Weekend Charles Manson, o anjo mau

Charles Manson, o anjo mau

O sonho de sucesso transformou-o num homicida psicopata. O julgamento, um verdadeiro espectáculo, deu-lhe o que pretendia: a sua imagem ocupou a primeira página da revista Rolling Stone. Charles Manson é um fruto do seu tempo: quando a América vivia uma mutação radical e irrompia o reequilíbrio político de sinal contrário.
Charles Manson, o anjo mau
Fernando Sobral 24 de novembro de 2017 às 12:00
Charles Manson, que morreu no início desta semana com 83 anos, sonhava com duas coisas: ser famoso e ser uma estrela rock. Ganhou a fama, não por ser um músico reconhecido, mas porque foi o cérebro de uma orgia de matanças que, em 1969, amedrontou a cidade dos anjos, Los Angeles. O anjo mau desta história, que deixou mortos a actriz Sharon Tate (então mulher do realizador Roman Polanski) e sete outras pessoas, sonhava com uma liberdade muito nebulosa e, para isso, criara um culto apocalíptico que nascera do seu fascínio pela cultura rock.

Obcecado pelo disco "White Album" dos Beatles, que acreditava que profetizava a guerra final a que chamava "Helter Skelter" (expressão retirada de uma canção do grupo de Liverpool), chegou a viver em casa de Dennis Wilson, dos Beach Boys. Pensava que esta amizade lhe traria um acordo de gravação de um disco. Mas isso nunca aconteceu. A fama, curiosamente, conheceu-a por trás das grades: ali editou dois discos, "LIE" e "Live at San Quentin," e os Guns N'Roses e Marilyn Manson gravaram temas que ele escreveu. Não se ficou por ali: o julgamento, um verdadeiro espectáculo, deu-lhe o que pretendia: a sua imagem ocupou a primeira página da revista Rolling Stone. Charles Manson é um fruto do seu tempo: quando a América vivia uma mutação radical e irrompia o reequilíbrio político de sinal contrário. Era um sinal para os "baby boomers" do futuro próximo: cortariam o cabelo e, em vez de alucinogénios, passariam a tomar antidepressivos.

O ano da barbárie cometida pela Família Manson, sobretudo os assassinatos da grávida Sharon Tate e dos amigos que estavam na sua casa, e a orgia de sangue que se lhe seguiu, foi tempestuoso. O rock contracultural chocava com o "establishment" político. A sociedade parecia viver em delírio: Neil Armstrong e Edwin "Buzz" Aldrin, logo no início de 1969, tinham-se tornado os primeiros homens a pôr os pés na Lua, concretizando o sonho de John F. Kennedy no início da década, e o primeiro Boeing 747 descolava. Mas era também o ano em que os Beatles terminavam o seu périplo, editando o último álbum, "Abbey Road", e dando o seu último concerto. E o festival de Woodstock atraía 350 mil fãs, com actuações de Jimi Hendrix, The Who, Joan Baez, Janis Joplin, Jefferson Airplane e Crosby, Stills, Nash & Young. Na Grã-Bretanha, enquanto era finalmente abolida a pena de morte, era emitido o primeiro programa dos Monty Python. E nos EUA surgiam os Marretas no "A Rua Sésamo" da PBS, a nova rede pública de televisão.

As duas faces da sociedade confrontavam-se. Sobretudo na América. A oposição à guerra no Vietname aumentava e o governo dos EUA anunciava a primeira retirada de soldados daquele país. Não era tudo: Richard Nixon tornava-se, nesse ano, Presidente dos EUA e, também nesse ano, Ronald Reagan, governador da Califórnia, ordena à Guarda Nacional para intervir contra os estudantes na universidade daquele estado. Em todo o mundo, a inflação era agora a grande dor de cabeça. Mas, nas sombras, construía-se o futuro: em Outubro de 1969, é feita a primeira comunicação através do sistema Arpanet, entre a UCLA e o Stanford Research Institute. A base da futura internet começava a ser construída. Mas foi num Agosto de todas estas transformações que Charles Manson e a sua Família apocalíptica desenvolveram a sua orgia sangrenta.

Segundo o biógrafo de Manson, Jeff Gunn, "Charles Manson era o homem errado no lugar certo e na hora certa". O resultado foi uma calamidade. O sonho de sucesso transformou-o num homicida psicopata. Nascera como Charles Milles Maddox, a 12 de Novembro de 1934, em Cincinnati, Ohio. O sobrenome Manson foi adoptado do padrasto, William Manson. Permaneceu quase toda a vida adulta encarcerado após ser condenado por crimes diversos. Quando foi libertado, em Março de 1967, já tinha 32 anos: era semianalfabeto, ladrão de carros e falsário. Foi parar a São Francisco e, lá, aterrou no nascente mundo da contracultura.

Manson possuía um intenso carisma. Formou uma comunidade de jovens desajustados como ele e que tinham abandonado as respectivas casas. Criou-se assim a Família. Viviam de pequenos golpes e escolheram um lugar nos arredores de Los Angeles como residência.

Fã dos Beatles, Manson queria ser ídolo do rock e, na altura, encontrou em Dennis Wilson o instrumento perfeito para conseguir o que queria. Wilson levou Manson para lugares da moda, como o lendário clube de LA, Whisky a Go Go, e apresentou-o a Neil Young e John Phillips (The Mamas and The Papas). Através de Wilson, Manson conheceu Terry Melcher, filho da actriz Doris Day, e um dos produtores musicais de maior sucesso de Los Angeles. Melcher interessou-se em ouvir a música de Manson, mas logo percebeu que ele era um psicopata e as negociações não progrediram. Manson nunca esqueceu a "traição" de Melcher e jurou vingança. Conhecia o endereço de Melcher e sabia como entrar na sua casa, fugindo dos alarmes. Porém, o produtor mudara-se e quem habitava a casa era a actriz Sharon Tate, que tinha 26 anos e estava grávida de quase nove meses do realizador Roman Polanski. Todos os fantasmas se soltaram numa orgia de sangue.

Charles Manson tinha teorias alucinadas sobre o destino da humanidade. Acreditava num confronto racial entre brancos e negros, que conduziria a um extermínio. E só ele, Manson, e sua Família, escondidos no deserto, sobreviveriam. Ao criar esta teoria, misturava conceitos da Bíblia com as canções do "White Album" dos Beatles. Para ele, cada canção tinha um significado apocalíptico, e por isso baptizou de "Helter Skelter" (uma das faixas mais contundentes do disco) o futuro conflito. O resultado desta demência apocalíptica foi uma tragédia. Manson e os membros da sua Família seriam presos. À sua volta, a sociedade americana transformava-se. O sonho contracultural desvanecia-se. Manson ficaria como símbolo de um tempo em que se procuravam todas as respostas para muitas perguntas. Foi o anjo mau desta história da década de 60, época em que muitos queriam descobrir o seu paraíso.

Composição gráfica com fotografias da agência Reuters



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