É uma fonte de rendimento para as populações que vivem por onde ele passa e que estão a renascer graças aos caminhos. Isso é claro um factor positivo. Mas o que eu vejo mais é o crescente número de peregrinos que, enquanto há 15 anos o faziam porque se informavam sobre os objectivos, agora como é moda ir a Santiago muita gente veio com os amigos, o que me admira", contou ao Negócios.


Em 2016, 277.854 pessoas terminaram o Caminho de Santiago. Segundo dados da Oficina do Peregrino, 49% fizeram o percurso por devoção religiosa, enquanto 48% invocaram razões de natureza religiosa e cultural e 8% apenas a fizeram por um motivo de ordem cultural.


O número de peregrinos portugueses que se metem ao caminho tem estado a crescer sustentadamente e no ano passado representaram 9% do total que chegou a Santiago, com 13.245 pessoas, segundo os dados da Oficina do Peregrino, que acolhe e contabiliza quem chega à cidade em peregrinação. No mês de Março de 2017, do total de peregrinos que terminaram o Caminho, 15% eram portugueses.

Quem faz a rota conhecida como "Caminho Português", por exemplo, a partir do Porto, percorre perto de 200 quilómetros para chegar à Catedral de Santiago de Compostela, o destino da peregrinação. Manuel Araújo não tem dúvidas: a rota nacional "está a crescer a nível de peregrinos e poderá ainda ter um destaque maior porque é um caminho muito rico em património natural e construído. Temos esta mescla o que enriquece bastante o Caminho", explicou.

O dilema entre o turismo e a religião é um dos principais desafios das rotas que se debatem ainda com alguma falta de oferta de alojamento e refeições, sobretudo nas áreas mais distantes do caminho central. "Os albergues poderão ser uma das lacunas em algumas zonas, principalmente a sul do Porto. A norte do Porto há albergues que satisfazem as necessidades dos 20 a 25 quilómetros por etapa. Agora o que ainda falta trabalhar, e terão que ser as câmaras e divisões de turismo a fazê-lo, é um menu do peregrino, que em Espanha se encontra em quase todos os restaurantes", garante Manuel Araújo.

Séculos de história

A peregrinação em nome de Santiago é tão antiga que se perde na história. Reza a lenda que os restos mortais do São Tiago, Apóstolo de Cristo, foram enterrados na cidade da Galiza, no local onde fica a Catedral. Mas mesmo antes disso, já os romanos percorriam uma estrada que faz hoje parte das rotas, mas para fazer comércio. Aliás, foram os conquistadores de Roma que começaram a chamar "Finisterrae" a Finisterra, para onde alguns peregrinos continuam a sua jornada, depois de Santiago, até ao mar. É um caminho árduo e com menos condições, para chegar literalmente ao "Fim da Terra".


O "nascimento" oficial do Caminho veio com a descoberta do túmulo de São Tiago, durante o Reinado de Afonso II, (792-842). Mas nestes tempos antigos tudo andava ainda devagar e foram precisos mais 200 anos para a peregrinação se disseminar por uma Europa católica e cada vez mais fanática. Foi pela mão do Arcebispo Diego Gelmírez (1100-1140), que Santiago se converteu numa rota de peregrinação, ao mesmo nível de Roma e Jerusalém, segundo as informações da Oficina do Peregrino.

A primeira Catedral nasceu em sobre o túmulo do santo e a cidade cresceu à sua volta. A época dourada da peregrinação deu-se nos séculos XII e XIII e no século XIX temeu-se que desaparecesse, com a evolução dos transportes. Mas isso não aconteceu e nos anos 80 do século passado, o Papa João Paulo II deu o impulso final ao sucesso do Caminho, quando fez as jornadas mundiais da juventude em Santiago de Compostela, e transformou as velhinhas rotas numa atracção para cristãos em todo o mundo.

Caminho português "a caminho" da Unesco

No ano passado, a Oficina do Peregrino contabilizou 277.854 pessoas que terminaram o Caminho e que foram pedir o diploma, a Compostela, com a a apresentação da credencial, uma espécie de passaporte que vai sendo carimbado na jornada, para provar que o peregrino fez mesmo a rota. Quem vai a pé tem que fazer pelo menos 100 quilómetros, mas quem optar pela bicicleta tem que cumprir um mínimo de 200 quilómetros. 91% das pessoas foram a pé e mais de 50% são homens. 55% dos peregrinos têm entre os 30 e 60 anos.

49% das pessoas que terminam o Caminho, fazem-no por motivos religiosos, mas 48% alegam razões culturais e religiosas. 8% foram por razões culturais apenas. Os estrangeiros já são mais do que os espanhóis, representando 55% do total, com os italianos em grande destaque, segundo a Oficina do Peregrino. O caminho francês é o mais escolhido, com 63,3% dos peregrinos. Segue-se o português, com 18,7%.

Manuel Araújo diz que a massificação do Caminho é "um pau de dois bicos", sobretudo no Caminho francês, "que tem milhares de pessoas, porque acaba por se desvirtuar um pouco. Há muitos interesses económicos", referiu. Mas claro, há impactos positivos nas comunidades. "O facto de haver muita procura faz com que as comunidades tenham mais oferta. Um peregrino pode deixar entre 30 e 40 euros por dia no caminho. E isso é uma fonte de rendimento grande", salientou.

Do lado de cá da fronteira, o Caminho nacional está a preparar uma candidatura à Unesco, uma iniciativa do Eixo Atlântico, uma associação que reúne municípios do Norte de Portugal e da Galiza. O objectivo é que a entidade reconheça esta rota até 2021, ano do próximo Jacobeu (quando o dia do apóstolo São Tiago, 25 de Julho, calha a um domingo). E isso, claro, pode trazer ainda mais gente à rota portuguesa, que conta já com várias variantes, que depois se cruzam na parte central, em Valença ou na Galiza, a caminho da Catedral, com esperança de ver nem que seja pelo menos uma vez o enorme "botafumeiro" a abençoar com incenso a missa do Peregrino.



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