Música Chico Buarque: A rota das caravanas

Chico Buarque: A rota das caravanas

Chico Buarque está de volta com um álbum onde percorre memórias de sons que marcaram o Brasil e outros que o definem hoje. Para lá das polémicas à volta de uma das suas excelsas canções deste “Caravanas”, ele mostra como é um príncipe perfeito da criação poética e musical.
Chico Buarque: A rota das caravanas
Tiago Cação
Fernando Sobral 01 de setembro de 2017 às 13:00
Chico Buarque já cantou tudo. E, como as melhores sereias do oceano Atlântico, já encantou todos. Ofereceu-nos "Tanto Mar", a dizer o que nos separava então e, também, tudo o que nos unia. Há alguns anos, numa entrevista, dizia: "A música brasileira não exclui, assimila." Foi isso que criou um país único, na sua diversidade. Como o próprio explicava, na mesma entrevista: "É um país único, fruto da colonização portuguesa, com emigrantes de todo o mundo, italianos, alemães, árabes, japoneses, com a marca dos escravos trazidos à força... E com origens indígenas antes disso tudo. Tudo isso está presente agora. Em São Paulo, sem ir muito longe, você pode procurar nomes indígenas em muitas ruas. Essas circunstâncias criam um país único."

Agora, numa polémica pífia, Chico Buarque foi colocado debaixo de fogo por causa de uma das canções do seu novo e radioso álbum, "Caravanas". A pretensa "polémica" foi aproveitada para os pouco santos defensores da luta contra o "politicamente correcto" arranjarem um herói, ele que, no Brasil, tem estado ao lado do PT. Paradoxos deste mundo bipolar. Que nos afastam da música. E isso, em Chico Buarque, é essencial. Porque nas suas canções condensam-se palavras e melodias que são a memória de meio século de um país que viveu entre a ditadura e a democracia, entre a liberdade dita nas entrelinhas e a miséria e iliteracia reinante. Entre um pretenso desenvolvimento e a destruição da Amazónia, como se está a voltar a fazer, para que Michel Temer continue na presidência. As canções de Chico Buarque falam de tudo: de amor, de política, de futebol, de samba. Também aqui, neste disco.

"Tua Cantiga" foi acusada nas redes sociais (esse local privilegiado de uma guerra civil sem que alguém se olhe nos olhos) de ser machista. Erro de cálculo: Chico conta uma história, como sempre acontece nos seus cuidados versos para a sua voz ligeiramente aguda. Esta canção virá a fazer parte da herança que ele lega ao Brasil. Este disco, só com nove temas, tem sete inéditos. Se quiserem polémica desértica busquem outra em "Blues para Bia", em que Chico canta "até posso virar menina para ela me namorar". Chega? " Moça do Sonho" é um belo samba para nos embalar. E "Jogo de Bola" (sabe-se como o futebol é um dos divertimentos favoritos de Chico) é outro samba tentador sobre a aproximação da velhice. "Massarandupió" tem a participação do neto Chico Brown (filho de Carlinhos Brown e da filha de Chico Buarque). "Dueto" é também com a família: ali está a voz da neta Clara Brown, num tema feito para o musical "O Rei de Ramos" de Dias Gomes. "Casualmente" é feita em português e em espanhol, com vista para Havana. "Desaforos", um samba-canção, é sobre coisas que acontecem nos restaurantes e na rua. E, depois, para finalizar, há o tema que dá título ao disco, "Caravanas". Nele, Chico questiona-se sobre a opressão nas praias da Zona Sul, interditas aos jovens negros ("Tem que bater, tem que matar/ Engrossa a gritaria/ Filha do medo, a raiva é mãe da covardia/ Ou doido sou eu que escuto vozes/ Não há gente tão insana/ Nem caravana do Arará").

Todo o disco é uma longa viagem pelas influências que acudiram ao gigantesco Brasil. A questão racial está sempre presente em "Caravanas". E a própria linha melódica do disco reflecte isso. "Tua Cantiga" é um lundu (ritmo com origens em África e que passou por um processo de adaptação aos gostos da elite branca nos salões na passagem do século XIX para o XX) e em "Caravanas", em meio à orquestra, a presença do tamborzão (ritmo originário das favelas, derivação do maculelê e que foi apropriado pelo funk carioca). Isso recorda outras aventuras de Chico nestes universos. Como, por exemplo, em "Chico" (álbum de 2011), tinha a incontornável "Sinhá", que falava da complexidade da questão racial no Brasil. "Caravanas" recupera essa densidade, pensando o termo como a concentração de muito em pouco espaço, como os facões e adagas colocadas nas sungas dos moleques de "As caravanas".

"Caravanas" é o último oásis da longa viagem por uma rota da seda imaginária de Chico Buarque em busca do Brasil. Basta pensarmos na sua longa carreira iniciada aos 22 anos com "Chico Buarque de Hollanda", onde descortinávamos, por exemplo, o já politizado "Pedro Pedreiro", sobre a falta de perspectivas da classe operária e que terá tido o auge maior em "Construção" (de1971), "Meus Caros Amigos" (de 1976) ou "Ópera do Malandro" (de 1979). Como sempre ele dribla o tempo, como faz também em "Caravanas". Basta reparar como ele fala do amor que não se encontra apenas nos búzios mas também no Tinder, no WhatsApp, no Facebook ("Dueto"). E surge a questão da ternura em resposta à ofensa, que pode ser transportada para o mundo das redes sociais e seu gosto pela maledicência ("Desaforos").

O quase um século que afasta o lundu do tamborzão e os amores e as dores que se sucederam nesses anos infinitos são o tema central de "Caravanas". No meio de tudo isto Chico prova que continua a ser um músico dos nossos tempos e não do passado. Este disco mostra como o músico brasileiro continua a ser alguém que cria magia com as palavras e faz dos trocadilhos e das mensagens cifradas uma fórmula grandiosa. Experimentando sons, Chico não abandona o dom da palavra e a subtileza da voz que parece contar histórias sem fim. Mas com sentido. Neste disco ele continua a acreditar que "amanhã pode ser outro dia". Chico já fez quase tudo na vida. E sempre bem. 





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