Weekend Cara ou coroa?

Cara ou coroa?

Uma moeda é mais do que algo que trocamos por um bem. Seja de ouro, prata ou cobre, ela tem inscrita informação que nos ajuda a entender a História. No novo Museu digital da Casa da Moeda vão estar mais de 35 mil, que circularam em Portugal desde D. Afonso Henriques.
Cara ou coroa?
Filipa Lino 03 de fevereiro de 2017 às 12:00
A chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498, foi um acontecimento que mudou o mundo e colocou a coroa portuguesa no centro do poder. Portugal vivia uma época de ouro e era uma grande potência. No trono estava D. Manuel I, que reinou entre 1495 e 1521. Ficou conhecido como "o Venturoso", um cognome que ganhou em virtude de o seu reinado ter sido beneficiado pela sorte. Como grande impulsionador dos Descobrimentos, este rei foi o "rosto" da era da prosperidade em Portugal. As especiarias e o ouro que vieram da Ásia e do Brasil enriqueceram os cofres reais e permitiram financiar obras como o Mosteiro dos Jerónimos. Mas D. Manuel I tornou-se rei por acaso. Não era ele que estava na linha de sucessão. Foi por causa de um acidente que herdou o trono. O antecessor, D. João II, não deixou herdeiros directos. O seu único filho legítimo, D. Afonso, morreu aos dezasseis anos, em consequência de uma queda de cavalo. O parente mais próximo era D. Manuel, primo e cunhado de D. João II.

Quando as naus portuguesas partiram para descobrir o caminho marítimo para a Índia, desejado por portugueses e castelhanos, o rei mandou lavrar o português, uma moeda de ouro, que pesava cerca de 35,5 gramas e que, durante 70 anos, foi a maior e mais pesada moeda europeia. A moeda destinava-se a pagamentos nas Índias Orientais. Tinha escrito em latim: "Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, daquém e além mar em África, Senhor da Guiné, da conquista e navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia." Seria uma espécie de cartão-de-visita do monarca. No outro lado da moeda, ao centro, está a cruz de Cristo, símbolo do império.

"O português foi, claramente, uma moeda de propaganda de D.Manuel I. O seu prestígio na Europa da época foi tal que, no final do século XVI até ao terceiro quartel do século XVII, várias cidades do Norte da Europa (Hamburgo, Lubeque, Dresden, Zwolle e Daventer, entre outras), cunharam numismas com a mesma configuração (cruz de Cristo) e nome equivalente - portugaloser ou portugaloide - e, na Polónia, a própria designação de Portugal", escreve a numismata do Museu do Banco de Portugal, Maria Cristina de Sousa Moraes, no livro "Moedas com História". Portugal estava na crista da onda naquela época. "O português era uma espécie de euro naquela altura, aceite em todo o lado", explica Duarte Azinheira, director do novo Museu Casa da Moeda digital, que foi "inaugurado" oficialmente no dia 16 de Janeiro.

Ganhar novos públicos

O português é uma das cerca de 35 mil moedas que estão disponíveis para consulta, assim como 9.500 medalhas, apenas à distância de um clique, no sítio www.museucasadamoeda.pt. Todas elas contam histórias e a História de Portugal. "Não temos de olhar para a moeda apenas como um objecto estático", defende Duarte Azinheira. Com esta nova vertente tecnológica, o director do museu espera ganhar um público mais jovem, para além dos coleccionadores, amantes de moedas e académicos. "Essa é uma preocupação das Casas da Moeda na Europa", que pretende atrair as novas gerações, mostrando-lhes que as moedas podem ser "uma forma divertida de contar a História". O site do museu tem pequenos vídeos explicativos. Como o "Morabitino, a Jóia da coroa", que fala sobre a peça mais valiosa da colecção do Museu Casa da Moeda.

Para já só estão disponíveis online cerca de 10 mil moedas. "Escolhemos as mais significativas para iniciar o processo", diz aquele responsável. O novo sítio museológico tem uma das mais importantes colecções numismáticas e medalhísticas da Europa. "Tudo isto existe nos cofres da Imprensa Nacional-Casa da Moeda", diz, mas a opção de mostrar este espólio online e não num museu físico, como já aconteceu no passado, prende-se sobretudo com o facto de a "tecnologia trazer muitas vantagens". Neste formato, "cada moeda pode ser ampliada e vista com todo o detalhe". As imagens estão em alta definição. E, além disso, já existe o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal, que pode ser visitado. "O que fazia sentido era um museu complementar ao do Banco de Portugal", considera. E as duas instituições já são parceiras em vários projectos, nomeadamente editoriais. O Museu digital Casa da Moeda vai também promover várias exposições temporárias ao longo do ano em parceria com outras entidades museológicas. Actualmente está patente nas suas instalações, na Avenida António José de Almeida, em Lisboa, a mostra "Padrões de Poder - Moedas de al-Andalus (séculos VIII-XV)", em parceria com o Museu Nacional de Arqueologia. São centena e meia de moedas dos séculos VIII a XV, de ouro, prata e cobre, representativas das diversas fases da história muçulmana no espaço ibérico, que podem ser visitadas até 16 de Julho na Casa da Moeda, e também estão disponíveis no site.

Tudo começou com o Marquês de Pombal

A colecção da Imprensa Nacional Casa da Moeda, que agora está disponível para ser visitada a partir de qualquer parte do mundo e a qualquer hora, começou a ser "construída" pelo Marquês de Pombal. Foi ele que em 1777 mandou guardar todo o tipo de moedas e medalhas, portuguesas e do resto do mundo, modernas e antigas. Ao longo dos anos, foram sendo acrescentadas novas peças através de aquisições e doações. A colecção do rei D. Luís também se juntou ao espólio. Já em 1924 o Presidente da República Manuel Teixeira Gomes inaugurou o Museu Numismático Português, na Rua de São Paulo, em Lisboa. Cerca de duas décadas depois, em 1946, o museu mudou-se para o então recém-construído edifício modernista da Casa da Moeda, onde está até hoje. Aí, a colecção ficou em exposição ao público até 1987. Nessa altura, por razões de segurança, o acervo foi recolhido e guardado na Casa-Forte da Tesouraria. A partir daí a colecção só ficou disponível para visita através de marcação. Agora, nesta nova fase digital, Duarte Azinheira espera chegar a um público mais vasto e considera que este formato tem uma vantagem. É mais fácil "afinar" o museu ao gosto dos utilizadores porque "a qualquer momento podemos corrigir aquilo que não está bem".





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